31 de jul de 2013

'Metropolitanização' [2]

Este tema da 'metropolitanização' mereceu um rápido debate no Facebook. Duas contribuições do Marcelo Sander, a meu ver, só vieram reforçar a necessidade de enfrentarmos, seriamente, essa discussão. A primeira referiu-se ao fracasso temporário do projeto TREM - Transporte sobre Trilhos Regionais e Metropolitanos, que teria entre as linhas de transporte ferroviário de passageiros, o trecho Sete Lagoas-Divinópolis. Esse projeto é apenas uma bizarrice ou é de interesse estratégico?! Neste último caso, por que as nossas lideranças políticas sequer se posicionam sobre ele?! E mais: qual espaço seria mais adequado para fazer a sua defesa do que o metropolitano?! Sobre o TREM, leiam AQUI. A segunda contribuição disse respeito à cobrança de pedágio na BR-040 [AQUI], no trecho Juiz de Fora-Brasília. O plano de outorga já fixou o valor do pedágio em R$4,22. Como estão previstos praças de cobrança a cada 78 km, seguramente, teremos pelo menos uma bem perto de nós; seja no sentido BH ou no sentido Brasília; ou duas, em ambos os sentidos. Ora, Sete Lagoas não tem nada a falar sobre isso?! A cobrança pressupõe intervenções prévias de revitalização da via ou pagaremos para utilizar esse arremedo de avenida?! Esse assunto não é nosso, é só nosso ou é de interesse de um conjunto de municípios, inclusive, alguns da região metropolitana?!

30 de jul de 2013

'Metropolitanização'

O tema da ‘metropolitanização’ de Sete Lagoas, embora venha sendo olimpicamente ignorado por nossas lideranças políticas, a meu ver, precisa ser posto na ordem do dia. Nenhum dos argumentos que tenho ouvido, até agora, de pessoas refratárias à sua abordagem, convenceram-me. A história de que perderemos autonomia e poder ao nos integrarmos à Região Metropolitana de BH não se sustenta em analogia com Contagem ou Betim, por exemplo; afinal, desde quando essas cidades são mais dependentes do que a nossa e os seus prefeitos têm menos poder do que o nosso?

26 de jul de 2013

'Cidade Aberta'

Calçadas públicas!

No artigo passado, eu comentei a dificuldade que os pedestres encontram para circularem por Sete Lagoas. Nessa mesma direção, a coluna Cidade Aberta de hoje, no SETE DIAS, traz à discussão o tema da responsabilidade pública pelas calçadas. Qual a sua opinião sobre isso?! A coluna pode ser lida AQUI.

[Em tempo: onde se lê 'porque acolher por boas ideias prontas nunca foi demérito para ninguém', leia-se 'porque acolher boas ideias nunca foi demérito para ninguém']

22 de jul de 2013

Hornby, de novo

Já falei, aqui, ene vezes, de Nick Hornby, o escritor cinquentão inglês que estacionou na adolescência e por ali ficou. A capa da Ilustrada, da Folha, de ontem, tratou-o com destaque. E com tempero irônico e apimentado: "Literatura de homenzinho". Putz! Tudo por conta da reedição, agora pela Companhia das Letras, em nova tradução de Christian Schwartz, de seu impagável 'Alta Fidelidade', a que a matéria se referiu, também de forma picante, como a "bíblia de machos perdidos, sensíveis e infantilizados". Pior é que todas essas provocações são absolutamente procedentes, o que não torna os livros de Hornby menos atraentes. Afinal, como não morrer de rir com Rob, o dono da loja de vinil londrina, e seus empregados Barry e Dick, todos gauches, todos dinossauros, e suas intermináveis listas de cinco?! Cinco melhores músicas de todos os tempos, cinco melhores faixas 1 do lado A de todos os discos de todos os tempos, cinco primeiras bandas de todos os tempos que deveriam ser fuziladas numa revolução musical e por aí afora. E claro!, os cinco maiores foras que um cara já tomou de mulheres, o que é, precisamente, o mote de 'Alta Fidelidade'. Para quem ainda não leu, fica a dica [312 págs., R$39]. E mais uma: 'Febre de Bola', do mesmo Nick, tão 'adultescente' quanto, nesse caso um romance autobiográfico guiado por sua obsessão futebolística pelo Arsenal [Também Companhia das Letras e, também, em nova tradução de Christian Schwartz; 352 págs., R$39].

