6 de mar de 2013

Santos e demônios

Nós sempre somos, decisivamente, levados a julgar as pessoas por um critério de fundo ideológico preconceituoso. As análises da realidade costumam ser sempre muito rasas. Se eu tenho uma identificação com fulano, eu tendo a concordar integralmente com ele ou a justificar, indulgentemente, os pontos de divergência. Tudo é oito ou oitenta. Tanto à esquerda quanto à direita.

Esses dias têm sido curiosos. A coincidência de fatos que envolvem personalidades polêmicas tem exacerbado conflitos de opinião. Com relação ao Papa, que renunciou no dia 28; a Chávez, que morreu, ontem; e a Joaquim Barbosa, que agrediu verbalmente um jornalista, também ontem - para ficar em alguns exemplos -; já ouvi de tudo.

Vamos pela direita. Já ouvi críticas conservadoras à renúncia papal por se entender que ele não poderia ter criado essa situação imprevista para a Igreja; ouvi mil vezes mais piadas sobre a morte de Hugo Chávez, visto apenas como um ditador histriônico; e, estranhamente, vi reações instintivas de defesa do ato bizarro de Barbosa por aqueles que passaram a divinizá-lo por concordância com seu papel no julgamento do mensalão. Nos três casos, eu tenho poréns.

Olhando ao meu modo, um tanto à esquerda, eu vejo as coisas diferentes. Preconceituosamente, não gosto do papa Bento XVI. Sempre o vi como conservador, eurocêntrico, co-responsável pelo distanciamento da Igreja com a vida contemporânea, especialmente do ponto de vista moral e científico, e, ao mesmo tempo, conivente com práticas delituosas do baixo e do alto clero. Mas, sinceramente, não estendi esse julgamento maldoso de sua última decisão; até achei sua renúncia um ato de generosidade, grandeza e humildade. A Igreja que aprenda a viver com um papa emérito.

Sobre Chávez, gosto do lado social do seu governo e gosto do papel que desempenhou como uma liderança mundial periférica, embora tenha críticas ao seu lado político-institucional e à sua política econômica. Ou seja, gosto da dimensão popular e social de seu governo e não gosto de seu lado populista e quase ditatorial. Preferiria, e muito, que ele tivesse acabado com o analfabetismo sob um ar democrático mais arejado. Mas o que ele fez pela Venezuela, ainda que ao preço da manutenção de uma economia rentista petrolífera, não foi pouco: a pobreza despencou [segundo o jornal inglês The Guardian, o nível de pobreza caiu de 23,4 para 8,5%, desde 1999]; o analfabetismo acabou, os indicadores educacionais se elevaram e o IDH deu uma súbita escalada. Não dá para ignorar...

Bom, sobre Joaquim Barbosa, preconceituosamente, vou dizer o que vem à minha intuição: ele ainda vai decepcionar duramente os que o divinizaram. Ele só alcançou o status de Deus porque foi ardiloso. Como operou a favor da opinião pública, consagrou-se. Mas esse mesmo estilo sagrado deixa antever traços inquestionáveis de desequilíbrio, desrespeito, arrogância e prepotência. É uma questão de oportunidade: ele ainda vai dar com os burros n'água...

[Sobre Chávez, leiam artigo de Rubens Ricupero e documentos do PNUD - 1 e 2; sobre Joaquim Barbosa, leiam matéria no G1]

3 comentários:

A. Claret disse...

Boa noite a tod@s,

Flavio, concordo com quase tudo que voce escreveu a respeito destas tres pessoas, com algumas
discordancias pontuais (nao conheço o Joaquim Barbosa, a nao ser atraves de noticias recentes).

Em minha opiniao, o tal papa nao renunciou por generosidade/grandeza/humildade. O fez por pura e
simples covardia. Ele sabe, melhor que ninguem, que a tempestade se aproxima: escandalos de abusos de menores
- ironicamente, muitas pessoas que gritam contra estes crimes, se silenciam em se tratanto de padres -
e os escandalos financeiros. Se anunciam nuvens de tormenta no Vaticano... Tambem nao esquecer que
este bento foi um dos responsaveis pela famosa disputa com Boff e outros teologos. Medieval!

Chavez: nem santo nem demonio, como voce ressalta. Alem das coisas negativas que voce indica dele, me irritava
sua obcessao em entrar na historia latino-americana pela força. A busca desesperada de notoriedade com declaraçoes
proprias de uma mesa de bar (depois de n cachaças), me provocavam vergonha alheia. Tambem sua compulsiva mania de calar aos
dissidentes e seu populismo de terceira classe. Nao nos esqueçamos que ele foi um golpista - curiosamente
tanto seus amigos como inimigos tocaram pouco esta tecla - e como no caso do "amado" Getulio Vargas, parece que as pessoas
se esqueceram desta vergonhosa açao. Outra coisa: duvido dos numeros que da' The Guardian. Duvido muito. Nao nego as melhoras
mas desconfio de suas magnitudes.

Joaquim Barbosa: nao o conheço, a nao ser por algumas fotos de Facebook indicando-o para presidente da republica!!!
Estou enganado, o este senhor substituiu ao outro juiz que acreditava em saci-pereres, efeitos da Fisica Quantica, etc
no comportamento humano, etc? Se for assim, nao tenho mais escolha que lançar mao de V. Hugo: reflete sobre as diferenças
entre um juiz e um homem justo e equilibrado.

Blog do Flávio de Castro disse...

Claret,

Sobre seus comentários com relação ao papa, concordo 99%. O 1% de discordância fica por conta de como qualificar o seu gesto final. Mesmo tendo sido movido pela fraqueza [isso me parece verdadeiro], acho que não deve ter sido fácil abrir mão de um papado. Ele podia continuar não fazendo nada contra os escândalos, mantendo-os sob o tapete, e continuado papa. Reconhecer as limitações tem lá seu valor.

Eu também não gosto - pessoalmente - da figura do Chávez. O estilo agressivo, as coisas que dizia etc., mas suas políticas sociais, com que números forem, parecem ter mudado a vida dos pobres na Venezuela. Como a elite latino-americana, inclusive brasileira, sempre deixou os pobres à deriva, só lamento que quem os abrace tenha esse viés populista ou caudilhista, sei lá.

O Barbosa, pode ter certeza, ainda vai dar o que falar. Posou de herói e conseguiu escamotear o que de fato é. Pesa contra ele agressões à ex-mulher, inúmeros casos de desequilíbrio e destempero públicos e, agora, fala-se em gastos astronômicos [com dinheiro público] com casa e gabinete. Esse teria sido, aliás, segundo jornais, a gota d'água para a explosão contra o jornalista. Mas como a direita brasileira anda precisando de ídolos, ele parece que ainda tem algum gás pela frente. A ver...

Abração, Flávio

PS: Ah! Gostei muito de sua casa de campo de la Calahorra [risos]...

A. Claret disse...

Flavio,

este assunto da "casinha de campo" de la Calahorra e' intriga da oposiçao (leia-se Pablo Pacheco). Rsrsrs.