6 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#6]

Paraty, 06.07.2013 ["Porque ler importa. Porque a beleza importa"]

Nino e Kátia,

Para vocês que viram a Lila Azam Zanganeh no programa do Jô, devo dizer que o charme e a inteligência dela não resultam de meros efeitos televisivos. Asseguro-lhes: ao vivo, ela é ainda mais exuberante. Ela e Francisco Bosco protagonizaram uma das mesas mais simpáticas que assisti, aqui na FLIP. O estilo dela vocês conhecem; já o Bosco, que é doutor em teoria literária, tem um jeito pedagógico de abordar temas bastante filosóficos, mas é tão cristalino no que diz que dilui qualquer risco de pedantismo. Lila falou da felicidade e do êxtase em Nabokov, que é o tema de seu livro 'O Encantador'. Bosco apoiou-se na visão de prazer, como conforto, e gozo, no limiar da ruptura, em Roland Barthes, que é a especialidade dele. A propósito a mesa tinha o mesmo nome de um livro de Barthes: 'O prazer do texto'. Permitam-me compartilhar com vocês uma fala muito bacana da Lila, referenciada, naturalmente, em Nabokov: "Toda história de amor é uma história de transgressão; como transgredir no século XX em que tudo é permitido, senão o incesto e a pedofilia?" Não por outra razão, exatamente, incesto e pedofilia são os temas centrais de Lolita, o livro mais conhecido daquele escritor russo-americano. Fico, agora, com a tarefa de ler 'O Encantador' e dizer para vocês dois se, como escritora, Lila Azam Zanganeh é tão impressionante quanto a sua presença sugere. Comprei o livro e, claro, fui atrás do autógrafo. Está aí a foto para não me acharem mentiroso. Mudando um pouco de assunto, quero lhes dizer que só não gostei de um ponto: é que o Bosco confessou que tentou desestimular a Lila de ler Grande Sertão, de Guimarães Rosa, por causa da complexidade de sua linguagem. Sempre que escuto isso, acho uma grande besteira. Uma pessoa que já fala sete línguas, como ela, facilmente aprenderia uma oitava, a língua sertaneja de Rosa. Quem fala apenas uma também consegue. Desde o momento em que você se permite ser levado pela sonoridade, a linguagem roseana fica simples. Difícil, quase impossível, é prescrutar os infindáveis abismos do sertão...

Bom fim de semana.

[Tomando autógrafo de Lila Azam Zanganeh]

[A mesa 'O prazer do texto' vista na tenda do Telão]

[Se essa foto tivesse áudio, você ouviriam Lila falando em português]

2 comentários:

Enio Eduardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Enio Eduardo disse...

Caro Flávio, muito obrigado mesmo pela carta de Paraty [#6].

Acreditei desde o dia que vi a Lila no Programa do Jô, que ela é mesmo exuberante.

Essa sua descrição do momento da mesa em que ela participou é mesmo um verdadeiro relato do Embaixador setelagoano-mineiro neste "país" da arte literária que é o FLIP.

Se tem inveja boa (não sei qual expressão seria melhor), considere que é o sentimento que tenho agora de você, principalmente neste momento do autógrafo.

Abraço amigo do Nino Pereira (Enio).

Bom Fim de Semana e breve regresso com a mente renovada e cheia de boas histórias para contar.