19 de jul de 2013

19 de julho

Dezenove de julho é um dia especial porque, coincidentemente, muitos amigos especiais fazem aniversário nesta data, como a Simone Almeida e a Deborah Meireles. Além de brindar a felicidade desses amigos que estão aí, pra mim, é uma oportunidade de homenagear um outro que já se foi: o José Cláudio Padrão, uma das pessoas mais inteligentes, talentosas e solidárias que pude conhecer. E, sempre que me lembro dele, me vem à mente um belíssimo, ainda que trágico, poema de Federico Garcia Lorca; não porque esse poema fale da morte, mas porque era um poema que o Zé gostava e que lia, ou encenava, com um contrastante bom humor, nos fins de dia, de sextas-feiras como hoje, nos nossos bons e velhos tempos de PLAMBEL:

'Cidade Aberta'

Vida Selvagem

Com o crescimento exponencial do trânsito de veículos, é de impressionar como a circulação de pedestres pela cidade, em vários pontos, está se tornando arriscada. Para  pessoas com alguma dificuldade de locomoção, como as pessoas idosas, aí, nem se fala. Para elas, a transposição de algumas ruas e cruzamentos já é algo impossível! Esse é o tema da coluna Cidade Aberta, no SETE DIAS, de hoje, que pode ser lida AQUI.

15 de jul de 2013

Faltam ou não faltam médicos?!

Essa discussão sobre o sistema de saúde brasileiro não deveria ficar restrita apenas a médicos e especialistas; ela deveria estar ao alcance de todos nós cidadãos. Mas confesso que, em meio à polarização a que se chegou, muito contaminada por forte partidarismo e não menor corporativismo, anda sendo difícil firmar convicções. Diante de tudo que li, uma coisa parece certa: apenas o aumento no número de médicos não solucionará o problema do SUS. Há, por certo, outras dimensões a considerar, por exemplo, a falta de estrutura do sistema, a falta de cargos e carreiras públicas que favoreçam a fixação de profissionais e dificultem a alta rotatividade e a falta de formação para saúde da família e da comunidade, invalidada pelo modelo atual de 'especialização precoce'. Mas, enfim, mesmo pondo de lado a polarização e contextualizando-se mais amplamente o tema, faltam ou não faltam médicos?! Trocando em miúdos: a solução está em mais estrutura, mais cargos e carreiras, melhor formação e mais médicos ou, diferentemente, com mais estrutura, com efetivação de cargos e carreiras e novo modelo de formação, prescinde-se de mais médicos?!

12 de jul de 2013

'Cidade Aberta'

Tempestividade

No artigo passado [Kafkiano], ao defender a ideia de que precisamos forçar a convergência das iniciativas públicas e privadas para intensificar a nossa vida cultural, eu usei o exemplo do Templo 8 como um caso em que isso não ocorria. Ao longo dessa semana, soube que esse caso e a versão que eu conhecia dele não eram pacíficos e que eles suscitavam, sim, uma bela polêmica. Ao tentar compreendê-la, me dei conta de que, qualquer que seja a verdade sobre o Templo 8 e o seu festival, a questão da regularidade ou irregularidade de nossos eventos culturais não se encerra em um caso particular, mas é geral. Ou seja, não se tem aí uma exceção, mas uma regra. Esse é o tema da coluna Cidade Aberta, no SETE DIAS desta semana [AQUI].

