7 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#10]

Paraty, 07.07.2013 ["Eu não tenho medo de nada"]

Tiza,

Hoje, pela manhã, sai tarde para correr porque levantei cheio de preguiça e decidido a me dedicar ao velho vício de assistir à F1. Quando sai, já lá pelas onze, o sol ia a pino e já havia gerado sobre Paraty um efeito de formigueiro em polvorosa. O mar de gente continuava em ressaca. Corri e, como lá onde corro não há ninguém, ou quase ninguém, me vi livre do alvoroço das formigas. Só às três, eu tive que me haver com o rebuliço, passar por um congestionamento de tietes de Marina Silva, enfrentar uma fila sob sol inclemente e participar da única mesa que havia reservado para esse domingo, sobre 'literatura e revolução'. É sempre bom ouvir Hatoum, Safatle e Jarouche, mas, nas circunstâncias dessa mesa, era inevitável perceber o embaçamento ocasionado pela falta do poeta da primavera árabe, o egípcio Tamim Al-Barghouti, que não conseguiu chegar ao Brasil. Lá pelas quatro e meia, quando desci a escada da Tenda dos Autores e alcancei o largo da FLIP, me dei conta de que a colônia de gente havia se rarefeito e o sol também já dava sinais de fraqueza. Decidi dar um último pulo até a livraria, mas essa não foi uma boa idéia: a livraria funcionava como um derradeiro torrão de açúcar que atraia as formigas mais famintas que eram muitas. Dei de ombros e fui em direção ao café. Queria achar um lugar pra sentar e ler e descartar os jornais do dia que me pesavam a sacola. Por um milagre, uma mesa solitária com uma cadeira mais solitária ainda me esperavam em um bom e tranquilo canto da tenda do café. Por ali fiquei, abduzido pela leitura. Só perto das seis, dei a tarefa por concluída e ergui os olhos: vi que havia menos pessoas ainda, que a noite ameaçava cair e que o frio já tomava o ar. Voltei à livraria que continuava como uma pedra de açúcar com um infinito efeito atrativo. Dei de costas e vaguei absorto. A paisagem era maravilhosa. Foi quando um pescador bêbado, passou por mim e, falando sozinho, bradou: "eu não tenho medo de nada; mas por Deus eu tenho muito respeito". De pronto, dei fé de que, pra mim, a FLIP já havia terminado e era hora de transpor a ponte sobre o canal, tomar o centro histórico, tomar uma cerveja, quem sabe, e deixar o espirito leve e grato pelos bons dias que tive aqui. Amanhã estou de volta. Beijos.

[Paraty ao cair da FLIP]

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