12 de ago de 2012

Feliz Dia dos Pais

Homenageio, aqui, todos os pais que frequentam este blog, republicando um texto em homenagem ao meu pai, ainda tão profundamente presente em minha vida. Feliz Dia dos Pais a todos nós, com nossos filhos...
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João Luiz, meu velho,

Eu lhe confesso que, ainda hoje, tenho algumas recaídas. Não me é raro ler uma notícia no jornal e, inadvertida e instintivamente, movimentar-me para pegar o telefone para fazer com você um comentário e dar uma risada. Aí vem aquela história: ‘eu levantei mesmo pra que?’. E volto a engatar a primeira, virar a página e seguir. Até exatos sete [agora, já quase dez...] anos atrás, você sabe, era um hábito simples. Aquelas coisas: escovar os dentes, tomar café, ler jornais e ligar pra você ou receber uma ligação sua... Mais ou menos assim. Tão simples como essencial. Era uma forma bastante funcional de conferirmos se a terra continuava em sua órbita regular, se os dias continuavam se sucedendo como previsto no calendário, se o fuso-horário continuava sincronizado, se o norte continuava na ponta da agulha; OK!, se eu podia por os pés fora de casa sem o risco de estar em Marte. Era uma forma bastante prática de certificarmos que nós dois, pelo menos, continuávamos normais, ainda que o resto do mundo, como de hábito, seguisse um tanto instável...

Preciso lhe dizer que a maioria das dúvidas que me ocorreram nesses sete [quase dez...] anos está coberta de poeira. A maioria das idéias que me vieram segue inacabada. Assim como se essas dúvidas e idéias tivessem me ocorrido não pelo conteúdo delas, em si, não pelo sentido delas, propriamente, mas apenas como pretexto para um telefonema, um comentário e um riso. [Riso solto, riso sarcástico, bons risos aqueles!]. Ou seja, dúvidas e idéias inúteis, não é mesmo? Como aqueles sons guturais que um cantor força para aquecer suas cordas vocais ou aqueles exercícios de memória que um velho pratica regularmente para manter sua atividade cerebral o mais acessível possível. Sons e exercícios sem nexo, inúteis, de forma geral, mas, para quem precisa deles, indispensáveis. Em outras palavras, dúvidas e idéias servíveis apenas para manter nossa amizade em dia, para manter um e outro em forma para o futuro. E, cá entre nós, mais do que eu, você tinha certeza do futuro. A bem da verdade, você deve reconhecer, um futuro um tanto utópico, engendrado de uma maneira muito singular, não sei se atrativo para a maioria, mas que, para você e para mim fazia o maior sentido...

Ainda que seja vulgar, às vezes, eu penso em gente próxima como lugares que nos tornaram familiares. Quando eu era menino, por exemplo, você se lembra, mãe gostava de uma loja no centro de BH chamada Slöpper. Nem a Savassi nem os shoppings haviam sido inventados. Quando eu fui pra BH, eu ia ao Metrópole, ao Guarani, mas gostava mesmo do Cine de Arte Pathê. A Slöpper e o Pathê podem ter feito o maior sucesso, mas fecharam. A morte de alguém próximo é mais ou menos como o fechamento de um desses lugares importantes. É certo que sempre se consegue uma solução alternativa; no princípio é estranho, mas todo mundo acaba achando natural ter fechado, inclusive eu; minha mãe não passa o dia lembrando-se da Slöpper, nem eu do Pathê; só algumas pessoas entendem quando eu, animado, falo a respeito como se fosse hoje; mas mãe, com ela mesma, e eu, cá com meus botões, sabemos bem que alguns artigos ou alguns filmes nós só podíamos encontrar na Slöpper ou assistir no Pathê. Paciência... É que nessa história de portas que se fecham, pessoas que se vão não fica só a saudade e a lembrança. Fica um endereço que ainda recebe cartas que se acumulam. Fica uma lacuna preenchida por coisas que não se encontra mais em lugar nenhum. Uma lacuna onde, vira e mexe, um dia sim, outro também, eu guardo mais alguma coisa. Uma notícia por lhe comentar, um livro por lhe recomendar, uma ironia por fazer com você... Fazer o quê?!

Dê noticias!

Sete Lagoas, véspera de 18 de dezembro de 2009.

Um comentário:

Anônimo disse...

Lindo!