20 de jan de 2014

Superando polaridades

Este artigo foi originalmente publicado no caderno de aniversário da cidade, editado pelo jornal SETE DIAS em 29/11/2013. Como ele aborda temas que eu quero debater aqui, neste ano de 2014, especialmente o tema do 'desenvolvimento regional' e o do 'perfil da liderança contemporânea', eu tomo a liberdade de postá-lo aqui, como registro. Sobre esse artigo, comentando-o junto com outros artigos e entrevistas, publicados no mesmo caderno, eu escrevi, para a edição de 06/12/2013, do mesmo SETE DIAS, na coluna Cidade Aberta, o texto intitulado Prosperidade.


Por Antônio Bahia e Flávio de Castro [*]

O Centro Universitário de Sete Lagoas – UNIFEMM tem se dedicado, há alguns anos, à consolidação do Centro de Desenvolvimento Regional como plataforma de convergência das ações de pesquisa, extensão e prestação de serviços do próprio UNIFEMM, de projetos de pesquisa e desenvolvimento tecnológico do setor empresarial e de iniciativas de governos e instituições públicas nos campos econômico, urbano-ambiental e social. A intenção é constituir um lócus de inteligência capaz de orientar estrategicamente o desenvolvimento da região de Sete Lagoas, compreendida como o longo e heterogêneo território intermunicipal que interage, numa ponta, com a região metropolitana de Belo Horizonte e, em outra, com o sertão mineiro.

A hipótese considerada é que o momento atual contém especificidades que favorecem a adoção de um novo modelo de desenvolvimento baseado intensivamente em conhecimento.

Na compreensão do CDR-UNIFEMM, o grande aporte de investimentos por empresas transnacionais, na última década, com introdução de um padrão tecnológico bastante superior ao apresentado pelo parque industrial precedente e com estabelecimento de demandas de mercado muito mais modernas, abre cenários inusitados e vantajosos para o desenvolvimento local de tecnologia, de forma compartilhada por uma ampla e confiável rede de relacionamentos, comprometida com a inovação e o empreendedorismo.

Concretamente, acredita-se que essa é uma condição necessária para que se consiga, por um lado, ampliar e reter, internamente, os ganhos sociais do processo econômico corrente; e, por outro, se alcance, regionalmente, um modelo de desenvolvimento mais descentralizado e equilibrado.

A visão, nesse caso, é de que, nos últimos cinquenta anos, a economia industrial regional desenvolveu-se fortemente concentrada na cidade de Sete Lagoas, o que teve um impacto positivo na elevação do seu patamar de urbanização e no consequente aumento de sua competitividade nos âmbitos estadual e nacional. Entende-se, todavia, que, doravante, os efeitos colaterais desse modelo concentrador serão sempre mais onerosos, apontando, por exemplo, para um colapso urbano e da rede de prestação de serviços públicos e privados.

Essa moldura conceitual parece útil para a abordagem do tema que, em muito boa hora, o jornal SETE DIAS traz ao debate, no aniversário de 146 anos de Sete Lagoas: o das perspectivas do desenvolvimento local, em especial, com relação ao Vetor Norte da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

No entendimento do CDR-UNIFEMM, ao canalizar a energia desenvolvimentista irradiada a partir dos empreendimentos de alta tecnologia que estão sendo atraídos para o entorno do Aeroporto de Confins, Sete Lagoas deve superar uma visão polarizada – de ganhos concentrados apenas nas cidades polo – em benefício de um tipo de desenvolvimento regionalizado. Significa dizer, mais objetivamente, que toda a região, ao longo da MG-424, entre BH e Sete Lagoas, deve participar do processo econômico que se vislumbra, não de forma meramente coadjuvante, por força de um transbordamento natural da economia metropolitana, mas de maneira estruturada, com distribuição equilibrada de oportunidades e responsabilidades, como resultado de um esforço conjunto de planejamento.

Embora essa visão pareça óbvia e facilmente executável, é importante lembrar que ela, na prática, não representa a tradição dos planejamentos municipais que se limitam a contornos exclusivamente intraterritoriais. Exatamente por isso, o ordenamento regional exige um número maior de atores, originários seja dos centros de conhecimento, seja do setor público, seja do privado, como defende o CDR-UNIFEMM.

Seguramente, a divisão atual de atividades econômicas – que reserva para Sete Lagoas a hegemonia nos setores secundário e terciário, que concentram cerca de 75% do PIB regional, e para as cidades do entorno, exclusivamente atividades primárias e apenas um quarto da produção total de riquezas – não representa o melhor modelo. Provavelmente, um novo e mais virtuoso modelo que vier a atribuir novas vocações às cidades da região haverá de melhorar não apenas o desempenho econômico de cada uma delas, como, também, permitir uma melhor integração de todas, com menor grau de dependência, na rede de serviços urbanos, especialmente os de saúde e educação, e, ademais, uma melhor distribuição territorial da população.

Sete Lagoas pode ter um papel particularíssimo nessa nova dinâmica regional: não o de concentrar-se, exclusivamente, em seu próprio desenvolvimento, mas, estrategicamente, o de alavancar, como cidade polo, o desenvolvimento de todas as cidades à sua volta. Em outras palavras, desempenhar um papel de liderança regional, de fato.

A propósito, se a origem do corpo discente do UNIFEMM for representativa não apenas da influência dessa instituição, em particular, mas se ela espelhar, no geral, a influência regional de Sete Lagoas, como parece verdadeiro, estima-se que esse novo papel de liderança poderá ser bastante mais ampliado. Nesse caso, tudo leva a crer que caberá a Sete Lagoas não apenas a articulação do desenvolvimento intermunicipal descentralizado até o Vetor Norte, mas, a partir dele, irradiá-lo na direção dos municípios que sobem a BR-040 e a BR-135, até Três Marias e Curvelo.

É precisamente na consolidação desse novo e extraordinário papel de liderança de Sete Lagoas, disseminadora de um projeto de desenvolvimento mais racional e sustentável, que o Centro de Desenvolvimento Regional do UNIFEMM pretende contribuir, nos próximos anos.

[Antônio Fernandino de Castro Bahia Filho é reitor do UNIFEMM; Flávio José Rodrigues de Castro é Assessor de Planejamento do UNIFEMM]

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