19 de jun de 2013

Cartas

Eu faço coisas sem perceber e me esqueço. Por anos faço, por anos não dou fé. Mira e veja: acho que não é há anos, mas desde sempre, quando estou viajando e passo por uma pequena cidade que me intriga, sou remetido, inadvertidamente, à ideia de que deve ser bom morar ali e me transporto pra lá. E registro a minha vida ali escrevendo cartas para a família. "Bezerros, janeiro de 2008. Tiza querida, o sertão vai virar mar. Chove  a cântaros aqui. De dia, é quente e úmido; à noite, acho que neva nesse planalto da Borborema. Ontem, fui ao Sítio dos Remédios comer uma buchada de bode. A buchada estava boa, a friagem não. O tempo aqui, quente ou frio, é lerdo. Parece que estou aqui faz anos. A saudade só aumenta. Beijo nas crianças". Pois são assim cartas mentalmente redigidas, todas nostálgicas. Pior: cartas escritas num estilo de quando ainda se escreviam cartas. Pior ainda: cartas de um eu, eu mesmo, acolhido em um tempo passado que nunca vivi e do qual tenho estranhas saudades, saudades roubadas. "Itabira, maio de 2010. Mãe, espero que essa missiva lhe encontre bem, com boa saúde e com boa vista para os seus bordados tão minuciosos. Já lhe disse que, aqui onde moro, acordo com o alarme do apito do trem. Outro dia, deitei os olhos a ver aquela composição infinita desaparecer no ponto de fuga e me lembrei da senhora. Cheguei a conclusão de que a senhora sempre teve toda razão: JK fez um grande mal ao Brasil quando veio com aquela besteira de dizer que 'governar é abrir estradas'. É, minha mãe, ele decretou o fim dos trens de ferro, nesse país feito para trens de ferro. Uma tristeza! Como justo um mineiro pôde pensar em coisa tão estrangeira?! Ponha na conta dele o meu sumiço: ninguém suporta essa 381. Beijo do seu filho". E são também cartas atemporais. Por elas, eu me correspondo com o passado e o futuro como se tudo estivesse no mesmo tempo cheio de neblina e quase sempre chuvoso e frio da minha memória melancólica. "Lídice, julho de 2012. Pai, estou ansioso desde que soube de sua decisão de vir me visitar. Foi uma decisão sábia. Essa pequena Lídice há de lhe lembrar a sua Diogo de Vasconcelos. Isso vai lhe fazer bem, muito bem. Daqui, depois do segundo túnel, se avista a baia de Angra. É uma beleza! Tem lá um belvedere que prometo ser o nosso limite. Dali a um passo são vinte e poucos quilômetros de abismo até o mar. Não, não precisa me lembrar de suas vertigens. Dali não passaremos! Afirmo-lhe com a mesma determinação do 'No pasaran! de La Pasionaria. O nosso problema é mãe: com essa brisa que aqui sopra, como não deixá-la saber que há uma água salgada boa para se boiar logo ali?! Nesse ponto, estamos em apuros. Em tudo mais, estamos a salvo: as bancas daqui vendem todos os jornais. Marque logo a data. E cumpra! Em matéria de sair de casa, sua fama nunca foi boa. Lembranças a todos da família". Pois é, são cartas assim, todas escritas a bico de pena em amarelas folhas imaginárias. Cartas de viajante. Cartas errantes. Delas tenho várias.

4 comentários:

Marquinho Moreira disse...

Se sairmos hoje como combinamos (em outras palavras, se você não furar comigo), vou lhe mostrar uma página de um livro que sua postagem me fez lembrar.

Abraço companheiro.

Companheiro não, por que amigo pode ser companheiro, mas companheiro, nem sempre é amigo.

Abraço amigo.

Ramon Lamar disse...

Beleza de postagem!

Anônimo disse...

Cabo Frio, 28 de outubro de 1984

Querido Flávio ,
Estamos aqui na praia, ansiosos por sua chegada.
Na verdade, comendo um peixinho e tomando um Old Eigth.
Chegue logo, pois eu e Deia decidimos que não vamos arrumar o apartamento sozinhos....
O sol ta ótimo e agora só falta voce.
Saudade sua.
Beijos.
ZJ

Blog do Flávio de Castro disse...

Belo Horizonte, 28/10/1984
ZJ e Déia,
Não estou ansioso porque minha pressa de chegar aí não me permite esse luxo. Me aguardem! Estou levando um carregamento de biscoitos de queijo. Sei que teremos dias inesquecíveis para os próximos 30 anos. Literalmente!
Aliás, já me imagino lá na frente, lembrando saudosíssimo daquilo que está prestes a acontecer...