7 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#10]

Paraty, 07.07.2013 ["Eu não tenho medo de nada"]

Tiza,

Hoje, pela manhã, sai tarde para correr porque levantei cheio de preguiça e decidido a me dedicar ao velho vício de assistir à F1. Quando sai, já lá pelas onze, o sol ia a pino e já havia gerado sobre Paraty um efeito de formigueiro em polvorosa. O mar de gente continuava em ressaca. Corri e, como lá onde corro não há ninguém, ou quase ninguém, me vi livre do alvoroço das formigas. Só às três, eu tive que me haver com o rebuliço, passar por um congestionamento de tietes de Marina Silva, enfrentar uma fila sob sol inclemente e participar da única mesa que havia reservado para esse domingo, sobre 'literatura e revolução'. É sempre bom ouvir Hatoum, Safatle e Jarouche, mas, nas circunstâncias dessa mesa, era inevitável perceber o embaçamento ocasionado pela falta do poeta da primavera árabe, o egípcio Tamim Al-Barghouti, que não conseguiu chegar ao Brasil. Lá pelas quatro e meia, quando desci a escada da Tenda dos Autores e alcancei o largo da FLIP, me dei conta de que a colônia de gente havia se rarefeito e o sol também já dava sinais de fraqueza. Decidi dar um último pulo até a livraria, mas essa não foi uma boa idéia: a livraria funcionava como um derradeiro torrão de açúcar que atraia as formigas mais famintas que eram muitas. Dei de ombros e fui em direção ao café. Queria achar um lugar pra sentar e ler e descartar os jornais do dia que me pesavam a sacola. Por um milagre, uma mesa solitária com uma cadeira mais solitária ainda me esperavam em um bom e tranquilo canto da tenda do café. Por ali fiquei, abduzido pela leitura. Só perto das seis, dei a tarefa por concluída e ergui os olhos: vi que havia menos pessoas ainda, que a noite ameaçava cair e que o frio já tomava o ar. Voltei à livraria que continuava como uma pedra de açúcar com um infinito efeito atrativo. Dei de costas e vaguei absorto. A paisagem era maravilhosa. Foi quando um pescador bêbado, passou por mim e, falando sozinho, bradou: "eu não tenho medo de nada; mas por Deus eu tenho muito respeito". De pronto, dei fé de que, pra mim, a FLIP já havia terminado e era hora de transpor a ponte sobre o canal, tomar o centro histórico, tomar uma cerveja, quem sabe, e deixar o espirito leve e grato pelos bons dias que tive aqui. Amanhã estou de volta. Beijos.

[Paraty ao cair da FLIP]

Cartas de Paraty [#9]

Paraty, 07.07.2013 ["A revolta não é contra o futebol, mas contra as suas catedrais"]

Beco,

Você esteve aqui comigo, no ano passado, e é capaz de calcular o meu cansaço ao final desse sábado. A cidade esteve, de manhã à noite, lotada de gente e você sabe bem como eu gosto de multidão. Paraty parecia um local de romaria. Apenas o santo é que era outro. Participei de duas mesas literárias, uma às dez da manhã, outra às três da tarde, ambas muito boas. Depois, às sete da noite, de uma mesa política na tentativa de interpretação das manifestações das ruas. Ouvi T.J.Clark, Tales Ab'Sáber e Vladimir Safatle. Na verdade, acho que foi essa mesa apenas, e não a overdose de três, que me levou à lona. Anotei muita coisa que, no momento, me pareceu razoável e mereceram palmas da distinta platéia. Mas ando tão desconfiado sobre esse assunto que prefiro não transcrever nada aqui para não entedia-lo, desnecessariamente. Mas anote aí: acho que temos uma longa conversa pela frente para que você me ajude a fazer uma releitura de tudo. De largada, deixo no ar o comentário final de T.J.Clark, depois de uma hora de conversa de uníssona e absoluta idolatria às ruas: "Gosto dessa retórica mas me preocupa essa idéia utópica de exortação da vontade geral das massas. Basta ler a história". Depois dessa frase, achei por bem não incorrer no erro de participar de uma quarta mesa no dia, mediada por William Waack e com as presenças de André Lara Resende e Marcos Nobre, para a qual eu tinha ingresso. Achei que seria uma heresia. A mais, a fila estava gigante, o frio cortante, a fome lancinante e a cabeça transbordante. Larguei tudo pra trás, comprei um doce de cuscuz com côco e fui pra casa tomar um vinho. Hoje, domingo, tenho pela frente um dia propositadamente leve. Para despedir, vou a uma mesa na Tenda dos Autores, às três, que tem o sugestivo nome de 'Literatura e revolução'. Infelizmente, a estrela da rodada, o egípcio Tamim Al-Barghouti, conseguiu decolar de seu país em crise, mas ficou preso no aeroporto de Londres e não virá mais. De todo jeito, despedida é despedida.

