28 de mar de 2013

Feliciano como símbolo

Quanto mais essa crise na presidência da CDHM se aprofunda, mais Feliciano me parece o símbolo da troca de uma política de valores por uma política de poder. Ou o efeito colateral perverso dessa troca...


Por que Feliciano saiu diretamente do baixíssimo clero para ser alçado à condição de celebridade do Congresso? Porque todos os grandes partidos, especialmente o PMDB, o PT e o PSDB menosprezaram a importância, na lógica de valores, da Comissão de Direitos Humanos e Minorias em favor de outras mais importantes, na lógica do poder. Deram-na, de bandeja, sem dó nem piedade, ao PSC que não tem representação suficiente para presidir comissão alguma. Curiosamente, aqueles partidos, em suas versões originais, nasceram - eles próprios ou suas lideranças - da luta pelos direitos humanos, que, nesse caso, secundarizaram. Emergiram do combate à ditadura, na luta por anistia, contra a censura, contra a tortura e pelas liberdades democráticas. Para alcançarem e manterem o poder, entretanto, de formas diferentes, tiveram que aprender a 'jogar o jogo'. Feliciano é apenas uma promissória cara desse jogo.

O problema foi que o PSC errou a mão e surpreendeu a todos com um absurdo contrassenso, com um nome racista e homofóbico. Não fosse assim, a operação de menosprezo dos grandes partidos com relação à CDHM teria ficado invisível. Invisível, mas nem assim bem resolvida. Afinal, com ou sem Feliciano, que nome teria o PSC para presidir essa comissão, com trajetória na área dos direitos humanos? Os deputados sabiam muito bem que uma legenda como o PSC não teria nenhum e, ainda assim, foram em frente. Não fosse esse pastor seria aquela profeta, pessoas dedicadas a projetos pessoais, construídos na junção indevida entre política e religião. Estava no preço; bastava que essa transação de bastidores que comanda a política de poder ficasse reservada aos bastidores. Não ficou! Feliciano é apenas a face revelada do modus operandi injustificável da política nacional.

E por que Feliciano mantém essa queda de braços? Porque ele está ganhando e muito com isso. Ele deixou de ser um feliciano-ninguém para ser um nome em evidência. Ele sabe que isso significa votos. Ponto: votos! Não interessa como se vira celebridade, se com racismo, debaixo de críticas, ou se em reality shows, debaixo de edredons; interessa é que, uma vez celebridade, ninguém se lembra da escada de acesso. Com razão, ele alega que é deputado por voto direto e presidente da Comissão por voto do Colégio de Líderes; ou seja, que chegou lá legalmente, segundo as regras do jogo. Que o desmintam os líderes petistas, tucanos e peemedebistas. Só sai por renúncia voluntária. E não sairá. Não há uma discussão de mérito, nessa história, há uma discussão de poder. Feliciano é apenas o resultado da política de poder, quando ela se soma, ainda que acidentalmente, com ambições pessoais. Deus me livre!

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