18 de nov de 2012

O obscuro Bilden


Rudiger Bilden [1893-1980] era um alemão erudito e sem nenhum traço do 'racismo e eugenia dominantes na época' que, no início do século XX, escolheu a escravidão e a história do Brasil como focos de seu trabalho. Foi contemporâneo de Gilberto Freyre. Saiu, agora, da obscuridade por obra e graça de Maria Lúcia Garcia Palhares-Burke, uma estudiosa do autor de Casa Grande & Senzala. O livro dela sobre ele, O Triunfo do Fracasso [Editora UNESP, 424 págs., R$55], mereceu resenhas na Folha [AQUI] e no Estadão [AQUI], neste sábado. Sem nenhuma discrição, o grande alvo de ambas as resenhas é o amigo pernambucano. É indisfarçável o apontamento de Freyre como tendo se beneficiado, silenciosamente, das ideias do amigo alemão. Na Folha, essa acusação vai do título à última frase. No título: Livro resgata pensador escondido por Freyre; o escondido diz tudo. Na última frase, o veredicto: "[...] Freyre surge um pouco acinzentado no retrato". No Sabático, do Estadão, há, pelo menos, duas duras passagens; uma breve e uma que consome todo um parágrafo. A breve: "[...] e quando, em 1933, seu amigo Freyre lhe enviou o seu Casa-Grande & Senzala, reconheceu ali, constrangido, muito de sua interpretação da história brasileira"; e o parágrafo:

A surpresa de Bilden, em 1933, ao verificar quanto Freyre expunha no seu Casa-Grande & Senzala ideias havia tempo defendidas por ele - e com as quais o brasileiro tinha discordado no passado -, vem apenas demonstrar que, na história intelectual, os conceitos não precisam ser impressos para serem difundidos. As ideias de Bilden eram bem conhecidas por inúmeros intelectuais que privaram do seu círculo de sociabilidade naqueles anos. O próprio Freyre foi aquele que mais poderia ter feito para evitar que Bilden caísse na quase total obscuridade - mas, à medida que os anos passavam, suas referências ao amigo alemão foram escasseando até desaparecerem totalmente. Maria Lúcia comprova o esforço progressivo de Freyre para minimizar a importância de Bilden, especialmente no estágio no qual isto fica mais evidente - quando Freyre já usufrui a almejada fama e Bilden, a completa obscuridade. Infelizmente, nessa relação conflituosa e destituída de quaisquer traços de generosidade, Freyre não está sozinho, pois partilha atitudes que são, até hoje, intrínsecas não apenas à vida intelectual, já que ninguém quer se associar aos perdedores. A autora recorre ao cáustico Arthur Miller, que dizia que ninguém quer se associar a perdedores, pois quem fracassa representa o "esquecimento, ao passo que as pessoas que são bem-sucedidas são amadas, porque exalam alguma fórmula mágica para evitar a destruição e a morte".

É ler pra crer...

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