24 de out de 2012

Caro Walcyr, não seja carrasco!

Um breve manifesto em favor dos bons arquitetos

A última edição do jornal SETE DIAS, de Sete Lagoas, trouxe, 'a pedido', um artigo publicado, originalmente, na revista Época, edição 751, de 08/10/2012, cujo título, por si só, já se constitui numa grave ofensa: 'Arquitetos, Designers & Propina'. Acho que nós, arquitetos, devemos repudiá-lo, com veemência. O seu autor, Walcyr Carrasco, comete um erro irreparável, especialmente para um jornalista: o da generalização, o de tomar uma exceção pela regra.

O artigo relata um fato real: há arquitetos e decoradores que desconsideram valores culturais de seu cliente, valores expressos em seu estilo de vida, nos velhos objetos que veio reunindo ao logo do tempo, por exemplo, e querem lhe impor soluções que julgam, pretensamente, modernas, e desenvolvem relações, digamos, pouco convencionais com seus fornecedores, através do que Carrasco chamou de RT ou reserva técnica.

Não é demais dizer que há bons e maus arquitetos, como há bons e maus jornalistas. Ao generalizar, entretanto, reunindo todos como farinha do mesmo saco, Carrasco acaba por qualificar como incultos ou 'propineiros' ou anti-éticos tanto expoentes da arquitetura como um Oscar Niemeyer ou um Paulo Mendes da Rocha ou um Sérgio Rodrigues quanto, por extensão, todos os arquitetos, famosos e anônimos, que, laboriosamente, são fundamentais para a construção das cidades e da cultura brasileiras.

É justo que o jornalista Walcyr Carasco denuncie a experiência em que se sentiu ludibriado por um arquiteto ou um designer. Mas devia fazê-lo na justa medida. Ao transgredi-la, acabou por denunciar sua própria limitação de análise da realidade. O que ele debita, com simplismo, na conta dos arquitetos deve ser ampliado para todos os profissionais e toda a parcela da sociedade de alto consumo e baixa cultura que se apegam a seu futuro de um nouveaux-richismo eufórico e desdenham sua própria história, incapazes de reconhecer a sua beleza. É de se parafrasear James Carville e dizer ao indignado jornalista: 'é o mercado, estúpido!'. Um mercado, semelhante a qualquer outro, de que participam aqueles que comungam dos mesmos valores ou da mesma falta deles.

"Está na hora de moralizar a relação cliente, designer e arquiteto". Concordo! Acho até que já passou da hora. Mas uma boa forma de se fazer isso - tanto quanto proibindo e penalizado a tal RT - está nas mãos dos próprios clientes: mais do que se preocupar em chamar "uma profissional famosa", como fez Carrasco, cuidar-se de chamar um(a) profissional competente. E ponto!

6 comentários:

Vanessa Karam disse...

SOBRE O TEXTO DO WALCYR CARRASCO

Caríssimo Flávio de Castro, leitores e cidadãos de bem: em tempos de mídia livre, sem controle de autorias, às vezes me pego pensando se é verdade que alguém considerado culto seja capaz de escrever asneiras...
Se procede realmente do jornalista Walcyr Carrasco o texto apresentado na Revista Época e no Jornal Sete Dias, intitulado “Arquitetos, Designers & Propina”, penso na infelicidade de sua colocação genérica e depreciativa.
Percebo que o autor em questão foi vítima de maus profissionais (e, pelo exposto, desonestos) e infelizmente não experimentou o (bom) gosto e a satisfação de ser bem assessorado por um Arquiteto ou Designer competente e digno de confiança.
O profissional idôneo não se corrompe por propinas ou “RT”s e faz exatamente o contrário do que o Sr. Walcyr diz ter vivenciado. Um bom Arquiteto (ou Designer) respeita o bolso e o desejo de seu cliente: batalha junto, procura viabilizar sonhos, adequa necessidades e realidades. E isto com lealdade e bom caráter.
Lamentavelmente, a desonestidade está em todas as áreas. Há que se pesquisar com calma e critério antes de se contratar qualquer tipo de serviço ou compra. Se o autor do texto não teve sorte em suas escolhas, deveria ater-se à lamentação de seu próprio infortúnio e talvez ao alerta (este sim, válido) de que até mesmo na Arquitetura existem profissionais (e por que não dizer, almas) corruptos e incompetentes.
Generalizar é mais que leviano: é prova de ignorância, na acepção da palavra.

Por: Vanessa Karam - Arquiteta

Blog do Flávio de Castro disse...

