16 de dez de 2012

Dulcinéia

Tem pessoas que se tornam, com o passar do tempo, verdadeiras lições de vida que nos esforçamos para imitar. Outras transcendem a isso: mais do que lições, são referências intangíveis e inalcançáveis. É o caso de Dulcinéia.

Eu a conheci em meados dos anos 1970. Ela tinha, então, dez anos menos do que eu tenho agora. E já era, ainda tão jovem, a mesmíssima e impressionante pessoa que é hoje, quando completa 80 anos.

Eu diria que a primeira marca de Dulcinéia é o seu destemor. Não há quem não reconheça sua determinação, seu vigor, seu espírito combativo. Se a vida, algum dia, quis, com suas vicissitudes, tomá-la de assalto, perdeu tempo; não há um dia que Dulcinéia não parecesse estar pronta e disposta, para o que quer que fosse.

Engraçado que, em geral, pessoas assim vigorosas carregam grandes fardos. É que ostentar fardos pesados valoriza a luta. Dulcinéia, não. A fardos, ela prefere ostentar risadas. Um humor insuportável. Uma alegria permanente. Um tanto travessa, um bocado debochada, de uma fina ironia. Uma alegria que transborda em generosidade e afeto. Daquelas alegrias que contagia, nos pega de surpresa e nos
arrebata.

Mas além de combativa e alegre, Dulcinéia é interminável. Se você disser que ela é professora está descrevendo apenas parte do que ela, de fato, é. Empreendedora, criativa, já fez de tudo nessa vida. E quando você imagina que já basta, ela se renova e lá vem ela, como uma nova Dulcinéia, agora, por exemplo, escritora. E se sente com o que dizer à vida, escolhe, exemplar e justamente as crianças para se realizar. E que livro belíssimo!

Mas, do fundo de minha alma, quando me refiro a Dulcinéia e a descrevo como lutadora, alegre e criativa, sinto que não disse nada. Sendo sincero, às vezes, acho que essas qualidades em Dulcinéia são escudos que ela inventou para nos ludibriar e ludibriar a vida. Sempre achei que nos olhos e no coração de Dulcinéia há algo de insondável. Algo que não é dado a nós, mortais, penetrar. Algo que, talvez, ela partilhe apenas na intimidade de sua família. Algo que, talvez, ela só compartilhe com Deus. Ou com ninguém. Há em Dulcinéia, em sua história, em sua raiz, um abismo profundo e silencioso de onde ela retira essa sua força, esse seu humor e essa sua capacidade de renovação. Mas, sobretudo, de onde ela retira uma coisa que, com pouco mais de quarenta anos, ela já tinha e, aos oitenta, preserva indelével: uma autoridade absurda diante da vida; uma autoridade assim de quem, como quase ninguém, tem a vida nas mãos.

Eu quero me juntar aos filhos, aos netos e aos amigos de Dulcinéia, hoje, nesse brinde por seus oitenta anos. Tenho certeza que oitenta anos, para Dulcinéia, é apenas mais uma traquinagem que ela engendrou consigo mesma e impôs à vida e a Deus. Ela ainda vai nos aprontar muitas...

Querida Dulcineia Antoniazzi Nepomuceno de Almeida, saravá!

Um comentário:

Anônimo disse...

Bravo!