13 de nov de 2012

Nosso lar: a última trincheira da escravidão e do machismo

Eu falo desse tema com razoável liberdade. Por várias razões. A primeira é que sou pra lá de familiarizado com todas as tarefas domésticas. E não as faço por obrigação. Faço-as por prazer, por compulsão e por convicção. Me viro bem, ou tanto quanto possível, na cozinha; lavo louça até em casa de amigos; arrumo casa, habitualmente; e, não gosto, mas passo roupa como ninguém. Gosto de estar numa casa bem arrumada e, por formação, acho que tarefas domésticas, braçais cabem, por dever, a todos nós. Eu deixei de morar com meus pais aos 16 anos - ou, mais precisamente, aos 17 incompletos - e aprender a me virar não foi opção, mas condição. A segunda razão é que, faz anos, não temos empregada doméstica em casa. Temos uma diarista que vai periodicamente e que tem uma noção invejável dos seus direitos. E a última é que, como arquiteto, nunca me dei bem com as tais dependências de empregada: uma sub-senzala, numa casa que já não é nada grande. Pra mim, especialmente nos pequenos apartamentos de classe média, é o símbolo mais tardio e doentio de nossos resquícios escravocratas...

Digo isso a propósito de uma oportuna matéria, no Estado de Minas, de domingo: 'As esquecidas pela abolição' [em parte, AQUI]. Não dá pra não ter um olhar crítico sobre esse tema. É uma semi-escravidão [o direito a carteira assinada só ocorreu em 1972, 30 anos após a CLT]; tem cerca de 70% de informalidade [73,9%, em 2001 e 69,3%, em 2011]; e é uma profissão basicamente feminina ["quase 20% das brasileiras ganham a vida cuidando da casa dos outros"]. A mais, há um temor patronal enorme de se ter que arcar com FGTS, hora extra e outros ganhos trabalhistas constantes da PEC aprovada em comissão especial da Câmara dos Deputados.

No mais, tendo ou não empregada, na maioria das casas, tarefas domésticas continuam sendo uma tarefa quase exclusivamente feminina. Os homens, no máximo, 'ajudam'. Ou transformam em hobby a parte boa da coisa como cozinhar, quando todo mundo está virando chef. Mas a história, gostemos ou não, continua muito apoiada na ideia de que a mulher, mesmo quando trabalha [e quase todas trabalham...], deve fazer jornada dupla ou tripla, cuidando da casa e dos filhos. Machismo tardio e doentio...

Um comentário:

Róridan disse...

Amigo, eu concordo. Leia mais a esse respeito nesse excelente post do Sakamoto:
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2012/10/27/ao-inves-de-abolir-o-brasil-esta-exportando-quarto-de-empregada/
Abraços,
Róridan