20 de fev de 2013

#rede embolada

Eu venho acompanhando, há tempos, com grande interesse, o movimento de Marina Silva para formação de um novo partido, tanto pela admiração que tenho por ela quanto por reconhecer que vivemos, no país, uma exaustão partidária.

Há um desafio: como construir um partido contemporâneo? Ou, se quiserem, usando uma expressão que não é minha, como criar um novo partido que evite o caminho que parece inevitável para todos de pemedebização da política brasileira? Isso não significa, reativamente, apenas criar uma plataforma que corresponda às novas expectativas sociais. Essas expectativas são difusas. Elas são marcadas pela espontaneidade, pelo posicionamento - nem sempre racional; pelo contrário, muitas vezes, emocional - que a sociedade 'formadora de opinião' assume frente aos temas cotidianos. Esse é o nó: um partido é, necessariamente, ou deveria ser, uma organização com consistência ideológica [coisa que o PMDB, como nenhum outro partido, desfez e com o que contaminou todos as demais agremiações]. Para se adquirir essa consistência é preciso delimitar valores que nem sempre são capazes de recepcionar todas as 'expectativas difusas'. Ao contrário, recepcionar todas essas expectativas significa um esforço sem-fim de mimetização que é, exata e paradoxalmente, o que está nos levando à atual exaustão partidária.

Eu acompanhei, no sábado, o lançamento da Rede Sustentabilidade - ou simplesmente #rede - e a entrevista, na segunda, da Marina Silva, no programa Roda Viva. E confesso: saí mais confuso do que entrei...

A Rede me pareceu um embolado estatuto de boas intenções e de bom comportamento político, 'sonhos' sem nenhum traço ideológico. Isso não é partido! E demonstrou tal interesse em se mimetizar com a opinião pública dos 'sonháticos' que acabou cunhando expressões semelhantes às de Gilberto Kassab [ainda que, em lados opostos, a Rede se afirme como programática e o ex-prefeito paulistano, como pragmático]. Marina disse que o novo partido não é "nem de direita, nem de esquerda. Estamos na frente" ou "nem oposição, nem situação. Precisamos de posição".

Ora, o que não vi foi exatamente 'posição'. Putz! Ninguém nesse mundo terá coragem, por exemplo, de afirmar que é oposição, sim, ao governo do PT, ainda que não deseje fazer oposição sistemática? Ninguém nesse mundo terá mais coragem de assumir que é de esquerda ou de direita?

E não faltaram contradições... Um exemplo: ainda que se diga não personalista, a Rede foi logo chamada de 'partido da Marina'. E, quanto mais ela defendeu o não 'marinismo', mais a Rede tomou a sua cara. A cara e as convicções. Até as convicções fundamentalistas religiosas de Marina, que deveriam ser de caráter pessoal, se partidarizaram. Expressão disso foi a incapacidade da Rede de assumir uma posição sobre união homossexual - assunto já mais do que superado - e empurrar qualquer definição a respeito para um eventual plebiscito. Tem cabimento? Aonde está a 'posição' que, segundo a ex-senadora, 'precisamos'? Ora bolas, então, para que servem partidos?!

Partidos, até aonde sei, servem para disputar o poder. Pode não ser a qualquer preço, mas sempre para disputar o poder. Como fazer essa disputa sem alianças e sem confrontos explícitos? Como fazer essa disputa de forma ética? A #rede não disse. Embolou-se em um sem-número de boas intenções genéricas e nada mais. Se avançar, imagino que terá  sucesso na largada. Essa massa disforme é muito aglutinadora... Daí pra frente é ver pra crer. Como não marcou posição na origem, a cada passo, ao ter que se posicionar, perderá metade dos adeptos [como já perdeu o deputado Jean Wyllys e o movimento LGBT, no primeiro dia]. A não ser que nunca se posicione ideologicamente. Assim como o PMDB... Mas aí a Rede será apenas um PMDB do bem. É isso?!

32 comentários:

LEANDRO VIANA disse...