Querida Vanessa,

Embora o que o Walcyr relata seja real, embora eu concorde que esse fato está a merecer uma moralização, há anos, impressionou-me muito a leviandade de sua generalização e a superficialidade de sua análise, que ignora as características da sociedade de consumo que tem gerado essas práticas e deformações, em todos os campos profissionais. Impressionou-me tanto que, como você, achei que pudesse ser mais um desses textos que circulam pela internet com falsa autoria. Se bem que, certamente, o SETE DIAS não se prestaria a isso. E, de fato, o texto é autêntico e você pode lê-lo também no blog do próprio Walcyr Carrasco, na revista Época: http://revistaepoca.globo.com/vida/walcyr-carrasco/noticia/2012/10/arquiteto-designer-propina.html.
Ou seja, ele escreveu mesmo essa 'asneira'.
No mais, concordo e reitero tudo o que você disse.

Abs, Flávio

Ramon Lamar disse...

No texto consta as frases seguintes:
"Nem todos os profissionais agem assim. Mas a prática tornou-se comum."
E assim em todas as profissões. Não tenho eu visto Biólogos produzindo EIAs/RIMAs cheios de defeitos? São todos? Claro que não!
Não tenho visto médicos cometendo erros grosseiros e atendentes de enfermagem injetando comida na veia dos pacientes? São todos, claro que não!
Não tenho visto ministros do STF não reconhecendo que deveriam se isentar do julgamento de ex-chefes e/ou amigos? São todos? Sei lá...
O que eu sei é que a indignação é um direito do cidadão. Pode não ter sido feita com toda a correção, mas nos momentos de indignação a "naftalina" aumenta. (Naftalina como disse um jogador de futebol, querendo referir-se à Adrenalina.)
No fundo, tira-se uma lição: o apartamento mais caro, o carro mais caro, a televisão mais cara e com recursos que você nem sabe que existem ou para que servem... podem custar muito mais do que deveriam e podem não satisfazer o comprador. É bom pensar nisso.
Como bem disse o Flávio, o certo é contratar o melhor, não o mais famoso. Ah... como tenho visto isso.
Abraços e solidariedade para com os arquitetos que não são desse grupo e que, justamente, se sentiram ofendidos.

Junia Villani disse...

Prezados, li o texto do Walcyr e nenhum outro sobrenome lhe cairia melhor do que “Carrasco”.rsrsrs...
Como autor de novelas e com a visão distorcida da realidade que demonstrou ter, o mundo dele parece se concentrar apenas entre as quatro paredes dos ambientes cenográficos.
Ele foi de uma infelicidade tremenda ao generalizar, julgando a atitude de alguns “ espécimes” como prática comum de toda a “espécie” (olha aí, Prof. Ramon!! rsrs...).
Eu me sinto extremamente ofendida quando encontro esse tipo de pessoa que tem uma visão simplista (e pejorativa) do trabalho do arquiteto. Não deve ser por ignorância, porque se trata de uma pessoa esclarecida. Mas não vejo outro motivo que não seja a ignorância quando ele se refere ao trabalho do arquiteto como a criação de ambientes como se fossem “ estandes de decoração para ser vistas , não vividas” .... Será que ele não sabe que o trabalho de um arquiteto vai muito além da arquitetura de interiores, na qual, segundo ele, se escolhe o melhor lugar para a poltroninha que foi de vovó, o vasinho de flores que titia me deu, o porta retrato com foto de mamãe e papai.... ..ahhh, francamente!!! rsrsrsrsrsr... A gente tem mais é de rir do grande “mico” que esse senhor pagou quando quis se desabafar, de maneira leviana e infeliz.
Como o Prof. Ramon e a Vanessa comentaram, se fossemos generalizar, seria difícil confiarmos em qualquer tipo de profissional, porque em todas as áreas há picaretas e mal intencionados.
Se ele foi infeliz na escolha da “arquiteta famosa”, que ele tivesse o bom senso de se referir apenas ao trabalho dela em seu desabafo, e não incluir nele profissionais sérios e competentes. Aqueles que lutam em seu trabalho diário para melhor atender a seus clientes e que, acima disso, trabalham em favor da melhoria da qualidade de vida das pessoas não só no “micro”, mas principalmente no “macro” espaço (urbano) em que vivem.
Abraços a todos, Junia Villani

José E. Ferolla disse...

Caro Flávio,
meu tempo anda cada vez mais curto pra me ocupar deste tipo de coisa, mas já que você como que me "convocou", lá vai:
Desgeneralizemos, por favor!
Ou, senão, deverei, a partir do exposto, passar também a considerar todo jornalista um imbecil.

Ramon Lamar disse...

Júnia, concordo plenamente com você. Mesmo com a ressalva que apontei, o "Carrasco" deveria ter citado nomes. É o problema do anonimato de direção. Mas aí é se expor a um processo.
Abraços.