20 de set de 2013

Tempos intolerantes

Eu não me lembro de ter vivido um momento político tão estranho. Como cidadão, eu gosto de política, eu gosto de ter uma posição política, eu gosto de ter uma opinião política e, sobretudo, eu gosto de conversar sobre política. Ou gostava. É que as melhores conversas políticas são aquelas em que há divergência, contraditório, contraposição. Mas em que há, também, genuína disposição para ouvir o outro, para dialogar e encontrar áreas, ainda que poucas, de consenso. E nada disso parece haver mais. 

No bar, um conhecido chegou transtornado e puxou conversa comigo. O motivo da sua revolta era a decisão do STF pela recepção dos tais embargos infringentes. Confesso que essa é uma discussão que não me interessa porque ela é apenas mais uma que já está inteiramente contaminada e previamente definida. Na prática, não há nada a discutir. Se eu disser que sou a favor dos tais embargos, o pacote vem pronto: então, eu sou petista, sou a favor de corrupção e impunidade, sou isso e sou aquilo. Melhor, portanto, falar de futebol. Mas como o meu interlocutor preferiu manter a conversa e a indignação, eu não disse o que achava e, apenas, fiz a única pergunta que me veio: - "como você deve entender de embargos infringentes, por favor, me explica o que é isso e por que isso é tão ruim e, se é tão ruim, por que que isso foi inventado lá no tal regimento do STF e, se esse demônio está lá há tanto tempo, por que nunca gerou nenhuma indignação". Ele não sabia o que eram os embargos infringentes. E, para ser honesto, depois de ouvir trechos do longo e complicado voto do ministro Celso de Mello, eu tampouco. Aliás, até o momento, não consigo entender como uma coisa tão insípida, como esses 'embargos infringentes', foi capaz de tornar-se tão popular e mover tantos corações e tantas mentes.

Na verdade, em nenhum dos últimos debates nacionais, não só nesse, eu vi boas discussões de mérito. Ou muito poucas. Sobre a redução da maioridade penal, sobre o plebiscito para a reforma política, sobre o Mais Médicos, sobre a PEC 37, sobre todos esses temas abriram-se, apenas e tão somente,  a meu ver, divergências polarizadas. Estigmatizadas. Ideológicas. Imediatas. Contra ou a favor. Pessoalmente, tive a sensação de que, nesse apaixonado mercado de lebres, havia gatos demais sendo contrabandeados; mas fazer o quê?!

Mas saindo das grandes discussões nacionais e entrando nas grandes discussões sete-lagoanas, eu diria que  também não me lembro de ter vivido um momento político tão estranho. Mas por razões opostas. É que aqui nunca houve tamanha unanimidade, se o nome do que está no ar é mesmo esse. Aqui, desde a mudança de governo, simplesmente, não há debate político algum, sobre tema político nenhum.

Na porta do meu escritório, outro conhecido, habitual frequentador da praça da Prefeitura, fã de carteirinha do atual prefeito, tomou-me pelo braço e, em tom amistoso, sentenciou: - "secretário, eu concordei com tudo o que o senhor fez na Secretaria, mas acho que o seu erro foi a suspensão de novos loteamentos; a cidade precisa crescer, secretário!; o Márcio Reinaldo acertou em acabar com isso!", concluiu ele. Eu reagi, também amistosamente: - "mas, meu amigo, está tudo trocado; eu não suspendi loteamentos; quem suspendeu foi o Márcio Reinaldo; eu..." Foi quando ele me interrompeu com um sorriso superior: - "que isso secretário?!; eu sei das coisas"; e me deu um tapinha nas costas. E, assim, sem discussão, recusou os meus embargos infringentes.

