8 de out de 2013

Marina: um nome fora da cédula

Não se trata de ser contra ou a favor de Marina Silva. Eu, particularmente, apesar de discordar de algumas de suas posições, tenho absoluto respeito por sua trajetória política. De mais a mais, penso que quem tem um patrimônio de 20 milhões de votos tem toda autoridade para jogar o jogo eleitoral de 2014 como bem achar que deve. Gostem ou não os governistas. Sobre a Rede, confesso que acho que é uma coisa heterogênea demais e ideologicamente imprecisa demais para se consolidar como partido. Mas, frente a tantos partidos que estão aí, parece-me muito mais representativa do que vários deles.

Nesse contexto, a análise aqui é uma análise focada: minha opinião sobre a entrevista coletiva em que Marina anunciou sua filiação ao PSB de Eduardo Campos, no sábado, e minha expectativa sobre o impacto que isso terá, daqui pra frente. Duas ajeitadas de bola e três chutes.


Ajeitada de bola I: ‘Partido clandestino’: vitimização pura!
O próprio Alfredo Sirkis, correligionário da Marina, no PV, na Rede e no PSB, em seu ‘sincerocídio’, no dia anterior ao anúncio, sobre o episódio do veto do STF à Rede Sustentabilidade, reconheceu que a Rede havia ‘dado mole’, que devia ter se ‘precavido’ e que tudo era questão de ‘auto complacências resultantes de uma mística de auto ilusão’. Na verdade, achei bizarro Marina querer empurrar para o STF a responsabilidade pelo insucesso da Rede, sobretudo, quando se sabe que ela jogou fora dois preciosos anos na indecisão entre formar ou não um novo partido, após sua saída do PV, ainda em 2011. A propósito, esse jeito indeciso de Marina também foi criticado pelo Sirkis, no seu blog [alfredosirkis.blogspot.com.br], quando ele disse que ela ‘falha como operadora política’ e ‘cultiva um processo decisório ad hoc e caótico’. Palavras dele.

Ajeitada de bola II: Visão programática com Caiado, Bornhausen e Heráclito, Marina?!
Não, não estou acusando o PSB de nada. O PT e o PSDB, por exemplo, não andam em melhores companhias. Quero apenas afirmar que o nome dessas associações heterodoxas que permeiam todos os partidos é pragmatismo! Não tem nada de visão programática nisso. E essa forma pragmática de se fazer política foi exatamente o centro da crítica de Marina quando saiu do PV e opôs ‘pragmáticos’ a ‘sonháticos’. A ‘nova política’ defendida por ela era uma contraposição à forma de se fazer política de todos os partidos, inclusive do PSB. Então, convenhamos: esse papo de coligação programática não existe! É bom lembrar que o PSB, em sua maioria, foi contra a posição de Marina na votação do novo Código Florestal, abrindo-se, publicamente, aos principais opositores dela: os ruralistas. Isso quer dizer que Marina está errada ao coligar-se com o PSB? Pelas regras da velha política, claro que não! Foi o movimento mais surpreendente que ela poderia fazer. Mas deveria fazê-lo por razões táticas, portanto, pragmáticas, sem blá-blá-blá.

Chute I: Marina: um nome fora da cédula
Salvo engano, torcendo os jornais, o enunciado mais comum sobre o impacto da coligação Eduardo-Marina é, mais ou menos, o seguinte: a coligação foi um golpe de mestre que potencializa, imensuravelmente, a candidatura Eduardo; isola Aécio – o grande perdedor –; e instabiliza, em alguma medida, a candidatura Dilma. Será?!

As próximas pesquisas dirão. Mas não me parece difícil contrapor esse enunciado padrão. Vamos por partes: primeira, foi mesmo um golpe de mestre? Não necessariamente! O fato de ter sido surpreendente não garante que se comprovará, passados mais alguns dias, que foi também magistral. Do ponto de vista prático: nas próximas pesquisas e nas eleições, Marina será, apenas, um nome fora da cédula. O eleitor terá que decidir entre Dilma, Aécio e Eduardo e ponto. Aí, os cerca de 20 e poucos por cento de Marina, nas últimas pesquisas, passam a ser votos livres. Quem garante que eles irão para Campos? Nesse caso, o que está em questão é em que medida Marina tem capacidade de transferir votos. Isso não é simples nem previsível. Especialmente para Eduardo Campos que tem mostrado uma gigantesca inércia, com muita dificuldade de superar a barreira dos 5% dos votos ou pouco mais do que isso. Minha aposta: a transferência de votos para ele será menor do que se tem imaginado.