Aproveite o dia. Amanhã nos vemos aí. Beijos.

[Mário Sérgio Conti, T.J.Clark, Ab'Sáber e Safatle]

Cartas de Paraty [#8]

Paraty, 07.07.2013 ["Tenta. Fracassa. Não importa"]

Pablito,

Você tem futuro! Ontem, assisti, aqui na FLIP, a uma mesa com John Banville e Lydia Davis sobre 'os limites da prosa'. Preciso lhe falar, especialmente, sobre a Lydia e o livro que ela autografou aqui, intitulado 'Tipos de Perturbação'. Leia-o, se tiver oportunidade. Nele, você encontrará contos brevíssimos. Alguns de uma frase só aos quais ela se  referiu como sendo contos não concluídos. Tem tudo a ver com você. Por via das dúvidas, vou logo dizendo: nessa arte de micro-contos, sinceramente, ainda acho que você é imbatível.

Forte abraço.

[Samuel Titan Jr., Lydia Davis e John Banville]

6 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#7]

Paraty, 06.07.2013 ["Quebra-quebra não, poesia em construção"]

Tiza, Beco e Luca,

Como Paraty e a Fila Literária Internacional de Paraty só acordam às dez, pulei da cama cedo e fui correr. Foi uma maravilha! Eu descobri um circuito muito bonito, onde tenho treinado todo dia. Hoje, enquanto a cidade dormia, o céu iniciava sua jornada absolutamente azul e o ar, ainda muito frio, mostrava que havia atravessado a noite e tinha dificuldade em acostumar-se com a claridade e o sol, encontrei o clima ideal para correr até!

Se levantei cedo foi, obviamente, porque, ontem, dormi também cedo. E isso é verdade. Eu havia emendado duas mesas, uma muito leve, ao meio dia, outra muito densa, às três da tarde. Essa mesa, em especial, sobre kafka e Baudelaire, com o italiano Roberto Calasso e a suíça-brasileira Jeanne Marie Gagnebin, me exauriu. Eu consigo entender bastante bem que Kafka pode ter representado um 'tropeço no caminho reto e tranquilo da modernidade cartesiana', mas não consigo saber se Baudelaire foi um desvio nesse mesmo caminho da história simplesmente porque nunca li Baudelaire. Esse é um fato: preciso ler Baudelaire! Ademais, sem almoço, eu estava faminto. Aí, segui conselhos divinos: ao cair da tarde, procurei um bom bar, sentei-me em uma mesa na rua e pedi uma cerveja. Santo remédio! Foi quando me aproximei de escritores off FLIP, fiz amizade com um deles belorizontino e fiquei sabendo como funciona a rede de editores digitais. Pelo jeito, funciona como a rede de coletivos culturais, que anteciparam a tal horizontalidade e a tal descentralidade das manifestações de rua. Depois de umas tantas, nem tantas assim, acabei dando razão à Tiza de que talvez eu deva dar algum bom uso para o meu baú de ossos literários. Como iniciei os trabalhos muito cedo, encerrei-os também cedo e fui dormir.

Hoje, depois da corrida, peguei a fila das dez e assisti, na Tenda dos Autores, aquela que, por certo, ficará como a mesa mais divertida da FLIP: 'Maus hábitos'. Nunca ri tanto! O poeta brasiliense Nicolas Behr tranformou em poesia os cartazes das manifestações de rua ["Tarifa zero para a poesia", "Poesia lida jamais será vencida" etc.]. O ex-arquiteto Zuca Sardan interpretou seus poemas divinamente. Foi uma belíssima forma de por o pé no final de semana.

Cuidem-se! E, por favor, não façam protestos na cozinha pela ausência do chef predileto da casa.

[A mesa de ontem sobre 'A vida moderna em Kafka e Baudelaire']

[A fila das dez...]