Flavio, na sua consepçao social e filosófica de partido politico e, de acordo, com seus conceitos, sua critíca tem razao e fundamento.
Entretanto, partido político nao é fudamentalmente um instrumento de tomada de poder. Essa é a propasta central que um partido deve-se pautar? Para mim, nao. A traduçao do termo ideologia nao é única. Existe a corrente marxista, dque vc é seguidor, relacionada a criaçao/manutençao de relaçoes de dominaçao, se tratando de política, claro, e outro conceito de ideologia voltado a uma visao ideal do mundo. Esta, filosoficamente, é bem mais moderna que a primeira e que me parece ser por onde o partido dela quer trabalhar: "sonháticos". Para isso, costurar arcordos faz parte do processo, mas sem perder autonomia e sua essencia. abs

LEANDRO VIANA disse...

*Concepçao

Blog do Flávio de Castro disse...

Leandro, apenas para eu entender melhor e poder debater, uma questão de origem: na sua concepção, se partidos políticos não servem para disputa de poder, eles servem pra quê? Acho que elucidar esse ponto é essencial para podermos conversar sobre a #rede. Concorda? Abs, Flávio

Quin Drummond disse...

Acho que a colocação do Flávio veio de encontro as minhas dúvidas. Fiquei na expectativa, agora, cheio de dúvida e descrente nesta nova empreitada.A meu ver partido político é para ocupar espaço de comando de uma nação com propostas e ideias. A gente sabe que, o que se apresenta hoje não dá, talvez um pouco de oxigenação no PT não fará mal nenhum, falta de oposição é danoso. A Rede quase me pegou, mas...

Frederico Dantas disse...

Haja tijolo deitado para fazer muro grosso nesse país que consiga equilibrar todo mundo que quer ficar em cima dele.

LEANDRO VIANA disse...

Flavio, sao instrumentos de alcance desse "mundo ideal". Nao necessariamente via tomada do poder.abs

Blog do Flávio de Castro disse...

Quin, acho que todos os partidos que chegam ao poder, inclusive o PT, pelos caminhos atuais, estão fadados a se transformarem em novos PMDB's. Ou seja, fadados a um excesso de pragmatismo. É contra essa tendência aniquiladora que eu espero, no mundo real, uma alternativa. A #rede não me parece capaz disso...

Blog do Flávio de Castro disse...

Fred, é isso: haja muro!!!

Blog do Flávio de Castro disse...

Leandro, mas como alcançar esse 'mundo ideal' senão pela via do poder?! Por outras vias, existem outros instrumentos que não os partidos...

Quin Drummond disse...

O pior de tudo é não ter uma oposição que seja capaz de colocar alternativas. Neste sentido vejo o PT como seu próprio entrave, por isso vejo a necessidade de uma análise interna com reformulações para sua própria sobrevivência. Vejo como certo a reeleição da Dilma independentemente do nosso voto. Quem irá elege-la serão os milhares de antes excluidos que hoje vão ao supermercado, comem carne todo o dia e ainda tem um carro na garagem, quem vai querer perder isto?

Dalton Andrade disse...

como disse o Zé Simão, a #rede é o PSD que não come carne... partido novo os políticos que detém cargos podem mudar sem perter o mandato. No mais é o que você disse bem: sem marcação ideológica, perde metade a cada decisão.

LEANDRO VIANA disse...

Nao concordo com a colocaçao do partido Rede na vala comum do fenomeno da "PMDBzaçao", cujo PSD é um fiel seguidor.
Sao situaçoes bem diferentes. O PSD foi criado para estar bem proximo do poder, como o PMDB sempre está. Ou seja, abriu mao de seus ideais, sua concepçao de construçao social para está ali onde lhe interessa. Já o partido de Marina nao tem nada a ver com isso. Há principios e busca de independencia para conduzir a sociedade a mudanças. Isso para mim é fundamental para um partido. O pragmatismo e o jogo de interesses entre situaçao e oposiçao é tamanho q compromete a seriedade do congresso.Parlamentares seguem as diretrizes traçados por partidos, comprometidos com um projeto de poder nao com interesse coletivo. " Nao posso apoiar um bom projeto de um senador tucano, por estar na base da Dilma". Os instrumentos de mobilizaçao popular estao mais vivos com a internet e redes socias.Os partidos tem q interagir com a sociedade e conduzir os debates de propostas relevantes para o país.

Quin Drummond disse...

