14 de set de 2013

'Cidade Aberta'

Entre o inútil e o útil

“Por que, ao invés de pintar meios-fios, a Prefeitura não pinta faixas de pedestres?”

Essa pergunta de um amigo, surgida em meio a uma inesperada conversa, em um encontro ocasional, ali mesmo na calçada, é o mote da coluna Cidade Aberta, desta semana. Como o artigo ainda não está disponível no site do jornal SETE DIAS, excepcionalmente, ele pode ser lido a seguir.


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Às vezes, eu chego a gastar horas para percorrer os ‘longos’ 30 metros, se tanto, que separam a minha casa do meu escritório. É que, frequentemente, encontro um bom amigo e uma boa prosa pelo caminho. Essas conversas assim imprevistas, na calçada são, pra mim, uma das boas coisas que se tem por morar em Sete Lagoas. É ou não é?

“Por que, ao invés de pintar meios-fios, a Prefeitura não pinta faixas de pedestres?” Esse foi o comentário, ao mesmo tempo, crítico e propositivo, de um amigo, na semana passada. Automaticamente, os nossos olhos estenderam-se até a Praça da Prefeitura e conferiram o asfalto novo, negro, e os meios-fios, recém pintados, brancos. “Boa pergunta!”, respondi.

Embora nova, a pintura a cal dos meios-fios já ia se desbotando. “É totalmente efêmera”, constatamos. Para que serve, afinal? Para destacar o trabalho de asfaltamento feito pela Prefeitura? É provável. Para nada? É certo!

No propósito de embelezamento, faixas de pedestres não perderiam em nada. Além de mais bonitas, seriam mais duráveis. E sobretudo: seriam úteis! “Aproveitando o novo asfalto, um trabalho bem planejado de disposição de faixas associado a uma campanha educativa de respeito aos pedestres não poderia fazer uma pequena revolução nos nossos estressados hábitos urbanos?”, conjecturamos.

A conversa avançou. É natural que todo administrador público nutra louca paixão por asfalto e por essa pintura a cal que aumenta o seu impacto. É uma operação simples, que pode ser feita em grande escala, tem enorme visibilidade e gera bons dividendos políticos nas contas eleitorais. A pintura de faixas não iria contra isso, mas exigiria esforços um pouco mais complexos. Seria necessário estudar a rotina dos pedestres, projetar os fluxos e, mais, poderia demandar providências em sequência. Poderia, por exemplo, chamar a atenção para a necessidade de rampas de acessibilidade ou, em algumas esquinas, exigir semáforos.

Na prática, essa tola escolha entre a pintura de meios-fios e a de faixas de pedestres, entre o inútil e o útil, esconde uma outra, mais importante, entre o apego obsessivo em se propagandear o que se faz e a determinação em se cuidar, naquilo que se faz, de detalhes que realmente possam facilitar a vida das pessoas. Entre o fazer e o fazer melhor. Esse é o ponto!

Vem comigo, caro leitor, e dê uma volta na praça da Prefeitura. De carro, não; a pé! Se você preferir usar o passeio da própria praça, depois de um quarto de volta, seremos expulsos para a rua porque a calçada está tomada por carros. Em todo lugar, carros na calçada constituem infração legal; menos ali. Se, no entanto, você quiser ir pelo passeio externo, teremos que transpor oito ruas sem faixas, sem rampas de acessibilidade, em que, usualmente, carros em velocidade atentam contra os transeuntes. Então, vendo o asfalto novo, os meios-fios brancos, o bom aspecto geral, me diga: de fato, o que mudou?!

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