6 de dez de 2012

O homem que desenhava

Desde estudante de arquitetura, eu conheci vários Niemeyers. O Niemeyer que, rebeldes, gostávamos de criticar; o Niemeyer familiar, do prédio da Praça da Liberdade, onde uns e outros amigos moraram; o Niemeyer que apenas nos silenciava com a sua Igrejinha da Pampulha; o Niemeyer da frase que deliramos e repetíamos, às gargalhadas, como um bordão para vários usos, aquela do Joaquim Cardozo, seu calculista, ao telefone, comemorando com ele: ‘Oscar, descobri a tangente [da curva da cúpula invertida do Congresso] que vai fazê-las como que apenas tocar na cobertura’. O Niemeyer que, muitos anos depois, foi se tornando íntimo, na medida que fui me habituando a viver em seus prédios públicos brasilienses... 


Mas depois, depois que o tempo veio tudo sedimentando - e ele deu muito tempo ao tempo para que pusesse as coisas nos seus lugares -, eu descobrir que, desde o início, a minha admiração por Niemeyer estava no fato de que era um homem que desenhava. Com poucos riscos negros sobre um fundo branco, singelamente, desenhava uma mulher; com dois, três traços, relembrava sua concepção da Catedral de Brasília; com outros dois ou três, a sua Mesquita da Argélia; com uns pequenos borrões entre longas linhas curvas era capaz de reproduzir toda sua obra da Pampulha. Mesmo com as mãos trêmulas, era implacável! E o que mais me seduzia era que nos seus traços havia simplicidade, havia generosidade. Não gastava palavras e palavras para se explicar ou para explicar como concebeu o Museu de Arte Contemporânea de Niterói, apenas riscava a linha do mar, as curvas das montanhas e como pousou ali a sua obra. No mais, comentava que "a vida é um sopro, um minuto" ou que "a vida não é justa".

Com seus desenhos, pura poesia, fez o impossível, mundo afora! Mais que arquitetura, fez arte. Plena de surpresa, emoção e espanto!
"Eu tinha 5, 7 anos e ficava desenhando com o dedo no ar. Minha mãe perguntava: 'menino, o que você está fazendo'? Estou desenhando. Eu gosto de desenhar figuras. Eu faço uma escultura, eu desenho no ar. Eu faço um desenho e construo ele no ar"
[Em entrevista à Globo News, em 2008]

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