28 de mai de 2013

A enigmática e divertida arte de escrever uma coluna em um jornal

Há pouco mais de dois anos, eu escrevo uma coluna semanal no jornal SETE DIAS. Contando esta semana, foram, até agora, 110 semanas. Sem faltar uma sequer, terão sido 110 textos publicados. Eu já havia escrito artigos avulsos para o mesmo SETE DIAS e para outros jornais impressos. Mas artigos avulsos são diferentes. Eles têm uma arrogância natural: você escreve o que pensa, publica e seja o que Deus quiser. Coluna, não. Coluna tem continuidade. Artigo é foto, coluna é filme; mais ou menos isso. Na coluna, você tem a probabilidade de um leitor. Ou seja, não é só você e suas ideias; tem-se a expectativa do outro. Semana a semana, você escreve para um alguém imaginário. Você não sabe quem é esse alguém, você não sabe se ele está gostando ou não. Toda sexta, eu tenho um encontro marcado com esse alguém na esquina para onde convergem as minhas ideias e as convicções dele. Mas eu nunca sei, exatamente, onde esta esquina acontece. Às vezes, gosto do que escrevi, mas fico com o pressentimento de que só eu gostei; às vezes, não gosto e recebo um alento inesperado. Dessa forma, escrever uma coluna é como brincar de cabra-cega. De olhos vendados, no escuro, você tem intuições, mas não tem certezas e apenas tateia. Eventualmente, eu recebo um telefonema que insinua uma presença. Eventualmente, alguém me pára numa fila de supermercado, me pergunta se eu sou eu e comenta uma ou outra coluna. Eventualmente, um aluno de uma escola me manda uma entrevista por e-mail. A propósito, outro dia, recebi uma com perguntas geniais; uma delas era se eu escrevia de primeira, o que me vinha à cabeça, ou se eu pensava duas vezes antes de escrever. Mas nada pra mim, nessas 110 semanas, foi tão especial quanto o convite para conversar com alunos do Colégio Franciscano Regina Pacis. Eu já recebi outros convites para debater com alunos do ensino médio de outros colégios e confesso que gosto muito disso. O especial nesse caso é que fui convidado, precisamente, por ser o humilde escriba da coluna Cidade Aberta. E qual não foi a minha surpresa quando soube que a coluna é usada, na sala de aula, para fomentar debates. E qual não foi minha surpresa ao ver que os alunos conheciam várias delas pelo nome. "Flávio, na coluna 'Senso de Comunidade' você afirmou isso, por que?!"; "Flávio, qual a sua intenção ao dizer tal coisa na coluna 'Atitude e Coragem?"; ou "Flávio, gostei da sua coluna 'Endemia de Estimação'!". E quando eu comentei, por exemplo, o nome do Sérgio Fajardo, ex-prefeito de Medelín, eles já o conheciam, conheciam suas bibliotecas e sabiam, de quebra, de Antanas Mockus, por causa da coluna 'Medo por Medo', tudo na maior naturalidade. Sinceramente, achei divertidíssimo ver cada texto ganhar vida própria, ganhar animação, como uma animal doméstico. Vem cá, 'Medo por Medo'! Vem cá, 'Acaso'! Eu nunca soube bastante bem porque disse sim ao Chico Maia, quando fui convidado para ser colunista do SETE DIAS. Eu nunca soube bastante bem porque escrevo. E não sei. Mas, pouco depois das dez da manhã dessa segunda-feira, ao deixar a sala de aula do Regina Pacis, eu tive um ligeiro pressentimento de que minhas tolices semanais podem fazer algum sentido...

15 comentários:

Quin Drummond disse...

Tudo bem Flávio?

Pois é, podia até parecer ou você sentir que a coluna que vc mantém viva semanalmente estaria morta. Mas idéias não são sementes? Tenho certeza que uma boa parcela da população leitora do Jornal Sete Dias(estou nesta parcela), se alguma semana abrir o jornal e não deparar com sua "coluna" tenho certeza irá sentir falta do coração deste semanário. O meu filho João Pedro que faz o terceiro ano no Regina, dia antes estava ensaiando qual pergunta faria a você. Me disse ainda que gostou muito da palestra. Parabéns e que você receba muitos convites das escolas porque com toda certeza estes adolescentes estarão muito bem informados.

Abraços

Luciano Gonçalves disse...

Tenha certeza que suas linhas semanal, fomentam ideias, coragem e atitudes em favor da coletividade, em favor de nós.

Abraços

Ramon Lamar disse...

Bom, está aí mais uma ótima coluna!
Abração!!!

Blog do Flávio de Castro disse...