Olha ai meu caro vereador Dalton Andrade: Você não acha que está na hora do PT em um Congresso fazer uma boa reflexão destes 10 anos como governo? Não estou dizendo de resultados, estou dizendo de comportamento enquanto poder, análise do que o Flávio colocou aí de estar virando um PMDB. Para mim o PT com o passar do tempo está ficando velho demais, precisa se renovar ou oxigenar pela sua própria sobrevivência.

Blog do Flávio de Castro disse...

Quin,

Não creio que o PT, institucionalmente, fará essa reflexão. Desde que Tarso Genro foi voto vencido em sua proposta de 'refundação' do partido, a opção foi pelo pragmatismo necessário à manutenção do tal 'presidencialismo de coalizão', com todo o seu preço...

Sobre a reeleição de Dilma, concordo com você. As pessoas, ricas e pobres - não só os pobres -, votam da mesma maneira; votam avaliando o que é melhor para a vida delas. Acho isso legítimo...

Abs, Flávio

Blog do Flávio de Castro disse...

Dalton, bom vê-lo aqui! A frase do Macaco Simão é uma pérola. Ele erra muito, mas quando acerta, é na mosca!

Blog do Flávio de Castro disse...

Leandro, eu concordo com muito do que você diz; só acho que, não necessariamente, a Rede dará conta de tudo isso...

Sobre Rede, PSD e PMDB não joguei tudo na vala comum porque sei que são coisas com valores muito diferentes. A associação que fiz relaciona-se, exclusivamente, ao que chamei de processo de mimetização. Nesse caso, ainda que 'em lados opostos', essa tem sido a doença de todos os partidos. Nenhum partido delimita seu espaço ideológico porque, na verdade, quer espelhar o seu público alvo. Quer dizer o que esse público quer ouvir. Aí sim há diferenças: o público-alvo de cada partido pode não ser o mesmo. O da Rede é um; o do PSD é outro. Mas e daí?! Daí que isso funciona bem para os pragmáticos, mas costuma ser demolidor para os programáticos. Esse me parece ser [ou será] o problema da turma da Marina...

LEANDRO VIANA disse...

O desafio serà grande, mas é um projeto a longo prazo, imagino. Fiz referencia ao artigo do Zê Simao. Descordei dele e de outros colunistas famosos por aí q analisam superficialidades, diferente do seu caso. abs

Alvarenga disse...

PMDB ou PT do bem?

Enio Eduardo disse...

Nessa miríade louca da Política Brasileira, que ideologia é possível?
Depois que o Governo Lula cunhou o grande discurso de Centro Esquerda e a Enorme Prática de Centro Direita, parece que a oposição está aniquilada.

Essa foi a grande magia do Lula Potter?

O Aécio Neves pontuou 13 pontos do que ele chama de fracasso petista no governo. Quando foi a noite, o Lula sintetizou o momento petista: "Vamos responder nas urnas, reelegendo a Presidente Dilma".

É isso mesmo! Tudo se resume às Urnas?

Não existe mais espaço para o Drama, para a Comédia e para o Romance na Política?

É meu caro Flávio e pracianos, neste Palco da Tragédia da Política Brasileira cabe sim! Espaço para a #Rede e uma #Rede que pesque de tudo. Uma coisa muito "podes crer".

É um nó do Borogodó.

rogerpardal disse...

Historicamente o que se vê são "figuras partidárias" que perdem espaço e formam outros partidos para ficar em mais evidência. as vezes maquiadas em novas ideologias....essa mitose partidária vai de encontro cada vez mais para barganha e ego.

Abs.

A. Claret disse...

Flavio,

uma frase de seu texto me chamou a atençao: "A não ser que nunca se posicione ideologicamente.". Lendo e ouvindo o que esta senhora pensa a respeito dos homossexuais, pesquisas com stem cells, etc, sera' que e' necessario que ela diga qual a sua ideologia? Para mim esta' clara.


Abraços a tod@s

Enio Eduardo disse...

De pleno acordo Claret. a postura diz sobre a ideologia.

Blog do Flávio de Castro disse...

