13 de jan de 2013

Pesadelo

Sai da cama e tomei, imediatamente, a rua. Segui a direção leste. Singrei, como um barco, a chuva e a escuridão. Em frente à fábrica de meu avô, o silêncio repetia o barulho dos antepassados das máquinas paradas. Lamentos mudos vinham do velho Pronto Socorro do Hospital misturados aos passos sem sons das irmãs. Tomei o córrego na direção oeste. Fui embora São José afora. Queria chegar até a Lapa d’Orelha. Eu precisava subir sobre ela e berrar, insistemente: - “não subam a 040. Calor, calor, calor. Sertão, sertão, sertão. Terra do diabo. Aqui é apenas o rabo. O rabo do diabo”. Não subi. Não tinha forças. Subi a 040. A chuva e a escuridão; a chuva e a escuridão. Segui rumo a Cordisburgo e, depois, a Curvelo. Terras quentes. Infernos. Tocas do diabo. Molhei-me, sujei-me e fedi. E segui. O caminho de São Geraldo. O caminho do diabo. Dias de chuva e escuridão. Sentei-me na escadaria da Igreja de São Geraldo e proclamei a verdade: - “Deus não existe. Só o diabo governa. Só o medo detém o diabo. O medo, o medo, o medo”. Os beatos desdenharam. E rezavam. Rezavam por medo. Eu sabia que eles rezavam por medo e proclamava e proclamava e proclamava a verdade. Eu, o profeta. Os homens se movem pelo pecado; e o diabo é o pai dos pecados. Luxúrias. As virtudes não existem. São sombras envergonhadas do medo. Com giz, risquei as quatro calçadas da igreja, com milhares e milhares da mesma frase: - “Só o diabo governa. Só o medo detém o diabo”. O diabo não deixou ninguém ler. Uns jogaram moedas como penitência. Mas eu insisti. Eu estava cansado de tanto medo e estava disposto a fazer um acordo com o diabo. Se Quelemém fez, eu tinha o direito de fazer. Mas ele não queria livrar-me do meu medo, não queria conversa comigo. Minas unhas estavam imundas, negras. Minha pele fedia ao diabo. Mas ele me ignorava. Insisti. Se eu fizesse um acordo, perdia o medo. Ainda que ganhasse o arrependimento. Eu queria o arrependimento, mas não queria mais o medo que inventa deus. Com carvão, risquei as quatro paredes da igreja, com milhares e milhares da mesma frase:  - “Só o diabo governa. Só o medo detém o diabo”. O diabo não deixou ninguém ler. Outros jogaram moedas como penitência. O diabo é ruim e não quis acordo comigo. Deus é invenção do medo. Eu disse, eu disse, eu disse. No silêncio, no meio da chuva e da escuridão, a verdade que eu proclamei ecoava em auto-falantes: - “Só o diabo governa. Só o medo detém o diabo”. Levantei e retomei o caminho de volta. Precisava de um banho e de uma cama quente.

2 comentários:

Ramon Lamar disse...

Ih mizifio... a coisa tá braba!!!

Blog do Flávio de Castro disse...

Ramon, transtornos do pensamento limpam a mente. Se uma mente limpa funciona melhor, aí, não sei dizer...