28 de nov de 2013

MBA em civilidade

Eventualmente, o Tarcísio Magalhães me dá uma oportunidade de escrever para a Revista CDL. No último número [Edição 07 - Setembro de 2013], saiu um artigo com o título de 'MBA em civilidade' que faz uma ironia sobre a nossa injustificável falta de postura urbana. Ele está transcrito abaixo. Leiam e vejam se gostam.



Pela internet, peguei a conversa pela metade. No super fórum Arq.Futuro, em São Paulo, no mês passado, alguém disse que as pessoas precisavam ser treinadas para viver em cidades. Outro debatedor rebateu dizendo que os governantes é que precisavam ser treinados para governar as cidades. Ao que deduzi, de alguma forma, a conversa girava em torno de algum desajuste entre as pessoas e as cidades superlotadas onde moram. É curioso, quase nove entre dez brasileiros, estatisticamente, nascem e passam toda a vida em cidades e, aparentemente, ainda não estão prontos para isso. É a velha questão da educação. Aí me pergunto: a boa vida urbana, respeitosa, solidária é uma questão de consciência individual ou de consciência coletiva? Ou seja, a cidadania que conduz a uma postura urbana adequada vem do berço ou se aprende na rua? Não faço ideia. Quando circulo pela cidade e sou obrigado a ir pela via, entre os carros, porque os passeios estão cheios de degraus, descarto essa perspectiva individual. Ora, o problema é coletivo: todo mundo transgride a norma que ordena que as calçadas devam ser absolutamente transitáveis. À frente, cuidado: tem material de construção obstruindo a passagem! Isso também é trivial. As calçadas não são públicas, já se tornaram extensão das obras particulares. Mais adiante, há mesas no caminho. Confesso que gosto muito de mesas em calçadas. Tornam a cidade mais aprazível. No mundo todo, isso existe. Mas sem nenhuma regra de convívio com os pedestres só aqui! E o som alto? E o lixo nas ruas? E a concorrência inglória entre as enormes placas do comércio por um lugar à vista do cliente por falta de uma regulação que simplifique a vida de todos? De fato, a conversa lá do Arq.Futuro, que mal assisti, devia ter razão: estamos precisando de treinamento. Reciclagem. Um MBA em civilidade urbana. Em urbanidade. A la Rousseau, seremos nós uma nova espécie de bons selvagens em estado de natureza, digo, em estado de cidade, a espera de um novo contrato social que faça emergir de dentro de nós o nosso lado bom, a nossa aptidão inata para a vida urbana? Ora, mas esse contrato já não está, artigo por artigo, descrito em nosso código municipal de posturas? Aliás, um código que está aí há anos? Difícil dizer que não está. O que nos falta, então, para que sejamos ordeiros? A culpa, não sendo nem individual nem coletiva, será do governo? O que nos falta, portanto, é um soberano que respeite a nossa vontade geral, mas nos imponha o tal código de posturas que já temos, socialmente, pactuado? O que nos falta mesmo é que esse soberano nos ameace e diga que o código, daqui pra frente, depois de meio século de vigência, é pra valer, pessoal? Não faço ideia. Só sei que nas cidades onde as pessoas e governos descobriram como se supera esse imbróglio selvagem, onde construíram uma nova estética e uma nova ordem urbana, todo mundo saiu ganhando. O comércio, inclusive e sobretudo!

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