Claret, esse é o ponto. Quando a ideologia não é explicitada, ela é posta debaixo do tapete. Mais hora menos hora, ela acaba se revelando. Eu conheço pessoas 'marinistas' que são tradicionalmente de direita e outras de esquerda. Até quando estarão juntas sob o manto difuso da sustentabilidade 'sonhática'? Esses pontos que você citou, por ex., vem da visão religiosa fundamentalista de Marina. Ela vai levá-los para o partido? Se sim, a metade mais progressista dos seus adeptos pulará fora. Jean Wyllys terá sido só o primeiro... Bom vê-lo aqui. Abs, Flávio

Blog do Flávio de Castro disse...

Enio, fico feliz de revê-lo aqui na praça...

Blog do Flávio de Castro disse...

Pardal, senti sua falta no Toró do Constantino...

Frederico Dantas disse...

Há coisas realmente interessantes neste mundo. O deputado Jean Wyllys (seria seu pai um admirador dos velhos Aero Willys?) é o que poderíamos chamar hoje de um bom deputado. Tanto pelo padrão ético geral quanto pela defesa das minorias que, certamente, foram importantes na sua eleição.

Quem diria que só teve a chance de se tornar elegível, porque não?, ao participar e ganhar um Big Brother. Era, no programa, uma pessoa que tinha dois olhos, não só um, numa terra de cegos.

Que coisa, não?

Blog do Flávio de Castro disse...

Que coisa...

LEANDRO VIANA disse...

Quem diria q o BBB iria servir para revelar um grande parlamentar..realmente curioso.

rogerpardal disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Sara Sany disse...

Flávio, que lindo debate vc provocou mais uma vez! Fico até sem jeito, diante de tantos comentários interessantes, sinto-me uma adolescente política, mas a geração que me antecedeu lutou pela liberdade de expressão, por isso não desperdiço oportunidades de fazê-lo. Bom, indo ao ponto, eu sou uma dessas que sonho sob o "manto difuso da sustentabilidade" que é o mote principal do que seria a ideologia da #rede. Por isso,embriagada por essa esperança verde(que no meu entendimento vai muito além da preservação, mas da remodelagem do nosso modelo de visda=visão+vida) qdo ela fala em posição, eu entendo que ela se refere a uma superação do que acostumamos a chamar de jogo político, onde sempre tem de haver uma situação e uma oposição - o que muitas vezes trava o encaminhamento das soluções. Posicionar-se talvez significaria agir conforme convergências, superando o mero entendimento (e disputa) de parlamentares, mas também das contribuições técnicas, histórico-sociais, socioculturais - a sociedade é difusa, como governá-la sem considerar isso? Acredito mesmo que estamos em um momento de transição de modelos, a história nos mostra que momentos assim, costumam degolar cabeças - é o que eu espero: que ligados em rede possamos deixar correr uma diversidade de ideias, que irão se organizar - segundo a teoria do caos - em prol do bem comum. E quanto ao posicionamento dela sobre o homossexualismo, não entendo porque isso é um assunto que precise de posição política. Se Jean Willys era considerado por ela como integrante da #rede, o que está implícito, no meu entendimento, é que ser humano está acima de suas opções sexuais, não? Grande abraço!

Blog do Flávio de Castro disse...

Sara, eu entendo o que você diz, mas não acredito nisso. Veja: não digo que você não tem razão, digo que eu, pessoalmente, não acredito. Eu acho que posicionar-se à frente [como Marina disse] ou romper com o dualismo esquerda-direita, PT-PSDB, qualquer desses dualismos, está ao alcance de vários partidos. No outro extremo ideológico, o PSD de Kassab, como eu mencionei, também acha possível essa convergência. Ao contrário, eu acho que os partidos precisam ter uma posição ideológica que delimita o seu território. Um partido tem que defender alguns interesses em confronto com outros, que, expressamente, condena. Já buscar convergência situa-se, não no plano estatutário, mas no da prática política. Pode ser, como disse o Leandro, que essa minha crença decorra da minha formação marxista. Pode ser; mas é assim que acho que as coisas são. No caso dos homossexuais, ser 'humano' é uma exigência pessoal. Partidos tem a obrigação de defender posições para a frente. A rede jamais poderia ter se negado a posicionar-se frente a essas questões atuais: células tronco, GLBT etc. Ao final, francamente, eu não sei o que esperar da Rede, a não ser boas intenções. Esse é o problema!

rogerpardal disse...

Flavio, não fui ao Cordão porque estava "dengoso"...hhhehe ano que vem to la!
Abs.