4 de ago de 2012

Arquitetura anti-mendigo

Juro: logo que vi, eu achei que fosse brincadeira. Que fosse uma montagem fotográfica. Coisa de época da política para ironizarem o posicionamento do prefeito Márcio Lacerda com relação à ocupação do espaço público. Ele, de fato, tem uma visão burocrática e não democrática de cidade. Basta lembrar o que ocorreu na Praça da Estação que mereceu uma reação bem humoradíssima da população ['a praia']. Mas isso foi tomando tal dimensão na internet que entendi que não era brincadeira. É verdade: está lá na Cristiano Machado...


A foto acima está na internet, em várias páginas. A explicação é de que o prefeito gastou R$6 mil com essas pedras pontiagudas para essa solução alucinada. A desculpa é de que ela serviria para afastar moradores de rua do local para protegê-los contra enchentes. A leitura social é outra: serve apenas para afastar mendigos e ponto. Convenhamos: a solução é agressiva demais para merecer outra interpretação!

[Imagem no site oficial em que se dá a versão oficial para as pedras...]

Como disse Chico Buarque, "há distância entre intenção e gesto". Por melhor que fosse a intenção, há desprezo pela cidade como gesto. A ninguém que tem a convicção de que a cidade deve ser acolhedora, inclusiva, plural, democrática, e que o espaço público deve comunicar esses valores, ocorreria uma ideia tão estúpida. O gesto externaliza algo mais, diz de uma visão higienista da cidade...

Eu, sinceramente, achei que essa visão higienista estava superada, pelo menos, há duas ou três décadas. Não se ouve mais ninguém sensato dizer que pobres são pobres porque são preguiçosos e não trabalham; há clara compreensão de que a pobreza e a desigualdade são efeitos próprios do capitalismo. Da mesma forma, não se ouve mais ninguém sensato condenar as favelas e todas as outras expressões da 'cidade ilegal' como excrecências urbanas; há clara compreensão de que a ocupação urbana reproduz as contradições sociais e econômicas e seus padrões de exclusão.

A mendicância, o uso ostensivo de crack, a pobreza devem ser objeto de políticas sociais, no campo da assistência social, da saúde e da educação.

Não será acabando com viadutos e áreas embaixo de viadutos que se acabará com a pobreza. Essa visão higienista de cidade, no estilo 'você lava, eu enxugo' é um tanto fascista. Ao vivo e a cores, essa solução é de arrepiar. Ela é agressiva aos olhos, ao cidadão, à noção mais ampla de 'cidade'. Ela é uma negação da cidade. Com ou sem uma boa explicação...

6 comentários:

Anônimo disse...

Flávio

A mendicância, o uso ostensivo de crack, a pobreza devem ser objeto de políticas sociais, no campo da assistência social, da saúde, da educação...E da cultura. (Se você me permite)

Peço licença para usar o seu texto e ministrar uma aula para os meus alunos de teatro... E para os jovens aprendizes do Serpaf.

Obrigado pela reflexão...

Um abraço
Paulinho do Boi

Anônimo disse...

Quem dera, Flávio, que a questão higienista e a culpabilização/criminização da pobreza já estivesse superada. Ainda convivemos com gestores e profissionais que operam políticas sociais reproduzindo esses velhos e desumanos estigmas aos empobrecidos pelo sistema...

Saudades!
Priscilla Maia

Blog do Flávio de Castro disse...

Paulinho, use e abuse!

Blog do Flávio de Castro disse...

Priscilla, boa surpresa vê-la por aqui! Você tem razão: as coisas talvez tenham se tornado apenas um pouco mais 'elegantes', mas não menos estigmatizadoras. Se bem que no caso dessa maluquice do Lacerda não se vê elegância alguma, apenas estigmas e estigmas. No fundo, eu tenho medo disso, da naturalidade com que se adota uma solução dessas... Abração, Flávio

Anônimo disse...

É para afastar mendigos, sim. Não havendo politica publica para moradores de rua, a saída imediata é instalar pedras. São feias mas resolvem. E voce, caro arquiteto, tira a bunda da cadeira e apresente alguma solução concreta!

Blog do Flávio de Castro disse...

Seu comentário é uma preciosidade. A falta de política pública justifica qualquer estupidez? Governos existem exatamente para implantar políticas públicas, não para compensar a falta delas. Segundo sua lógica, as pedras são um símbolo da falta de políticas para moradores de rua. Triste símbolo!