3 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#1]

Paraty, 03.07.2013 [Uma longa viagem]

Tiza,

Ontem, quase oito da noite, chegamos, eu, Janete e Célia, em uma Paraty chuvosa, fria e vazia; uma Paraty desprevenida; uma Paraty à espera. Estranho assim como errar a hora da festa, chegar às vésperas e achar as cadeiras ainda de pés pra cima, sobre as mesas. Foi uma surpresa porque eu ainda tinha em mente a chegada, no ano passado, quando eu e o Bê, já em plena FLIP, nos deparamos com a cidade cheia, as ruas movimentadas e uma baita lua cheia no céu. 

Preciso lhe contar da viagem ou sobre como driblar caminhoneiros em greve e estradas paradas. Os nossos planos foram perfeitos, mas não saíram de graça: foram 100 kms a mais de chão e três horas a mais no relógio. Fugimos do primeiro bloqueio, em Congonhas, atalhando por Ouro Preto, Ouro Branco, até Lafaiete. De Lafaiete a Juiz de Fora, foram 160 kms sobre um tapete rodoviário federal. Nesse caso, você precisa saber que, segundo as minhas observações, estatisticamente, caminhoneiros são 100% efetivos para parar ônibus [não vi um único]; 90% bons para bloquear caminhões [ainda que condenados a cair no próximo cadafalso, havia uns fugitivos vagando, aqui e ali]; e 80% competentes em desanimar motoristas de carros leves a pegar a estrada [o Roselanches, em Barbacena, sob um frio europeu, que o diga: estava às moscas]. Estrada sem caminhões e ônibus é coisa de outro mundo! Seguimos em frente, praticamente nós e nós, até a entrada para Lima Duarte, antecipando a saída da 040 para fugir do segundo bloqueio, em Matias Barbosa. A 267, até Bom Jardim de Minas, foi uma ótima alternativa. Ao longo dessa estrada, vê-se placas para o Ibitipoca, para São Vicente, Cruzília, Andrelândia e para a região das águas e pode-se admirar aquela paisagem ondulada belíssima do sul de Minas que você bem conhece. Daí em diante, pela 494, em direção a Volta Redonda, entramos na fase aventureira da história: primeiro, uma descida montanha abaixo, com muitas curvas, sob neblina e garoagem, até Santa Rita do Jacutinga; em seguida, um breve rali em estrada de terra molhada; depois, um pouco de tranquilidade até Volta Redonda. Em Volta Redonda, gastamos uma hora dando voltas. Mas fomos premiados por Deus, através de dois frentistas de um posto, que nos abriu o Mar Vermelho; ou, para ser mais exato, o mato-verde. É que o Google nos mandava dar uma longa volta por Barra Mansa para chegarmos a Rio Claro; mas, qual o quê, tomamos um atalho por Getulândia e fizemos a bolinha de localização do GPS riscar uma linha absolutamente reta entre Volta Redonda e Rio Claro. Um milagre em muito boa hora. Daí a Lídice foi um pulo para a fase noturna da expedição. Foi a terceira vez que passei pela pequena Lídice em direção a Angra e, para variar, sempre à noite, sem nenhuma chance de apreciar a vista do mar, depois do túnel. Desta vez, descemos aquela pirambeira no modo noite com chuva e com neblina. E, logo depois, tomamos a 101, no modo noite com chuva. Duríssimo: concluímos o périplo, contornando a baia de Ilha Grande, quase doze horas depois, já exaustos, por 100 kms de uma estrada interminável e sem sinalização alguma; o que não é nenhuma novidade.

Paraty, noite, frio, chuva, vinho, massa, banho quente e cama...

Já nessa manhã de quarta, dia de Kafka, dia de abertura da FLIP, o dia amanheceu claro e ensolarado! Como diria Ró: Deus é pai!

Beijos.

[Sul de Minas, Santa Rita do Jacutinga]

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