12 de ago de 2012

'Os meios e os fins'

Já me filiei ao PT duas vezes e já me desfiliei outras duas; portanto, hoje, não sou filiado; continuo sendo apenas simpático ao partido e nada mais. Gosto mais do PT do que de outros partidos por uma única razão: acho que, a despeito de tudo mais, o PT tem uma visão mais brasileira do Brasil, menos elitista, mais popular. De resto, tem todas as mazelas que todos os partidos tem e não sou cego a isso. Quando escrevi Remando contra a maré, eu falei da existência de uma 'ira contra o lulopetismo'. Alguns frequentadores desse blog não concordaram. Até aí, acho natural. Mas tanto aqui como em outras situações, quando digo isso, vejo que há uma interpretação incorreta: a de que minha percepção de que há, em alguns setores da sociedade, um preconceito de classe contra o PT significa que eu desculpo o PT por todas as suas mazelas. Já essa interpretação não vejo como natural porque nunca disse isso. Quando, naquela postagem, usei um artigo do Jânio de Freitas comparando procedimentos contraditórios do STF com relação ao mensalão petista e o tucano mineiro, não disse que um anulava o outro, como alguns leitores incorretamente leram, mas que ambos tinham e tem a mesma gravidade e merecem o mesmo tratamento punitivo. O fato desses mensalões merecerem da imprensa e da Justiça tratamento diferenciado apenas reforça, a meu ver, que há, de fato, em alguns setores, um antipetismo exacerbado. Esse é o tema de um artigo do sociólogo e presidente do Instituto Vox Populi, Marcos Coimbra, que está reproduzido no Luis Nassif Online e no Blog do Noblat. Como eu ando gostando de por lenha na fervura e remar contra a maré, vai aí a sua mais completa transcrição:

Os Meios e os Fins, por Marcos Coimbra

Há os que desgostam do PT, dos petistas e de tudo que fazem com tal intensidade que qualquer explicação é desnecessária. Apenas têm aversão profunda pelo que o partido representa.

Alguns a desenvolveram por preferir outros partidos e outras ideias. Mas são a minoria. Os mais sinceros anti-petistas são os que somente sentem ojeriza pelo PT. Veem um petista e ficam arrepiados.

Sequer sabem a razão de tanta implicância.

Detestavam o PT quando era oposição - dizendo que era intransigente - e o detestam agora que está no governo pela razão oposta - acham que é tolerante demais. Odiavam os petistas quando vestiam camiseta e discursavam na porta das fábricas. Hoje, os abominam porque usam terno e gravata e fazem pronunciamentos no Congresso.

Um dos argumentos que invocam para justificar a birra é capcioso: o mito da “infância dourada” do PT, quando ele teria sido virginal e puro. O invocam com o intuito exclusivo de ressaltar que teria perdido algo que, em seu tempo, não admitiam que tivesse.

O PT abstrato e irreal que criaram é uma figura retórica para denunciar o PT que existe de fato - que não é nem menos, nem mais real que os outros partidos que temos no Brasil e no mundo.

Além desse anti-petismo figadal e baseado em pouco mais que um atávico conservadorismo, há outro. Que pretende ser mais sóbrio.

Nestes tempos de julgamento do “mensalão”, é fácil encontrá-lo.

Seus expoentes são mais racionais e menos folclóricos. Usam uma lógica que parece sólida.
O que mais os caracteriza é dizer que não discutem os fins e sim os meios do PT. Que não são anti-petistas por definição, mas que repudiam aquilo que os líderes petistas fizeram para chegar ao Planalto - e passaram a fazer depois que o partido lá se instalou.

Ou seja, sua oposição não questionaria o projeto petista, mas sua tática. Não haveria problema no fato de o PT querer estar - e estar - no poder. Mas em o partido ter usado meios inaceitáveis para lá chegar e permanecer. 

Parece uma conversa bonita. E nada mais é que isso.

No fundo, esse anti-petismo é igual ao outro. Sua aparente sofisticação apenas dá nova roupagem aos mesmos sentimentos.

O que o anti-petismo não perdoa em José Dirceu - e outras lideranças que estão sendo julgadas - não é ter usado “meios moralmente errados” para alcançar “fins politicamente aceitáveis”. Salvo os mal informados, seus expoentes sabem que o que o ex-ministro fez é o mesmo que, na essência, fariam seus adversários se estivessem em seu lugar - sem tirar, nem por.

Quem duvidar, que pesquise quem foi e como atuava Sérgio Motta, o popular “Serjão”, “trator” nas campanhas e governos tucanos. (Com ele, não havia meias palavras: estava em campo para garantir - seja a que preço fosse -, 20 anos de hegemonia para o PSDB - e que ninguém viesse a ele com a cantilena da “alternância de poder”. Não foi por falta de seu empenho que o projeto gorou.)

O pecado de José Dirceu é ter tido sucesso no alcance dos fins a que se propôs - um sucesso, aliás, notável.

Sem sua participação, é pouco provável que tivéssemos o “lulopetismo” - um dos mais importantes fenômenos políticos de nossa história, gostem ou não seus adversários. Sem ele, o Brasil não seria o que é.

Isso é muito mais do que se pode dizer de quase todos os contemporâneos.

Mas é essa a realidade. Enquanto José Dirceu vive sua ansiedade, Sérgio Motta é nome de ponte em Mato Grosso, anfiteatro em Fortaleza, centro cultural em São Paulo, praça no Rio de Janeiro, edifício em Brasília, avenida em Teresina, usina hidroelétrica no interior de São Paulo e rua na longínqua Garrafão do Norte, nos rincões do Pará. 

E de um instituto em sua memória, patrocinado pelo governo federal, que distribui importante prêmio de arte e tecnologia.

Gente fina é outra coisa.

4 comentários:

Zeca Dias Amaral disse...

Olá,

não visto a carapuça que Dom Coimbra, o nobre, arremessa. Não mesmo.

O que Dom Coimbra faz é tão somente contrapor os erros de uns aos
dos outros. Só. As mazelas petistas estão justificadas pelas mazelas tucanas. Grande argumento.

E, como bom assimilador da cultura popular dos tempos de PT invoco um rei, popular, Roberto Carlos, que cantou: um erro não conserta o outro isto é o que eu penso.

Abs.

PS. No fundo fica aquela sensação de que Dom Marcos Coimbra age como se quisesse se desculpar com seus pares petistas pelo que fez pelo sucesso do Collor, adiando o sucesso do PT. Parece, sei lá...

Ramon Lamar disse...

Flávio, você tem preferência por essas leituras (e pontos de vista) e cita quase sempre essas mesmas fontes. Então é claro que o discurso seu e o delas é semelhante. O que não quer dizer que um valida o outro. Como dizemos na química "semelhante dissolve semelhante".
Sabemos dos muitos culpados dos mensalões (e aqui em Minas do silêncio midiático). Do mensalão sabemos da vantagem do tempo decorrido (que permite reduzir tudo a Caixa 2 sem ter medo de ser punido), sabemos da situação de alguns ministros (que deveriam se declarar impedidos). E o "grande advogado" está andando por lá...
No final, o de sempre... pizza!

Blog do Flávio de Castro disse...

Ramon, eu leio de tudo um pouco, mas, como todo mundo, tenho as minhas preferências. Eu só ando aproveitando esse tempo de julgamento de mensalão para colocar mais gente no tronco...

Ramon Lamar disse...

Então tá certo... risos...