23 de dez de 2012

Como pétalas


Um pequeno trecho do livro Bombaim, lido por seu autor, o indiano Suketu Mehta, na FLIP, em julho, foi, provavelmente, uma das coisas que mais me marcou nesse ano. Suas palavras, a expressão de solidariedade que elas contém, ecoaram, muitas vezes, na minha cabeça, de lá pra cá. Eu gostaria de compartilhar esse trecho com os amigos, mais uma vez, para desejar que tenhamos, todos nós, mãos como as dos passageiros dos apertados trens indianos. Mãos que se desdobram como pétalas. Que as nossas sejam, sempre, pétalas para quem quer que seja; e, se Deus permitir, quando formos nós os que precisam ‘embarcar’, que encontremos pétalas estendidas para nós. Com as palavras de Mehta, desejo a todos um Feliz Natal e um Feliz 2013!
[...] Pergunto-lhe se ele é pessimista com relação à espécie humana. 
"De jeito nenhum", responde ele. "Olhe para as mãos dos trens". 
Se você está atrasado para chegar ao trabalho de manhã em Bombaim, e chega à estação exatamente quando o trem está saindo da plataforma, é só correr para os vagões apinhados e muitas mãos estarão estendidas para ajudá-lo a embarcar, desdobrando do trem como pétalas. Enquanto corre ao lado do trem, você será levantado e um minúsculo espaço se abrirá para que você ponha os pés na beira da porta aberta. O resto é por sua conta. Você provavelmente terá de se agarrar na porta com as pontas dos dedos, tomando o cuidado de não se inclinar muito para fora e ser decapitado por um poste à beira dos trilhos. Mas pense no que aconteceu. Os outros passageiros, já mais amontoados do que o gado tem permissão de ficar, já com as camisas encharcadas de suor no compartimento mal ventilado, em pé naquela posição há horas, continuam a sentir empatia por você, sabendo que seu chefe pode gritar com você se você perder o trem, e abrem espaço onde não há espaço para levar outra pessoa com eles. e, no momento do contato, eles não sabem se a mão estendida pertence a um hindu, a um muçulmano, a um cristão, a um brâmane, ou a um intocável, nem se você nasceu na cidade ou chegou de manhã, ou se mora em Malabar Hill, Nova York ou Jogeshwari; se você é de Bombaim, de Mumbai ou de Nova York. Tudo que eles sabem é que você está tentando chegar à cidade de ouro, e isso basta. Suba a bordo, dizem eles. Nós nos ajeitaremos.

2 comentários:

Anônimo disse...

Flávio e pracianos

Feliz tudo para vocês e para todos que lhes amam...

Um abraço
Paulinho do Boi

Anônimo disse...

Lindo.