13 de mar de 2014

'Memórias dos Abitantes de Paris'

Eu aproveitei a folga de Carnaval para leitura do livro 'Memórias dos Abitantes de Paris', do publicitário mineiro David Paiva [Editora Quixote/Moinhos, 312 páginas, R$42]. Achei sensacional! Trata-se das memórias do autor, nos tempos de infância e juventude, ali pelos anos 1950 e 1960. A razão do título curioso é uma das buscas a se fazer durante a leitura. O texto de David, além de agradabilíssimo, tem três coisas que eu acho essenciais para esse tipo de literatura: primeiro, o resgate de detalhes muito peculiares que permitem ao leitor ambientar-se bem na história; segundo, a visão personalíssima e sem receios de atrever-se pela acidez de opinião; e, por último, o tom aí entre bem humorado e muito irônico. Mas, como arquiteto, eu não pude deixar de me apegar e dar boas risadas com as provocadoras descrições dos ambientes urbanos de Araxá e Belo Horizonte, daquele tempo. Nesses momentos, o David é absolutamente cruel - no que eu concordo cem porcento - com a feiura das nossas cidades e o habitual desrespeito pelo espaço público. Recomendo enfaticamente a leitura!


"A vida urbana de Belo Horizonte era um sistema irrigado pelo centro. O corte das árvores foi uma demonstração truculenta, inconsequente, da tendência muito brasileira de menosprezar o conforto público e o patrimônio comum da beleza urbana. foi como se o prefeito de Roma resolvesse asfaltar a Villa Borghese. Nossas árvores não tinham tanta história, nunca haviam pertencido a um poderoso cardeal sobrinho do papa, mas tinham sua própria e curta história, a melhor possível até ali. Talvez um dia chegassem a nobreza secular da Villa Borghese; mas seria esperar por um senso de respeito por nós mesmos muito além dos costumes brasileiros, não porque aqui faltem papas e famílias papais, mas porque os renques da Afonso Pena destinavam-se a sombrear apenas as pessoas comuns (até banqueiros e políticos, quando passavam por ali, o faziam num gesto de condescendência à rua). As árvores da Afonso Pena impediam que o sol agredisse vendedores de loterias, pequenos trabalhadores que ali esperavam ônibus e bondes, gente de todo nível social que ia ao trabalho, à escola, aos cafés e às livrarias. Era uma sombra democrática, sob folhas verdes para todos, que já custara investimento público, trabalho e tempo, e que até desaparecer, sob a ruidosa jecura de um deslumbrado pela 'fábrica de tráfego', nos deu também muito orgulho". [pág.244]

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