24 de set de 2013

Tudo tem limite!

Com o tempo, toda discussão se esgota e chega ao seu caroço. Como diz Pellegrini, ao 'caroço da pedra'. Nesse assunto da falta de médicos em várias cidades brasileiras, até o Carlos Heitor Cony, o Arthur Xexéo e a Viviane Mosé, comentaristas de um programa diário na CBN, sempre bastantes críticos, já jogaram a toalha. Não interessa mais a origem do problema; não interessa se, estatisticamente, faltam ou não faltam médicos no Brasil; não interessa se o problema é de número ou de distribuição; não interessa se os médicos necessários devem ser brasileiros ou cubanos; não interessa se estão sendo contratados assim ou assado; não interessa se há ou não revalida; não interessa essa ou aquela visão partidária; não interessa se eu ou você somos a favor ou contra; a única questão que interessa, nesse momento, é o que se deve fazer, objetivamente, para prover médicos no interior do país, onde eles não existem, e ponto. E, nessa direção, o que os conselhos regionais de medicina estão fazendo, nesses dias, ao não fornecerem registros provisórios aos médicos já selecionados pelo programa Mais Médicos, é deplorável. Boa ou ruim, a solução dada pelo governo está em curso, está amparada legalmente e, sobretudo, não enfrenta nenhuma contraposição viável. Afinal, fora críticas, quais propostas alternativas emergiram, nesses três meses de debate?! Nenhuma! Essa queda de braços que as instituições médicas estão fazendo é um erro, até para a defesa de suas posições. Só reforça seu foco corporativista e seu desapreço pelo problema da saúde pública, de maneira ampla. Tudo tem limite!


[A propósito, do jeito que a coisa vai, para ficar sem atenção médica, não precisa estar no interior do Brasil. Mal comparando, aconselha-se que classe média que paga caro por planos de saúde não adoeça, especialmente, nessa primavera quente, com o ar irrespirável. Fotos nas redes sociais, nesses dias, estão aí mostrando como vários pacientes, crianças em particular, estão padecendo no Hospital da UNIMED de Sete Lagoas. Fotos incômodas, muito incômodas!]

11 comentários:

Edson disse...

Flávio,
Estamos de acordo quanto ao fato de ter ocorrido uma reação desporporcional pelo lado das entidades de classe que já perderam a guerra midiática.
O governo, que é quem deve formular políticas públicas, reduziu a discussão apenas a se o número de médicos é ou não o necessário, numa jogada midiática para tornar conhecido o ministro-candidato e gerar propaganda para a próxima eleição.
Falar em situação emergencial após 10 anos de governo é demais.
Se realmente quisermos discutir seriamente a saúde, vamos discutir a formação médica, as atenções primária, secundária e terciária, o número de leitos hospitalares (que vem sendo fechados aos milhares nos últimos 20 anos), a vacinação, o saneamento básico, o recebimento pelo SUS do atendimento feito na urgência a clientes de planos de saúde, a regulamentação da carreira médica, os vínculos trabalhistas dos médicos, entre outros.
Abs

LEANDRO VIANA disse...

Os medicos brasileiros (grande parte) nem pacientes com planos de saude querem atender, principalmente apos atingir algum nivel de reconhecimento pessoal. Agora, que a Dilma comprou a briga querem apelar para construçao de um SUS de verdade. A Lei do Ato Medico queria restringir ate funçoes de gestao de unidade de saude a profissao medica. Imagina isso! É muito surreal. Tenho minhas divergencias com a forma de governo da Dilma (muito centralizadora e intervencionista) mas admiro muito a coragem dessa mulher e seus acertos tambem.

Edson disse...

Leandro:
Acho que o pior mal que o governo está fazendo é demonizar uma classe inteira.
É verdade que há maus médicos, mas a esmagadora maioria da classe trabalha muito e não é canalha.
A lei do Ato Médico contem alguns excessos que poderiam ser vetados, mas tinha a qualidade de atribuir apenas ao Médico a realização de diagnóstico e a indicação de tratamento, o que vedaria o absurdo de diagnósticos e tratamentos realizados por enfermeiros, farmacéuticos, etc.
Quanto aos planos de saúde, só para ilustrar, a Unimed que é o plano que remunera melhor paga 53 reais por consulta, 29 reais para a realização de uma ultrassongrafia obstétrica e assim por diante, o que talvez explique porque alguns profissionais prefiram não atendé-los.
Espero sinceramente que estas colocações ajudem diminuir um pouco o preconceito e a intolerância com a classe, que como qualquer outra tem em seu meio bons e maus profissionais, mas que na média é constituída por pessoas que trabalham muito, são submetidas a condições de trabalho que não são as ideais e são mal remunerados.
Abs.