Foi aí que eu segui, pela calçada afora, pensando como anda a vida, ultimamente, nesta terra dos lagos encantados. Até outro dia, tudo, aqui, suscitava polêmica. Uma maravilha! Agora, não mais. Pensei: que coisa!; falar em loteamento, até outro dia, dava guerra; hoje, o problema está do mesmo tamanho e reina aí essa paz na terra. Foi quando me veio à mente as tais leis delegadas. O prefeito passado fez uma só, sem criar cargos, sem impacto orçamentário e a cidade veio abaixo e o governo teve que se desdobrar em explicações. O atual prefeito começou, de cara, com três, uma centena de cargos criados, impacto de mais de três milhões, nenhuma explicação, e a coisa fluiu tranquilamente. Em seguida, mandou mais catorze [isso mesmo: catorze!] e fluiu mais tranquilamente ainda; tão tranquilamente que sequer deu nos jornais. Agora, está tramitando uma correção de IPTU; se nem um aumento de imposto que vai bater no bolso dos sete-lagoanos é capaz de gerar algum debate, francamente, meus amigos, o que será capaz?!, eu me perguntei. Nada, eu mesmo me respondi.

Tempos intolerantes. De uma intolerância nacional marcada pelo extremismo das posições. De uma intolerância sete-lagoana marcada pelo extremismo do silêncio. Um silêncio amedrontado e amedrontador. Deus nos proteja!

7 comentários:

Edson disse...

Flávio:
Paradoxalmente acho que este fato tem relação com o excesso de informação e a velocidade da informação.
Os fatos (e os escândalos) se sucedem e nós não temos tempo de metabolizá-los, então nos agarramos a nossas certezas e filtramos as informações de modo a referendá-las.
Só como exemplo: No caso do Mais Médicos, o que deveria ter sido uma discussão da Saúde do país, se transformou numa mera discussão se o número de médicos do país é ou não o suficiente.
Paradoxalmente empobrecemos.
Abs

Quin Drummond disse...

A intolerância nos faz bem mais pobres, mesquinhos, raivosos. Tomara não sejamos mais um povo a guerrear por esta intolerante ignorância. Percebe-se que em relação ao “mensalão” o conhecimento do “domínio do fato” fez de todos nos culpados na cumplicidade com as informações retratadas pela grande mídia. Compartilhamos no dia a dia esta verborréia direitista que está tudo dando errado neste pais, mesmo com última noticia de que em agosto foi criado mais de 127 mil novos empregos. Todos já conhecem jornalistas, colunistas, que vomitam o desprezo por um governo, que mesmo com todos os erros conseguiu fazer uma distribuição de renda nunca antes vista na história deste país.Infelizmente vemos este discurso ser repetido a todo o tempo na internet. O ódio está aí exposto! Porque odeiam a idéia de José Dirceu escapar da prisão e silenciam diante da liberdade de um Carlinhos Cachoeira? É porque o clamor não é por justiça o clamor é por vingança, ódio que a o poder midiático consegue transferir para cada cidadão desinformado.

Enio Eduardo disse...

Perfeito Quim! Corroboro em tudo que disse.
É isso Flávio, tudo está tão efêmero meu caro. Ultimamente só sobressai a raiva dessa Direita horrorosa.

Abraço.

rogerpardal disse...

Tragicômico, excesso de informações sem base no que é real e sim nas suposições de linchamento e pra variar "brasa para a própria sardinha"... o coletivo que se exploda.....e a esquerda que agora esta com a bola a nível federal anda pisando muito nela.

Abraço.

Anônimo disse...

Esclarecedor:

http://www.youtube.com/watch?v=tq15GeVliVI#t=94

Anônimo disse...

", e carrego o dever de lutar por tolerância, a tolerância é necessária para com aqueles que são diferentes, e com os que temos diferências e discrepâncias. Não se precisa de tolerância com aqueles com quem estamos de acordo.

A tolerância é o fundamento de poder conviver em paz, e entendendo que, no mundo, somos diferentes."
Discurso do José Mujica, presidente do Uruguai

Abs
ZJ

Blog do Flávio de Castro disse...

Aliás, ZJ, um belíssimo discurso, de cabo a rabo!