12 de ago de 2013

Afinal, o que se quer dos jovens?

Na semana passada, um grupo de jovens acampou na praça em frente à Prefeitura. Do começo ao fim, foi um protesto mais do que pacífico. Esteticamente, chegou a ser simpático: barracas em meio ao movimento de carros, reuniões aos olhos dos transeuntes, negociações com representantes da administração em plena rua. Mesmo não sendo um protesto agressivo, no questionável estilo ‘black bloc’, foi curioso observar, mais uma vez, o despreparo do poder público para lidar com esses movimentos.

Esse despreparo parece constituir um padrão. Em BH, movimentos também pacíficos como a ‘Praia da Estação’, na própria Praça da Estação, ou ‘A Ocupação’, sob o viaduto de Santa Tereza, também não gozam da simpatia da Prefeitura que, com uma visão de viés higienista, tem dificuldade em interpretar o sentido libertário do uso do espaço público por essa meninada.

Aqui em Sete Lagoas, a dificuldade parece ser a mesma. O prefeito chegou a receber os manifestantes acampados; a foto desse encontro, sem que ninguém estivesse subjugando ninguém, pareceu alentadora. Mas foi uma ilusão: a Secretaria de Meio Ambiente já havia autuado os jovens por infração ambiental, por estarem sobre a grama, e a Prefeitura já havia ingressado com uma ação judicial de reintegração de posse. Dois pretextos para liberar um espaço que já deixou de ser praça e tornou-se um estacionamento público, há tempos. E pretextos insensatos porque, até onde sei, em qualquer lugar, manifestações pacíficas em praças são legítimas; já estacionamento sobre a calçada, como ali se vê, também em qualquer lugar, isso sim constitui infração legal merecedora de uma autuação que nunca acontece.

Na realidade, a ‘praça’ me parece adquirir aí um sentido metafórico. A praça pública, com a simbologia de ser a ‘praça da prefeitura’, como expressão do território da política, não põe em questão ‘o que’ se pode ou não fazer nela; mas ‘quem’ pode ou não ocupá-la. Esse é o ponto. Ou seja, nesse episódio, a Prefeitura valeu-se da lei para estabelecer uma disputa de poder. Temerosa e desnecessária, a meu ver!

Sem me referir aos jovens dessa ação, em particular, mas à juventude, em geral, é curioso observar como ela vive, frequentemente, sob ataque. Ora se fala que ela está cada dia mais alienada; ora se acusa de que é presa fácil da violência ou da droga e que merece ser penalizada mais cedo; ora se reconhece, passivamente, que, entre a falta de formação e de trabalho, ela não tem futuro. No entanto, quando ela desmente tudo isso e constrói ações políticas com sentido público, estranhamente, aí também é afrontada.

Afinal, o que se quer dos jovens? Que não sejam vândalos? Perfeito! Mas que, ao serem pacíficos, deixem de lado a criatividade? O sentimento de pertencimento à cidade? O sentimento de direito ao uso inovador do espaço público? O desejo arrebatador de que um mundo melhor é possível? Que deixem de lado o maior talento que eles têm que é a própria juventude?!

7 comentários:

Keli Araújo disse...

Infelizmente, Flávio é bem isso que você falou. Estávamos ali lutando por nossos direitos, com criatividade e cultura, mas pelo que podemos perceber é que incomodamos e muito a cena política da cidade. Fomos ingênuos por achar que conseguiríamos o que tanto almejamos, mas, não foi isso que aconteceu. Pelo contrário, nosso prefeito agiu da pior maneira que poderia. Se vestiu de cordeiro e armou o bote depois como uma raposa raivosa.
Porém isso serviu de lição. Serviu pra nos fortalecermos e termos mais vontade de mudança.
Não vamos parar, enquanto essa cidade não ser digna de todos nos sete lagoanos.
Obrigada pelo texto. Sou só mais uma de tantos os jovens que por ali passaram.

Dalton Andrade disse...

muito bom!

Anônimo disse...

Flavio,
A Keli resumiu bem o que aconteceu. O prefeito bem no estilo traiçoeiro, recebeu os manifestantes, acenou democraticamente, mas no final, trapeceou, solicitando na justiça a desocupação da praça pública. Típico de quem não sabe conviver com as divergências. Temia ele que a imprensa que veio cobrir a visita do governador deparasse com as barracas em frente a Prefeitura.

A. Claret disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
A. Claret disse...

Boa noite a tod@s,

Flavio, concordo com seu texto. Eu acrescentaria um detalhe: o eterno conflito entre geraçoes. Parece mentira mas ainda estamos na epoca das frases feitas do tipo "no meu tempo as coisas eram melhores etc e tal". Nao estou para nada de acordo com isso. Todo tempo passado foi melhor? Claro que nao! Todo tempo passado foi anterior, isso sim, e nada mais!

Certas pessoas nao sabem envelhecer e veem na idade um argumento de autoridade (que eu sempre abominei). No fundo, creio que se trata de uma inveja mal dissimulada: os jovens sabem mais que sabiamos a mesma idade e verao coisas que nem sonhamos em ver. O mundo vai ser deles, por mais que os "senhores da sabedoria" teimem em cortar-lhes o caminho. So' se e' jovem uma vez mas ha' pessoas que ja' nasceram caducas. Enternamente antiguadas.

Stefano Lanza disse...

Posso estar redondamente enganado e não quero ser leviano, mas o que percebi neste suposto movimento foi na verdade, grupo de pessoas com um pires na mão no intuito de serem sustentados pelo poder público, ad eternum...De vanguardista necas.
abraço

Blog do Flávio de Castro disse...

Stefano, prefiro não fazer generalizações, no momento. Como em qualquer grupo, é possível que haja sim oportunistas e idealistas. Ou seja, que você tenha razão. Mas penso que, se houver um único idealista, já está bom. É nele que eu vou apostar. Na verdade, prefiro não fazer qualquer juízo dessa natureza, agora, com relação a um movimento ainda muito incipiente. Apenas torço para que ele avance, incorpore mais gente e amplie o debate sobre temas públicos. Se for um movimento genuíno, prosperará. Senão, acabará por si mesmo.