[...que levou à mesa mais divertida da temporada]

Cartas de Paraty [#6]

Paraty, 06.07.2013 ["Porque ler importa. Porque a beleza importa"]

Nino e Kátia,

Para vocês que viram a Lila Azam Zanganeh no programa do Jô, devo dizer que o charme e a inteligência dela não resultam de meros efeitos televisivos. Asseguro-lhes: ao vivo, ela é ainda mais exuberante. Ela e Francisco Bosco protagonizaram uma das mesas mais simpáticas que assisti, aqui na FLIP. O estilo dela vocês conhecem; já o Bosco, que é doutor em teoria literária, tem um jeito pedagógico de abordar temas bastante filosóficos, mas é tão cristalino no que diz que dilui qualquer risco de pedantismo. Lila falou da felicidade e do êxtase em Nabokov, que é o tema de seu livro 'O Encantador'. Bosco apoiou-se na visão de prazer, como conforto, e gozo, no limiar da ruptura, em Roland Barthes, que é a especialidade dele. A propósito a mesa tinha o mesmo nome de um livro de Barthes: 'O prazer do texto'. Permitam-me compartilhar com vocês uma fala muito bacana da Lila, referenciada, naturalmente, em Nabokov: "Toda história de amor é uma história de transgressão; como transgredir no século XX em que tudo é permitido, senão o incesto e a pedofilia?" Não por outra razão, exatamente, incesto e pedofilia são os temas centrais de Lolita, o livro mais conhecido daquele escritor russo-americano. Fico, agora, com a tarefa de ler 'O Encantador' e dizer para vocês dois se, como escritora, Lila Azam Zanganeh é tão impressionante quanto a sua presença sugere. Comprei o livro e, claro, fui atrás do autógrafo. Está aí a foto para não me acharem mentiroso. Mudando um pouco de assunto, quero lhes dizer que só não gostei de um ponto: é que o Bosco confessou que tentou desestimular a Lila de ler Grande Sertão, de Guimarães Rosa, por causa da complexidade de sua linguagem. Sempre que escuto isso, acho uma grande besteira. Uma pessoa que já fala sete línguas, como ela, facilmente aprenderia uma oitava, a língua sertaneja de Rosa. Quem fala apenas uma também consegue. Desde o momento em que você se permite ser levado pela sonoridade, a linguagem roseana fica simples. Difícil, quase impossível, é prescrutar os infindáveis abismos do sertão...

Bom fim de semana.

[Tomando autógrafo de Lila Azam Zanganeh]

[A mesa 'O prazer do texto' vista na tenda do Telão]

[Se essa foto tivesse áudio, você ouviriam Lila falando em português]

5 de jul de 2013

'Cidade Aberta'

Kafkiano

Se desejamos ser uma cidade turística com intensa vida cultural, temos que potencializar e aprimorar as nossas ainda escassas iniciativas artísticas. Mas não é isso o que fazemos. Não sempre. O poder público, muitas vezes, não percebe o seu poder de induzir e estimular boas práticas e prefere ostentar uma autoridade inútil e anacrônica. Aquela história: não faz e não deixa que façam. É o que se vê, agora, com o Festival de Cultura, Gastronomia e Turismo do Templo 8. Esse é o tema da coluna Cidade Aberta, no SETE DIAS, que pode ser lida AQUI.

Cartas de Paraty [#5]

Paraty, 04.07.2013 ['Espaços pictóricos' e 'oportunidade']