LEANDRO VIANA disse...

Edson, não vejo o governo demonizar a classe médica. Eu sou crítico do Padilha, que é médico inclusive, em diversos aspectos na condução do ministério da saúde. Mas com relação ao"Mais Médicos", os argumentos são muito claros: além da má distribuição do profissional pelo país, há também uma relação medico/habitante que foge do ideal. 2 por 1000. O Brasil é um país gigante com realidades muito diversas. O governo lançou um programa voltado para a Atenção Básica que reforça a presença do profissional no interior do país e deu preferencia aos médicos brasileiros. A adesão da classe foi irrisória, mesmo com salário mensal de R$ 10 mil somados a auxilio moradia. Que má remuneração é essa que a classe médica está submetida ao ponto de ignorar o programa?
Sobre o Ato Médico, houve exageros que caso não fossem vetados pela Dilma, tornariam o país e o sistema público de saúde "raquítico e mutilado", além de serem pontos que exigem uma abordagem que foge ao debate corporativista preso a uma classe ou conselho profissional. Qualquer abordagem do tema saúde fora do contexto inter e multi disciplinar é superficial.
Abraços

Edson disse...

Leandro:
Porque com um salário tão atraente quase nenhum médico topou participar do programa?
O brasil tem um número maior de médicos do que o que é recomendado pela ONU e ~´e o segundo país do mundo em número de escolas de medicina, só perdendo para a Índia e forma cerca de 8000 alunos/ano.
Insisto que é reducionista a discussão apenas de número.
A Saúde( e todos os aspectos da vida do país) deve ser discutida integralmente e não apenas jogando para a torcida.
Abs

Edson disse...

Flávio e Leandro:
Apenas para encerrar a minha participação quero deixar claro que eu não tenho nada contra a vinda de médicos ou de quaisquer outros profissionais para o Brasil.
Apenas lastimo a redução da discussão da Saúde ao número de médicos.
Por outro lado goste-se ou não há leis que regem a atuação de profissionais estrangeiros no Brasil, assim como devemos respeitar as leis de outros países quando lá queremos trabalhar.
Abs

Blog do Flávio de Castro disse...

Edson e Leandro,

Ao ler os comentários de vocês, confesso que fico como um pêndulo, ora concordando com um, ora com outro.

Eu tenderia a concordar plenamente com você, Edson, se achasse que os governos - no caso o governo federal - fossem organismos racionais. Mas eles não são. Eles nunca vão se dedicar a qualquer assunto de forma abrangente. Eles sempre vão forçar um reducionismo que permita uma solução pragmática.

Nesse caso, eu tendo a concordar com o Leandro, quando aceito que os governos são instâncias não racionais, mas retóricas.

Acho que vou escrever um texto sobre isso; sobre como funcionam os governos e sobre a limitada capacidade deles de lidar com temas complexos como esse do Mais Médicos.

Abs, Flávio

Edson disse...

Flávio;
Estou profundamente incomodado após este imbróglio, pois na tentativa de analisar os fatos me ocorreu que o reducionismo pode estar presente em todos os temas nacionais (economia, política, finanças, educação, etc)e nós tomamos partido e emitimos opiniões baseados apenas em dados superficiais( ou no viés que mais interessa aos governos de plantão) agindo mais como torcedores apaixonados do que racionalmente.
Na boa, estou reavaliando todas as minhas certezas e me esquivando de ser incisivo, sem tentar avaliar honestamente e sem paixões todos os aspectos envolvidos nas questões.
Abs

Blog do Flávio de Castro disse...

Edson,

Não acho que você tem razão para se sentir incomodado. Os governos podem não ser racionais, mas nós podemos ser.

Não acho que você deve reavaliar posição alguma; sua opinião é muito clara e legítima. Ela contribui muito para o debate.

Eu vou tentar escrever um post sobre 'como os governos funcionam' e, talvez, ele nos permita retomar a conversa em outros termos, que tal?!

Abs, Flávio

Edson disse...

Flávio,
Minha reavaliação não é em relação ao tema "mais médicos"´, que tem me deixado assustado com o nível de desinformação e preconceito.
Meu medo é de estar agindo de forma semelhante em temas nos quais eu não tenha um certo conhecimento.
Quanto a governos Flávio, tudo o que eu queria era um pouco de Planejamento: onde estamos, onde queremos chegar e de que forma.
Meu mal-estar é discutir perfumaria e ver que a minha geração não vai ver um país decente.
Abs

Blog do Flávio de Castro disse...

Edson, entendo e, em grande medida, concordo. Abs.