12 de abr de 2013

Fim de semana

Está aberto o fim de semana. Para mim, inevitavelmente, é um fim de semana especial; afinal, no dia 14, em pleno domingo, envelheço. Todo ano é assim, sempre no dia 14 de abril, nem sempre aos domingos. Salvo as dores no tornozelo esquerdo e outras, mais raras, no joelho também esquerdo, envelhecimento não me traz incômodos. Aniversário sim. Como diz um amigo meu, 'sou da turma que não gosta de datas'. Aniversário, Natal, Ano-Novo não são comigo. Melancolias. Datas sugerem balanços e eu sou péssimo em balanços. Balanços, em geral, servem para contabilizar sucessos. Pra mim, na ampla maioria das vezes, os momentos que mais carinhosamente guardo e guardei, nesse último ano, não foram exatamente de sucesso e, quase todos, foram tolos. Conversas sem nexo, na cozinha lá de casa, com minha família, sem pieguice, muitas vezes me tocaram profundamente o coração. Não necessariamente porque foram demasiadamente alegres e geniais; às vezes, porque foram, ao contrário, humanas demais, miseravelmente humanas demais, no sentido mais forte que isso pode ter. Ou, outras vezes, porque foram banais demais, inesquecivelmente banais demais, no sentido mais divertido que isso pode ter, em meio a um porre inadvertido, meu ou de um de nós. Pensamentos que me ocorreram durante uma corrida, vez e outra, foram suficientes para me mudar radicalmente. Fiz, na tentativa diária de dar conta dos meus limites, lá pelo quilômetro sete, talvez, acordos comigo mesmo que me mudaram da água pro vinho. Mudanças daquelas abissais que, de tão abissais, ninguém percebe ou percebeu, nem minha mulher, só eu, que, então, já não sou mais o mesmo. Em meio a leitura de um livro descobri minha ignorância e isso me salvou. Na leitura de outro, encasquetei com alguns personagens e convivi com eles, dias e dias, intimamente. E, acreditem, essa convivência imaginária foi fundamental pra mim. Em um balanço, lanço coisas imaginárias na conta de créditos ou débitos? Uma conversa com um velho amigo no Carnes e Afins, num dia, ou outra, na Livraria Cultura em Brasília, com outro velho amigo, foram tão importantes pra mim que sou capaz de repetir cada palavra que ouvi. E, seguramente, para eles foram conversas ocasionais. Esse é um ponto: não tenho muitos, mas posso dizer, com arrogância, que tenho os melhores velhos amigos do mundo. Com pessoas inesperadas que jamais revi fiz longas amizades e tive conversas que, sem que eu me desse conta, foram tão indispensáveis que parece que haviam sido agendadas propositalmente. Não sei como lançar acasos em balanços. Adentro esse fim de semana com esse sentimento de que o melhor da vida é o imprevisto, o inesperado, o inusitado e, ao mesmo tempo, o esperado, os velhos temperos na prateleira da cozinha de casa, os livros na prateleira do escritório, as almofadas no safá da sala, a certeza da proximidade das pessoas de quem gosto, mesmo que estejam circunstancialmente distantes. Nesta sexta, em meio a uma crise de sinusite, farei um creme de cenouras. Se der conta, lá pelas três da madrugada, levantarei para ver o treino classificatório da F1, em Xangai. Amanhã, por certo, comprarei o Estadão apenas para ler o Sabático. O Sabático deste sábado será histórico porque será, infelizmente, o último ou o penúltimo. Não sei se irei ao clube; depende da sinusite e do sol. Talvez compre um livro na Ouvidor ou na Mineiriana para me dar de presente. Na madrugada de domingo é muito provável que assista ao GP da China. Quando domingo clarear, pensarei a melhor forma de brindar os meus 53 anos. Que seja como a vida: ou de forma surpreendentemente trivial ou comumente inesperada...

5 comentários:

Blog do Flávio de Castro disse...

Comentário recuperado de Marcos Oliveira:

..."um porre inadvertido" (Tive muito prazer de ser coadjuvante em um desses), "banais demais, no Carnes e Afins" (Acho que fomos os únicos a obrigá-los a fecharem à meia noite), "para eles foram conversas ocasionais" (Aqui você se enganou), "os melhores velhos amigos do mundo (Vou ser pretensioso e me incluir nesta lista, chumbo trocado), "pensarei a melhor forma de brindar os meus 53 anos" (Isto foi uma provocação? Problema não, vai uma sugestão: sente-se ao redor de uma mesa com amigos. Como não poderei estar presente, ponha um copo, complete-o até a boca com uma bem gelada, não esqueça do colarinho, este copo é meu. Tome o seu e o meu por mim). Abração.

Blog do Flávio de Castro disse...

Comentário recuperado de Geyse:

Flávio, parabéns! Te desejo tudo de bom, amigos, boas conversas, livros, e que voce continue com este tesão pela vida, sempre!

Blog do Flávio de Castro disse...

Comentário recuperado da Flávia Augusta:

Flávio

O aniversário é seu, mas nós fomos presenteados com mais um lindo texto.
Parabéns!

Da velha amiga Flávia.

Blog do Flávio de Castro disse...

Comentário recuperado da Flávia Augusta:

Com a idade veio a moderação... rs

Blog do Flávio de Castro disse...

Comentário recuperado de Anônimo:

Parabéns !!!! Saúde e paz. Abração. Caramelo. obs.: Essa semana ligarei para falarmos do projeto.