Caros amigos,

Sigo tentando acompanhar, arduamente, todo esse movimento multidimensional da FLIP. Mas, confesso, que, para dar conta de mil eventos simultâneos - e tantas filas, claro! - procuro lembrar que estou de férias e que quem está de férias tem o direito sagrado de perder a noção da hora. Isso tem facilitado tudo! Ainda assim, nessa noite de céu limpo e ar frio, em Paraty, não fraquejei e cumpri, rigorosamente, a missão. Primeiro, assisti à mesa 4 com T. J. Clark, sobre Guernica, de Picasso; depois, assisti à mesa extra 'Narrar a rua', inspirada nas manifestações de junho. A palestra de Clark, que já está em todos os portais de notícias, foi uma aula sobre o quadro que retrata a Guerra Civil Espanhola. Mas, em destaque, o que me chamou a atenção foi sua insistência em abordar o 'espaço pictórico' de Picasso. Espaço mesmo, 'quarto e sala', como ele mencionou, e que, naquele quadro enorme, é um espaço de fora, mas com  todos os requerimentos de pertencimento de um espaço de dentro. O sentido que Clark dá a isso é instigante. Dessa mesa 4, fui direto para a mesa extra. Estavam lá Cristiane Costa, Calixto, Arias, Capilé e Faustini. Aí, a meu ver, pela relação orgânica que têm com o movimento, só os dois últimos tinham o que dizer, com leituras políticas nada ingênuas, muito progressistas e compreensivas.  Calixto também talvez tivesse, mas falou pouco. De tudo, faço aqui cinco registros marcantes, com risco de descontextualizações e apropriações indevidas. Um: o fato do movimento estar usando bandeiras eventualmente conservadoras não é necessariamente um mal; é o repertório disponível, o repertório conhecido, até que outro inovador sobrevenha; e ele sobrevirá. Mais um: mais do que incitadora de medo, medo de não controle, as ruas precisam ser vistas como oportunidade; oportunidade de trazer o país e sobretudo os jovens para uma nova política, que não está surgindo agora, mas que vem se organizando em múltiplos movimentos sociais e culturais. Outro: o que as ruas perguntam não tem nada a ver com as respostas que o poder está dando; ele ainda não entendeu nada. Outro mais: a luta não é contra jornalistas, mas contra o modo de produção jornalística; não é contra políticos, mas contra o modo de produção política; ambos - imprensa e política - porta-vozes do grande capital. Por último: horizontalidade é um conceito que veio pra ficar; é melhor tentar entender esse novo modo de atuação descentralizado e baseado na rede de coletivos ['coletivos', no plural] do que tentar aplicar-lhe modelos antigos com lideranças e agendas com senso de controle.

Abraço a todos.

 [T. J. Clark falando sobre Guernica, visto pelo Telão...]

[... e na Tenda dos Autores, 'Narrar a rua']

4 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#4]

Paraty, 04.07.2013 ["Projetar é gerenciar o pânico e a dúvida"]

Tiza,

Oops! Inadvertidamente, quase dei um fora. Na undécima hora, me dei conta de que a mesa 2 da FLIP, 'As medidas da história', era uma mesa arquitetônica, com o arquiteto português Eduardo Souto de Moura e o crítico de arquitetura Paul Goldberger, que, miseravelmente, eu havia ignorado. Mas como Deus cuida dos idiotas, ele não apenas me fez ver a tempo, como, na fila de ingresso, me pôs frente a frente com uma moça que acabara de desistir de assistir e, inexplicavelmente, me deu o seu ingresso. Me fale: isso existe?! E mais: um ingresso gratuito na cobiçada Tenda dos Autores. Lá fui eu...
.
Maluquice. Em minutos, retrocedi anos e anos no tempo, reentrei no seu escritório e me reapossei dele. Arquitetura, estética, linguagem, semiótica, intenções em arquitetura, Mies, Aalto, Siza, processo e produto, natureza e história. Crítico que é, Goldberger foi elaborado e extenso. Arquiteto que é, um tanto melancólico, diria eu, Moura foi franco e conciso. Delirei com suas frases: "As pessoas de fato não fazem amor em semiótica"; "Projetar é gerenciar o pânico e a dúvida"; "Já ninguém almoça manifesto". E citando Einstein: "O futuro não me interessa porque chega demasiado depressa". Mas pode ter certeza, as frases que sairão nos jornais de amanhã foram aquelas ditas pelo Goldberger, muito mais provocativas: "Niemeyer foi o melhor e o pior que aconteceu na arquitetura brasileira" ou "O Brasil foi o único país que transformou a arquitetura do século XX num símbolo patriótico". Gostei e muito!

