4 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#3]

Paraty, 04.07.2013 ['... os infelizes, que povoam a terra']

Bernardo,

Confesso-lhe que só li, até hoje, os livros 'Vidas Secas' e 'Memórias do Cárcere' de Graciliano Ramos. Li e, anos depois, assisti aos filmes adaptados desses dois romances. Em ambos, então, chamou-me a atenção a linguagem direta, verdadeira, contundente e, ao mesmo tempo, muito poética de Graciliano. E, a bem da verdade, também a narrativa social presente nessas obras. Imaginei que, em grande parte, isso se devesse aos duros temas desses dois livros, a vida na seca nordestina e a crueldade da prisão sob a ditadura do Estado Novo. Ontem, ouvindo Milton Hartoum, na abertura da FLIP, entendi que, para muito além, um rigoroso senso ético e estético é marca registrada do crítico e pessimista Graciliano Ramos, político e escritor. Talvez tenha sido por isso que, após a fala do Hatoum, saí interessado em ler o livro 'Angústia', um dos primeiros desse alagoano, de Palmeira dos Índios. Ao que entendi, por ter sido um livro rejeitado pelo próprio autor, talvez ali esteja, mais profundamente guardada a sua alma. Vou lê-lo, em breve. Encerro recomendando-lhe a leitura do breve discurso de Graciliano com que saudou seus amigos, na comemoração de seus 50 anos, em 1942, no Restaurante Lido, no Rio. Você pode encontrá-lo facilmente na internet. Veja aí o último parágrafo, lido ontem no encerramento da abertura. Uma beleza!

"É preciso descobrirmos um motivo para esta reunião. Penso, meus senhores e amigos, que a devemos à existência de algumas figuras responsáveis pelos meus livros – Paulo Honório, Luiz da Silva, Fabiano. Ninguém dirá que sou vaidoso referindo-me a esses três indivíduos, porque não sou Paulo Honório, não sou Luiz da Silva, não sou Fabiano. Apenas fiz o que pude para exibi-los, sem deformá-los, narrando, talvez com excessivos pormenores, a desgraça irremediável que os açoita. É possível que eu tenha semelhança com eles e que haja, utilizando os recursos duma arte capenga adquirida em Palmeira dos Índios, conseguido animá-los. Admitamos que artistas mais hábeis não pudessem apresentar direito essas personagens, que, estacionando em degraus vários da sociedade, têm de comum o sofrimento. Neste caso aqui me reduzo à condição de aparelho registrador – e nisto não há mérito. Acertei? Se acertei, todo o constrangimento desaparecerá. Associo-me aos senhores numa demonstração de solidariedade a todos os infelizes, que povoam a terra".

Beijos.

[Imagem panorâmica da abertura da FLIP, vista na Tenda do Telão]

[Hatoum na abertura da FLIP, vista na Tenda do Telão]

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