19 de ago de 2013

O que os indicadores indicam

O artigo na coluna Cidade Aberta, no SETE DIAS, de duas semanas atrás, com uma rápida abordagem sobre o IDH-M - Democracia faz bem! - mereceu dois comentários muito pertinentes no site do jornal. Adelmar Campolina de Lira referiu-se às fragilidades metodológicas do IDH, que determinam resultados 'contaminados', como o caso de Nova Lima. Como se sabe, Nova Lima assumiu a liderança do desenvolvimento humano do estado, muito provavelmente, não pela cidade ter elevado globalmente sua qualidade de vida, mas sim pelo transbordamento estatístico do alto padrão social dos seus condomínios de luxo, um refúgio de belo-horizontinos e não de nova-limenses. Já Stefano Venuto Barbosa relativizou a importância dos resultados do IDH-M 2013 por entender que 'sem altos investimentos em educação' não se chega a 'um país justo'. Movido por essas corretas ponderações, eu gostaria de conversar, aqui, um pouco mais, sobre indicadores.


Eu não desejo, exatamente, defender o Índice de Desenvolvimento Humano elaborado pelo PNUD. Concordando com Adelmar, penso que ele não 'esgota todos os aspectos do desenvolvimento'; e concordando com Stefano, que ele não é suficiente para medir o nível de justiça social de um município ou um país. A meu ver, os dois comentários remetem a uma mesma questão: o IDH não pode, incorretamente, ser apreciado - como muitos o fazem - como um indicador absoluto. É preciso sim analisá-lo de forma contextualizada. Aí, então, penso que ele pode ser tomado como um indicador 'adequado'. Na linha do que Adelmar disse, eu diria que o IDH me parece bom, desde que visto como um índice geral, ainda que contenha, como ele apontou, contradições ou 'contaminações' quando se coloca uma lupa para se observar detalhes. Ou seja, o movimento como um todo é o que mais interessa. Na linha do Stefano, eu diria que ele aponta um patamar melhor do que o de 20 anos atrás, o que não quer dizer que esse patamar a que se chegou seja totalmente satisfatório. Ou seja, o caráter evolutivo é que é festejável, desde que se entenda que há, ainda, muita estrada pela frente.

Sobre essa história de indicadores, acho que é interessante lembrarmo-nos do PIB. O PIB é um indicador do pós-guerra que perdura até hoje. Como se sabe, ele destina-se a medir a atividade econômica de uma região, em determinado período de tempo; ou, como se diz, a medir o fluxo de produção agregada formal, de um mercado, num prazo curto. Equivocadamente, até mais do que o IDH, ele também é citado como indicador geral de desenvolvimento, quando, na verdade, ele mede apenas parcialmente esse desenvolvimento. Ele dá uma dimensão quantitativa, mas não qualitativa do processo. Passa longe dele a capacidade de medir, por exemplo, os efeitos sociais e ambientais da atividade econômica, ou, como preferem os economistas, as suas externalidades. Sobre isso vale a pena lembrar aqui um fato conhecido e muitíssimo curioso. Diz-se que, quando o petroleiro Exxon Valdez acidentou-se na costa do Alaska, derramando milhares de barris de petróleo, o PIB do Alaska subiu. Isso mesmo: subiu! E subiu, exatamente, em razão do crescimento do volume de serviços relacionados aos trabalhos de recuperação. Ou seja, visto pelas lentes do PIB, um dos maiores acidentes ecológicos do mundo pareceu um bom negócio. Esse, pra mim, é um dos melhores exemplos de que, ao analisarmos indicadores, como bem nos alertaram o Adelmar e o Stefano, precisamos saber bastante bem o que os indicadores indicam e o que não indicam. Sob o risco de ficarmos procurando pitangas, inutilmente, em pé de jabuticaba.

Em tempo: o IDH-M, dentre suas limitações, também não mede externalidades ambientais. Ele também não teria enxergado a 'maré negra' provocada pelo Exxon e a morte de centenas de milhares de animais na costa fria do Alaska.

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