O tempo aqui em Paraty firmou. Ontem foi um dia de sol, nublado à tarde e frio à noite. Hoje foi mais um dia ensolarado, um pouco mais quente, e sequer nublou. Agora, ao cair da tarde, apenas corre uma brisa fria. À frente, tenho duras tarefas a cumprir: uma mesa, às sete e meia, com T.J. Clark, sobre Guernica; e outra, às nove e meia, 'Narrar as ruas', uma das três extras inspiradas nas manifestações de rua de junho.

Beijo.

[O simpático palco da simpática Tenda dos Autores]

[A super plateia da super Tenda dos Autores]

Cartas de Paraty [#3]

Paraty, 04.07.2013 ['... os infelizes, que povoam a terra']

Bernardo,

Confesso-lhe que só li, até hoje, os livros 'Vidas Secas' e 'Memórias do Cárcere' de Graciliano Ramos. Li e, anos depois, assisti aos filmes adaptados desses dois romances. Em ambos, então, chamou-me a atenção a linguagem direta, verdadeira, contundente e, ao mesmo tempo, muito poética de Graciliano. E, a bem da verdade, também a narrativa social presente nessas obras. Imaginei que, em grande parte, isso se devesse aos duros temas desses dois livros, a vida na seca nordestina e a crueldade da prisão sob a ditadura do Estado Novo. Ontem, ouvindo Milton Hartoum, na abertura da FLIP, entendi que, para muito além, um rigoroso senso ético e estético é marca registrada do crítico e pessimista Graciliano Ramos, político e escritor. Talvez tenha sido por isso que, após a fala do Hatoum, saí interessado em ler o livro 'Angústia', um dos primeiros desse alagoano, de Palmeira dos Índios. Ao que entendi, por ter sido um livro rejeitado pelo próprio autor, talvez ali esteja, mais profundamente guardada a sua alma. Vou lê-lo, em breve. Encerro recomendando-lhe a leitura do breve discurso de Graciliano com que saudou seus amigos, na comemoração de seus 50 anos, em 1942, no Restaurante Lido, no Rio. Você pode encontrá-lo facilmente na internet. Veja aí o último parágrafo, lido ontem no encerramento da abertura. Uma beleza!

"É preciso descobrirmos um motivo para esta reunião. Penso, meus senhores e amigos, que a devemos à existência de algumas figuras responsáveis pelos meus livros – Paulo Honório, Luiz da Silva, Fabiano. Ninguém dirá que sou vaidoso referindo-me a esses três indivíduos, porque não sou Paulo Honório, não sou Luiz da Silva, não sou Fabiano. Apenas fiz o que pude para exibi-los, sem deformá-los, narrando, talvez com excessivos pormenores, a desgraça irremediável que os açoita. É possível que eu tenha semelhança com eles e que haja, utilizando os recursos duma arte capenga adquirida em Palmeira dos Índios, conseguido animá-los. Admitamos que artistas mais hábeis não pudessem apresentar direito essas personagens, que, estacionando em degraus vários da sociedade, têm de comum o sofrimento. Neste caso aqui me reduzo à condição de aparelho registrador – e nisto não há mérito. Acertei? Se acertei, todo o constrangimento desaparecerá. Associo-me aos senhores numa demonstração de solidariedade a todos os infelizes, que povoam a terra".

Beijos.

[Imagem panorâmica da abertura da FLIP, vista na Tenda do Telão]

[Hatoum na abertura da FLIP, vista na Tenda do Telão]

Cartas de Paraty [#2]

Paraty, 03.07.2013 [Uma virada em 24 horas]

Luiza,

Queria ter o seu olhar por trás de uma câmera para fotografar particularidades de Paraty. Sem esse olhar, resigno-me a apenas registrar cenas comuns bem visíveis, sem ter como extrair delas o segredo, a alma, o inusitado.

Desde ontem, quando cheguei aqui, Paraty foi passando por uma rápida virada. Ontem, era uma Paraty fria, chuvosa e vazia; hoje, pela manhã, uma outra Paraty ensolarada, mas ainda tranquila, cotidiana, com o vai e vem normal das pessoas; à tarde, era uma Paraty nublada, cheia de gente empurrando malas; e, agora à noite, já havia se tornado a cidade da FLIP, lotada e animada.

Espero um dia estarmos juntos aqui.

Beijos.

