17 de abr de 2013

Um bilhete perdido

Eu sou um daqueles colecionadores de bobagens. O programa Fantástico, um domingo desses, afirmou que isso é sintoma de transtorno obsessivo compulsivo. Se é mesmo, eu, particularmente, acho um bom transtorno. Pois então, entre as bobagens que guardo, tenho alguns papéis inúteis, anotações inúteis, rabiscos inúteis que me servem tão somente para rememorar certas épocas ou certos amigos importantes na minha vida. Quando é possível, para não perder essas anotações, até as faço em livros, nas primeiras ou nas últimas páginas em branco, de tal forma que posso, naturalmente, associar esses 'recuerdos' e os momentos peculiares em que eles ocorreram a um ou outro livro que estava lendo naquela ocasião. Muito bem: há poucos dias, inadvertidamente, achei uma folha de papel que não fazia ideia de onde estava ou mesmo se ainda estava em algum lugar. É um pequeno manuscrito, um cumprimento a mim [espero que seja mesmo...], absolutamente ilegível porque está escrito em iídiche. Não sei se vocês sabem como é, mas, até então, e isso já faz uns dez anos, eu confesso que não sabia minimamente como era uma escrita iídiche.


A minha curiosidade pelo iídiche vem da leitura de um escritor de que gosto muito: o judeu de origem polonesa Isaac Bashevis Singer. Singer atravessou quase todo o século XX, a maior parte como migrante nos EEUU, ganhou o Nobel de Literatura em 1978, e tem, a meu ver, um texto muito simples que, exatamente por sua simplicidade, é riquíssimo na reconstituição de sua infância e adolescência - ainda que de forma ficcional - em pobres ambientes judeus poloneses. Até aonde sei, Singer sempre escreveu em iídiche. O iídiche utiliza caracteres hebraicos e é falado em comunidades judias ortodoxas e seculares. Quanto morei em Brasília, comentei com uma amiga judia, uma pessoa extraordinária, sobre essa minha curiosidade. E não é que, para meu espanto, ela tomou uma folha de papel e me cumprimentou, gentilmente, em iídiche. O manuscrito me lembra Singer, mas, sobretudo, me lembra Brasília, um tempo inesquecível e amigos valiosíssimos, alguns que nunca mais revi.

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