Se isso for fato, vem a segunda parte: Aécio pode não ser o grande perdedor. Vejamos um ponto: Eduardo Campos era, até ontem, da base dilmista. Pode ter deixado de ser dilmista e até aliado petista. Mas não terá deixado de ser lulista. Uma das hipóteses, inclusive, era de que ele estava pondo a cabeça de fora, exatamente, para se firmar como o candidato de Lula em 2018. Eduardo sabe que Lula é o caminho mais curto para o poder. Daí seu discurso, até agora, de que o lulismo-petismo foi importante para o país, mas que dá pra avançar. Ou seja, até agora, ele se diferenciava, mas não ousava se colocar inteiramente como oposição. Mas com Marina, que demonstrou na entrevista um alto ressentimento contra o PT, a candidatura Campos vai direto para a oposição. Na oposição, ele disputa com Aécio que tem o dobro de intenções de voto dele. Quem garante que parte do voto oposicionista de Marina [lembrando que metade do eleitor de Marina não é oposicionista e tem Dilma como segundo voto] não vai para Aécio, já que, oposição por oposição, Aécio está na frente? Vejam: não será difícil para Aécio mostrar que a nova dupla nasceu da costela política de Lula. Minha aposta: Aécio e Eduardo vão rachar a fração oposicionista dos votos marinistas.

Última parte: essa coligação instabiliza mesmo Dilma? Até agora, a ideia de mais candidatos era avaliada como favorável à oposição. Se essa tese ainda for procedente, menos candidatos, então, favorece Dilma. Essa, inclusive, foi a opinião de Roberto Freire, do PPS, o cara que foi desdenhado por Serra e Marina, que avaliou a nova coligação como um 'equívoco'. Se a minha aposta de que, fora da cédula, Marina transfere poucos votos para Eduardo, então um grande contingente de seus potenciais eleitores, que tem Dilma como segundo voto, vai exercer essa alternativa. Eu aposto nisso.

Aí, é preciso lembrar um detalhe importante no processo eleitoral: para convencer os eleitores marinistas a acompanhá-la no apoio a Eduardo, o PSB conta com apenas 1m54s de tempo de TV. Aécio [PSDB/DEM/Solidariedade], para bater na tecla de que oposição por oposição, ele é o nome, tem o dobro desse tempo: 3m24s. Já Dilma, com os 15 partidos que a apoiam, para seduzir os eleitores dilmistas do patrimônio de Marina, tem o dobro do tempo de TV do Aécio e quatro vezes o de Eduardo Campos: 6m41s. E isso faz toda diferença!

Resumindo: eu acho que os votos potenciais de Marina, sem seu nome na cédula, têm forte propensão a se pulverizarem entre todos os candidatos.

Chute II: Marina está de olho na butique dele?
Corre a versão de que, com o quátruplo das intenções de voto de Eduardo, Marina foi para o PSB, apostando numa dança de cadeiras, ou seja, numa troca de posições. Duvido! E duvido por uma razão simples: Eduardo quer mesmo ser presidente. E para isso, construiu uma coisa rara: um partido para chamar de seu. Se fosse para recuar, seu recuo mais inteligente não seria a favor de Marina, o que, concretamente, o reduziria a um político menor e o descredenciria, politicamente, não só para 2014, mas também para 2018. Seu recuo mais inteligente, seria, altruisticamente, para os braços de Lula, apostando que, como o PT não tem nome para 2018, ele poderia ser a bola da vez. Tudo bem, ele nunca foi PT, mas foi aliado dos petistas desde sempre. Suas chances não seriam pequenas.

Chute III: É a economia, estúpido!
Significa que essa aliança não tem chance nenhuma? Não é isso! Acho que tem sim, mas que isso não depende só dela, não depende só desse 'golpe de mestre' político. Depende da realidade! Se a economia, nesse último ano de Dilma, não for bem; se chegarmos à Copa com uma percepção econômica negativa entre os brasileiros; e se, de novo, durante a Copa, essa insatisfação for às ruas, aí, pode ser que o mote eleitoral mude totalmente o seu eixo. Nos últimos anos, as eleições têm se resumido a uma disputa de legados: o legado tucano versus o legado petista. Ou seja, as eleições têm discutido o passado, não o futuro. Se esse eixo se deslocar, se a paciência nacional com esse debate polarizado pelo retrovisor se esgotar, nesse caso, Dilma e Aécio, os protagonistas desse embate, hoje em dia, perdem e, aí sim, a nova dupla Eduardo-Marina pode ganhar a vitrine. Mas se a economia for minimamente bem, aí duvido.

2 comentários:

Anônimo disse...

Flávio, parabéns pela exposição !!!
Na minha opinião se a economia não afundar, Dilma será reeleita e no primeiro turno. Abraço. CARAMELO

Blog do Flávio de Castro disse...

Caro Caramelo, não duvido disso. Bom vê-lo por aqui, no blog. Volte sempre! Abs, Flávio