[Paraty calma e ensolarada, pela manhã]

[Os bares de Paraty, à espera...]

[Os bares de Paraty, animadíssimos...]

[O café da FLIP lotado, após a abertura com Milton Hatoum]

3 de jul de 2013

Cartas de Paraty [#1]

Paraty, 03.07.2013 [Uma longa viagem]

Tiza,

Ontem, quase oito da noite, chegamos, eu, Janete e Célia, em uma Paraty chuvosa, fria e vazia; uma Paraty desprevenida; uma Paraty à espera. Estranho assim como errar a hora da festa, chegar às vésperas e achar as cadeiras ainda de pés pra cima, sobre as mesas. Foi uma surpresa porque eu ainda tinha em mente a chegada, no ano passado, quando eu e o Bê, já em plena FLIP, nos deparamos com a cidade cheia, as ruas movimentadas e uma baita lua cheia no céu. 

Preciso lhe contar da viagem ou sobre como driblar caminhoneiros em greve e estradas paradas. Os nossos planos foram perfeitos, mas não saíram de graça: foram 100 kms a mais de chão e três horas a mais no relógio. Fugimos do primeiro bloqueio, em Congonhas, atalhando por Ouro Preto, Ouro Branco, até Lafaiete. De Lafaiete a Juiz de Fora, foram 160 kms sobre um tapete rodoviário federal. Nesse caso, você precisa saber que, segundo as minhas observações, estatisticamente, caminhoneiros são 100% efetivos para parar ônibus [não vi um único]; 90% bons para bloquear caminhões [ainda que condenados a cair no próximo cadafalso, havia uns fugitivos vagando, aqui e ali]; e 80% competentes em desanimar motoristas de carros leves a pegar a estrada [o Roselanches, em Barbacena, sob um frio europeu, que o diga: estava às moscas]. Estrada sem caminhões e ônibus é coisa de outro mundo! Seguimos em frente, praticamente nós e nós, até a entrada para Lima Duarte, antecipando a saída da 040 para fugir do segundo bloqueio, em Matias Barbosa. A 267, até Bom Jardim de Minas, foi uma ótima alternativa. Ao longo dessa estrada, vê-se placas para o Ibitipoca, para São Vicente, Cruzília, Andrelândia e para a região das águas e pode-se admirar aquela paisagem ondulada belíssima do sul de Minas que você bem conhece. Daí em diante, pela 494, em direção a Volta Redonda, entramos na fase aventureira da história: primeiro, uma descida montanha abaixo, com muitas curvas, sob neblina e garoagem, até Santa Rita do Jacutinga; em seguida, um breve rali em estrada de terra molhada; depois, um pouco de tranquilidade até Volta Redonda. Em Volta Redonda, gastamos uma hora dando voltas. Mas fomos premiados por Deus, através de dois frentistas de um posto, que nos abriu o Mar Vermelho; ou, para ser mais exato, o mato-verde. É que o Google nos mandava dar uma longa volta por Barra Mansa para chegarmos a Rio Claro; mas, qual o quê, tomamos um atalho por Getulândia e fizemos a bolinha de localização do GPS riscar uma linha absolutamente reta entre Volta Redonda e Rio Claro. Um milagre em muito boa hora. Daí a Lídice foi um pulo para a fase noturna da expedição. Foi a terceira vez que passei pela pequena Lídice em direção a Angra e, para variar, sempre à noite, sem nenhuma chance de apreciar a vista do mar, depois do túnel. Desta vez, descemos aquela pirambeira no modo noite com chuva e com neblina. E, logo depois, tomamos a 101, no modo noite com chuva. Duríssimo: concluímos o périplo, contornando a baia de Ilha Grande, quase doze horas depois, já exaustos, por 100 kms de uma estrada interminável e sem sinalização alguma; o que não é nenhuma novidade.

Paraty, noite, frio, chuva, vinho, massa, banho quente e cama...

Já nessa manhã de quarta, dia de Kafka, dia de abertura da FLIP, o dia amanheceu claro e ensolarado! Como diria Ró: Deus é pai!

Beijos.

[Sul de Minas, Santa Rita do Jacutinga]