Quin, que bacana!, seu filho estava lá?! Sinceramente, o debate lá foi muito surpreendente e comovente. Abração!

Blog do Flávio de Castro disse...

Luciano, obrigado pelas palavras.

Ramon, por descuido, escapou mais uma, né?! Ah! e não se esqueça de me convidar para voltar a conversar com a sua turma de alunos; agora, eu só quero falar para essa meninada. Faz mais sentido... Abração.

Ramon Lamar disse...

Ôpa... já estamos na época de falar dos aspectos antrópicos (Unidade V). Uma terça ou quinta à noite, 19 horas. Só você falar qual é o melhor dia para você...
Abração!!!

Blog do Flávio de Castro disse...

Qualquer dia é bom, Ramon!

Ramon Lamar disse...

Beleza... vou ver um dia e aviso!

A. Claret disse...

Flavio,

em minha opiniao o fato de voce verter suas opinioes aqui no blog e no Jornal e' altamente enriquecedor para SL. Nossa cidade sempre teve um modelo politico/filosofico bastante deficiente e pouco critico. Somos a cidade do " e o padre falou, e o professor falou, e o chefe falou, etc". Quase nunca se questiona decisoes ou diretrizes. Isso contamina e restringe o horizonte pessoal, principalmente dos jovens.

Seu contato com estes seguramente lhes dara' uma alternativa de visao e de pensamento. Acho que cabe aqui ressaltar que aos jovens se deve ensinar-lhes diferenciar claramente entre o pensar e o raciocinar. Voce o consegue.

Blog do Flávio de Castro disse...

Claret, concordo com você. Se eu consigo, não sei, mas é o que tenho procurado fazer. Na segunda, eu precisava ligar as escolhas pessoais com a construção coletiva da cidade. Um dos pontos que eu tentei discutir foi sobre a nossa maneira de firmar convicções. Não me interessava, no momento, a posição de cada um sobre nenhum tema, mas o nível de informação que cada um utilizou para chegar àquela opinião, superando, ou não, preconceitos e maniqueísmos. Foi muito bacana...

Anônimo disse...

A leitura da sua coluna faz parte do meu final de semana. Continue firme trabalhando pelo coletividade.
Abraço
Cláudio Nacif - CARAMELO

Anônimo disse...

Ai que orgulho desse amigo!
Flávio, que lindo esse texto, imagino a beleza desse momento com os meninos, viu?

Fiquei com saudade das conversas sempre trazendo algo com tanta clareza, com olhar novo, que me provoca novos questionamentos.

Abraços mil!
Disa

Blog do Flávio de Castro disse...

Caramelo e Disa, bom vê-los aqui.

Anônimo disse...

De outro lado temos colunista do mesmo semanário com este tipo de pensamento:

"Segundo a nossa Constituição Federal, a manifestação do pensamento é livre, e ninguém pode ser privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política. Para que tal liberdade fosse garantida constitucionalmente, muito tempo se passou e foi necessário anos de lutas contra o comunismo e todo tipo de censura e restrição típicas de um governo totalitário.

Pessoas e opiniões são diferentes. Por mais que se tente convergir, divergências sempre irão acontecer, mesmo em grupos que possuem objetivos iguais. Basta tomar como exemplo os partidos de oposição: têm a mesma intenção, porém divergem em diversos temas. Da mesma forma partidos da base do governo, apesar de terem o objetivo de sustentar a governabilidade, as opiniões nem sempre são convergentes.

Apesar de tudo isso, há uma diferença básica entre os grupos de "direita" e "esquerda": o respeito às diversas opiniões. O que estamos vivendo em nosso país é uma ditadura de opinião, onde qualquer um que caminhe em direção contrária à ideia imposta pela esquerda, que lidera nosso governo federal, é vítima de ataques sujos e totalmente repudiado. São ações de grupos, que antes diziam defender a livre expressão de pensamento, mas nos dias de hoje, impedem a livre manifestação de ideias.

Tudo isso é medo da própria democracia. Medo de opinião alheia, pois a democracia implica exatamente nisso, em discussão e consenso de opiniões. Temos que, em momentos como o de hoje, erguer a voz e impedir que essa ditadura de opinião se prolifere. Caso contrário, veremos nosso país caminhar a passos largos rumo à se tornar uma nova Cuba."
Aí é muito triste.

Andrea Bozzetti disse...

Tudo bem Flavio?

Gostei muito do seu comentario acima e de seu relato sobre a visita a sala de aula da pofessora Regina. Visitei posteriosmente o jornal para ler suas colunas. Sou porfessora de Portugues na China e já elaborei um plano de ensino sobre jornalismo usando suas colunas. Obrigado pela sugestão!