1 de mar de 2013

Fatos e versões

Em entrevista coletiva, ontem, para falar sobre a dengue, o secretário de Saúde de Sete Lagoas afirmou que a cidade sofreu uma “epidemia de má gestão, em 2012”. Depositou, assim, no governo passado, a culpa pela explosão de casos da doença. É uma versão plausível, mas não é a única. Conversando com um especialista em saúde pública, eu ouvi outra diferente: a de que esse surto era previsível por se saber do aparecimento de um quarto tipo de vírus da doença, para o qual a população não está imunizada; e que, nesse caso, faltou sim um plano de contingência e uma ação mais ágil do atual governo – e não do anterior – para o seu enfrentamento, no período de sua maior infestação, no verão. Muito bem: em que essa polêmica contribui para a solução do problema? Em nada! Deixemos de lado, então, as versões e vamos aos fatos.

Esse período de início de governo guarda uma ambiguidade cruel. Todas as mazelas que dizem respeito ao passado e até ao presente são debitadas à conta do ex-prefeito que já não tem poder algum. O atual prefeito, com a caneta na mão, responde apenas pela bonança do futuro. Eu me pergunto: quando a validade do governo passado, efetivamente, acaba e o atual governo passa a responder, integralmente, para o bem e para o mal, pela cidade?!

Alguém inventou que esse período de indulgência dura 100 dias. Até 10 de abril, não se cobra nada do atual governo. Como o governo passado é passado, nem dele. Ou seja, até lá, não há de quem cobrar, por exemplo, por essa epidemia de dengue que está atemorizando todo mundo.

Acho que vale a pena extrair uma lição desses fatos: é impressionante como, nesses momentos de troca de guarda, nós só temos interesse em saber como se processará a transição fiscal e nenhum interesse pela transição das políticas de governo. Explico: ficamos de olho na dívida que um governo deixa para o outro, nos seus restos a pagar, nas tais ‘heranças malditas’ e somos cegos para tudo que se refere a como se fará para que as ações governamentais não sofram interrupção. Ou seja, temos mais curiosidade pelas mazelas do governo que sai, olhando pelo retrovisor, do que pelos planos do governo que entra, olhando pra frente. Nós sabemos que, em todo verão, chove e que a chuva gera tragédias; nós sabemos que, em todo verão, há uma nova infestação de dengue e, ainda assim, não temos nenhum interesse em conhecer o plano do novo governo para os seus primeiros 100 dias; como, por exemplo, ele planeja trocar a empresa de limpeza urbana, sem risco de colapso; qual seu diagnóstico para o problema da dengue e como ele agirá; ou como ele resolverá os tantos problemas que ele próprio apontou, como o do empresa de sistema de gestão ou do excesso de pessoal, et cetera e tal.

Aturdidos por versões inúteis, acabamos surpreendidos pelos fatos. Aí, somos bons profetas de fatos passados. Um bom exemplo: quando o atual prefeito deu qualquer de suas várias declarações, não me lembro dele ter mencionado aquele que seria o seu principal desafio, daí a poucos dias: a epidemia de dengue. Nem ele se preocupou com isso, nem nós! Só resta mesmo, agora, reclamar da epidemia de gestão do governo passado...

4 comentários:

Enio Eduardo disse...

Flávio o fato é que não há Política de Estado para a Prevenção e para o Combate à Dengue. A Política de Estado pode garantir Protocolos efetivos de enfrentamento às epidemias, independentemente do Governante de Plantão. Um Sistema de Saúde cuja fonte de financiamento específica é inexistente, fica à mercê de liberação de recursos para se combater epidemias, ou seja, fica não mão de quem está governando.

Estamos sempre correndo atrás do prejuízo. A negligência é total.

Em Belo Horizonte por exemplo, a Dengue triplicou o número de casos em 2013, quando se compara com 2012. E a culpa seria de quem? O Prefeito é o mesmo e o Secretário de Saúde é o mesmo. Vejo muita hipocrisia em "justificativas" que ando escutando.

Muitas alternativas de prevenção e combate à Dengue existem. Alternativas eficazes existem. O que não existe é vergonha na cara das autoridades, parece que elas preferem trabalhar com o caos.

Anônimo disse...

Concordo plenamente com vc Flavio, e pra piorar a situação a impressa de Sete Lagoas está totalmente alienada.
Espero que o povo não tenha que pagar a conta mais uma vez, temos que estar atentos os lotes de propriedade particular estão sendo limpos,no jd arizona ja começou, o o executivo tem que mandar a conta para o dono do lote, o povo não pode ser penalizado.

Anônimo disse...

Flavio, essa terceirização da Saúde através de Fundação. Sei la. Não vejo com bons olhos, o povo de São Paulo e do Rio de Janeiro ja experimentaram esse modelo.
Gostaria de ler seus comentários a respeito.

Anônimo disse...

Flávio.
Afastei-me dos blogs e utilizo menos a internet. Gasto, hoje, a maior parte do meu tempo de aposentado com a nossa Ana Cláudia, dádiva de Deus. Antes de partir em definitivo para o sertão do Rosa, ainda vou dando os palpites. Deixo-lhe esta pergunta:
Sinceramente, por que uma cidade tão próspera está tão abandonada e agonizante ?
Um abraço. Cláudio/Ver de Vida