11 de ago de 2013

Rosto

Certa vez, fomos todos a BH, muito bem vestidos, eu, meus irmãos e meus pais. Meus irmãos, então, eram apenas dois porque os outros dois ainda não existiam. Fomos a um lugar tirar retratos. Retratos eram, ainda, uma coisa bastante complicada. Nós éramos muito crianças e o tempo ainda era normal. Telefone, se tanto, telefonava; telefone não tirava retratos. Ainda que tivéssemos em casa uma máquina alemã Voigtlander, os recursos eram limitados. O lugar onde fomos era assim como um estúdio fotográfico, todo ambientado para fotos infantis. Uma das fotos feitas naquele dia longínquo sobrevive na minha estante, no escritório, ainda hoje. O que me chama a atenção nela são os cabelos. Fora o de minha mãe, uma jovem linda, o de meu pai e os nossos eram curtíssimos. Ao lado dessa foto há outra, na mesma estante. Meu pai, já outro homem, está ao lado de meus irmãos mais novos, eles com a mesma idade, talvez, que nós, os mais velhos, tínhamos na foto menor. É uma foto maravilhosa: a luz ressaltou os cabelos longos e louros dos meus irmãos e os cabelos longos e revoltos do meu pai. Já se usava cabelos longos, eu reparo. Sempre que olho essas duas fotos ali, lado a lado, lembro do meu pai porque é a única pessoa que está em ambas. Com idades diferentes, com uma década de distância, mas, seguramente, ele. Ele morreu há mais de dez anos e, quando me recordo dele, me pergunto qual dos rostos minha memória tomou como o seu rosto oficial. Se o da minha infância, se o da infância de meus irmãos ou se os sucessivos rostos dos anos adultos de todos nós. Isso me confunde. Não sei, mesmo, se a memória reconstitui uma imagem ou se apenas remete a uma ideia ou a um sentimento. Se a memória prefere guardar a primeira ou a última vista. Ou se isso é aleatório assim como D. Pedro II é sempre um velho, praticamente um avô de seu pai, D. Pedro I, um jovem eterno. Eu até sou capaz de reconstituir mentalmente os vários rostos de meu pai, quando me forço a tanto. Mas isso não responde à minha pergunta de qual é o rosto genérico dele, aquele que me vem, imediatamente, como a figuração simbólica dele, para todos os usos e lembranças, mesmo os mais desavisados. O rosto-pai de todos os seus rostos, aquele em que, em dias como hoje, se pode dar um beijo-símbolo de todas as saudades. Estranho isso.

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