12 de mar de 2014

Cidade aprisionada

Eu não quero discutir aqui dimensões ideológicas desse ou daquele governo. Eu não quero discutir aqui as vinculações desse ou daquele governo ao grande capital que domina as cidades ou não. Eu quero falar de uma coisa mais comezinha, mais doméstica: o profundo desapreço pela vida urbana cotidiana que parece marcar os atuais prefeitos ou a maioria deles, seja de que partido for. Governar cidades parece ter se tornado uma 'coisa maior' que só é possível com grandes obras, com grandes transformações. Não há mais uma compreensão, digamos, vivencial da cidade. Não há mais uma busca pelo conforto do cidadão, na sua rotina. Não interessa mais a cidade real que se vive, quando se põe o pé na rua, na porta de sua casa, no seu bairro; interessa apenas a cidade imaginária que se vê, em tomadas cinematográficas, na tela da TV. Um dos mais dolorosos exemplos desse comportamento insano está no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte. Sob o falso pretexto da preservação cultural, a Prefeitura está obrigando todos os cidadãos do bairro, de forma humilhante, a conviver, na sua rotina, com um bairro aprisionado, com uma cidade aprisionada, entre cercas metálicas encimadas por essa coisa terrível chamada concertina.


+ Prédio + Tédio

Já faz tempo que o bairro Santo Antônio vem se verticalizando. Não é de agora. Seria natural que a Prefeitura, numa visão dinâmica de planejamento, viesse avaliando o efeito dessa verticalização versus a capacidade de suporte do bairro. A capacidade do sistema viário, por exemplo, de um bairro cheio de ladeiras. A expectativa mais provável seria a desaceleração desse processo. Ao contrário, no entanto, nos últimos anos, essa verticalização se intensificou, com edifícios com alturas até então desconhecidas na região.

Não bastasse isso, o único conjunto de casas tombado, na Rua Congonhas, virou alvo de ataque especulativo, com apoio da Prefeitura. Ao que se diz, as casinhas que serviram de cenário do filme do 'menino maluquinho', raras reminiscências do velho Santo Antônio da FAFICH, dos estudantes, dos bares, vão virar mísero gradil de um conjunto de quatro torres de vinte e tantos andares. Imagino que a Prefeitura - que devia saber - não faz a menor ideia de como ficará o entra e sai do bairro. Mas a Prefeitura parece saber bem como fazer para se chegar rápido a essa solução. E para a pior solução escolheu o pior caminho.

Segundo se tem noticiado, com o cancelamento de alvarás de funcionamento e o indeferimento de novos alvarás, a Prefeitura forçou a não utilização dos imóveis. Em seguida, sem nenhuma respeito com o cidadão do bairro, aprisionou todas as casinhas atrás de um tapume metálico agressivamente arrematado por concertinas metálicas. Sem dó nem piedade. Sem nenhuma urbanidade. Na verdade, ao passar por ali, bem no centro do Santo Antônio, em local tão habitual, tão emblemático, não é possível saber, ao certo, se são mesmo as casinhas que estão aprisionadas ou se são os moradores que estão atrás das grades. Um horror!


[Fotos Rua Congonhas-BH / Beatriz Gontijo]

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