5 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#5]

Paraty, 04.07.2013 ['Espaços pictóricos' e 'oportunidade']

Caros amigos,

Sigo tentando acompanhar, arduamente, todo esse movimento multidimensional da FLIP. Mas, confesso, que, para dar conta de mil eventos simultâneos - e tantas filas, claro! - procuro lembrar que estou de férias e que quem está de férias tem o direito sagrado de perder a noção da hora. Isso tem facilitado tudo! Ainda assim, nessa noite de céu limpo e ar frio, em Paraty, não fraquejei e cumpri, rigorosamente, a missão. Primeiro, assisti à mesa 4 com T. J. Clark, sobre Guernica, de Picasso; depois, assisti à mesa extra 'Narrar a rua', inspirada nas manifestações de junho. A palestra de Clark, que já está em todos os portais de notícias, foi uma aula sobre o quadro que retrata a Guerra Civil Espanhola. Mas, em destaque, o que me chamou a atenção foi sua insistência em abordar o 'espaço pictórico' de Picasso. Espaço mesmo, 'quarto e sala', como ele mencionou, e que, naquele quadro enorme, é um espaço de fora, mas com  todos os requerimentos de pertencimento de um espaço de dentro. O sentido que Clark dá a isso é instigante. Dessa mesa 4, fui direto para a mesa extra. Estavam lá Cristiane Costa, Calixto, Arias, Capilé e Faustini. Aí, a meu ver, pela relação orgânica que têm com o movimento, só os dois últimos tinham o que dizer, com leituras políticas nada ingênuas, muito progressistas e compreensivas.  Calixto também talvez tivesse, mas falou pouco. De tudo, faço aqui cinco registros marcantes, com risco de descontextualizações e apropriações indevidas. Um: o fato do movimento estar usando bandeiras eventualmente conservadoras não é necessariamente um mal; é o repertório disponível, o repertório conhecido, até que outro inovador sobrevenha; e ele sobrevirá. Mais um: mais do que incitadora de medo, medo de não controle, as ruas precisam ser vistas como oportunidade; oportunidade de trazer o país e sobretudo os jovens para uma nova política, que não está surgindo agora, mas que vem se organizando em múltiplos movimentos sociais e culturais. Outro: o que as ruas perguntam não tem nada a ver com as respostas que o poder está dando; ele ainda não entendeu nada. Outro mais: a luta não é contra jornalistas, mas contra o modo de produção jornalística; não é contra políticos, mas contra o modo de produção política; ambos - imprensa e política - porta-vozes do grande capital. Por último: horizontalidade é um conceito que veio pra ficar; é melhor tentar entender esse novo modo de atuação descentralizado e baseado na rede de coletivos ['coletivos', no plural] do que tentar aplicar-lhe modelos antigos com lideranças e agendas com senso de controle.

Abraço a todos.

 [T. J. Clark falando sobre Guernica, visto pelo Telão...]

[... e na Tenda dos Autores, 'Narrar a rua']

Nenhum comentário: