19 de jul de 2012

Tristes mortes

Há mortes que de tão tolas, tão estúpidas, parecem mais tristes. Hoje, um operário da Prefeitura de Belo Horizonte morreu bem ao lado daqui de casa. Está-se recapeando todo o entorno da Praça Cairo; a um quarteirão dela, na Mar de Espanha com São João Evangelista, o senhor Benedito, de 58 anos, segundo os jornais, foi esmagado pela enorme máquina de recapeamento. Dizem que seu colega, o operador da máquina, fugiu. E para tornar tudo mais deprimente, relatam os mesmos jornais que o filho de seu Benedito também integrava a equipe da Prefeitura e, abalado, deparou-se com o corpo morto do pai. Não é incomodamente triste?!

Fatos assim fazem-me lembrar a mais tola, a mais estúpida e, portanto, a mais triste das mortes. Foi em 1979. Eu trabalhava em um escritório de geologia, na esquina das avenidas do Contorno e Raja Gabaglia. Ainda não havia uma trincheira ali. Um caminhão baú subiu a Contorno, indo em direção à Amazonas, e no trecho plano, bem embaixo da minha janela, deixou cair uma gigantesca bobina de cabo de aço. Lentamente, ela pôs-se a girar, em direção à ladeira. Um senhor quase conseguiu apoiá-la e interromper seu curso. Mas o sinal abriu e ele teve que se refugiar no passeio. Meu Deus!, bastava esse toque de mão para segurá-la. Mas não foi possível. A bobina ganhou velocidade e desceu a Contorno, tresloucadamente, na contra-mão dos carros. Na esquina oposta à minha, miseravelmente, estava em construção uma sede bancária da Caixa. Com os passeios tomados, em parte, por tapumes e materiais, muitos pedestres iam, usualmente, pela rua. Exatamente por onde passou a bobina desembestada. Uma senhora que descia Contorno abaixo sequer viu o perigo atrás de si. A bobina esmagou-lhe, antes de amassar carros e carros e se deparar com a frente de um caminhão, já na altura da Prudente de Morais. Era uma senhora simples. Quando fui até lá, já estava coberta por jornais. Vi que usava congas que lhe descalçaram o pé. E que levava nas mãos uma pequena e singela sacola de pano. Não vi seu rosto, não soube seu nome, não tive notícias de sua idade, nem como a notícia de sua morte chegou à sua família. Procurei alguma pista nos jornais, na manhã seguinte, e nada. Por dias e dias, eu me perguntava como teriam contado a essa família a fatalidade da morte de uma senhora, uma avó talvez, atropelada por uma bobina? Por dias e dias, eu fiquei numa tristeza danada. Não me parecia justa uma morte assim tão desamparada...

5 comentários:

ALopes disse...

Impressionante a sua sensibilidade pra escrever e descrever uma situação tão triste como essa. A dor da perda, acredito eu, ser a pior delas, a repentina, pior ainda. Tão difícil perder quem a gente ama.

A. Claret disse...

Flavio,

qualquer morte e' lamentavel. A morte de um operario num ato de serviço, a meu ver, se reveste de um dramatismo extra. Se perde o ser humano mas se perde tambem, em muitos casos, o esteio afetivo e pecuniario de uma familia. Apenas sentimos uma dor momentanea e logo viramos a pagina do jornal. Na proxima pagina nao estara' o choro e a incerteza da viuva ou dos filhos. Amanha ninguem pensara' neles. Isso se chama futuro e o futuro dos outros ainda nao aprendemos a nos interessar por ele. Quanta tristeza numa morte, quanta indiferença aos que sempre perdem.

Blog do Flávio de Castro disse...

ALopes, sei lá porque, mas sou cismado com essas mortes inadvertidas, sumárias, quase erradas...

Blog do Flávio de Castro disse...

Claret, não havia pensado nisso, mas ao ouvi-lo dizer, imediatamente, concordo com você. A morte no trabalho agrava mesmo a dor. Imagine: o seu Benedito tinha 58 anos; há quantos anos ele não se despedia de casa, pela manhã, para fazer o de sempre, o ir ao trabalho? E hoje ele foi e não voltará. E a família, além de lidar com a perda, tem que se rearranjar. Duro isso!

Zeca Dias Amaral disse...

olá,
mas olha só se não temos um Nelson Rodrigues aí? A essência é isso: a vida como ela é. E "amanhã ninguém pensará neles", estes ilustres falecidos, porque ninguém pensa nunca em ninguém, de fato, cara pálida.

Olhando pelo lado sublime da coisa, dou um bom desconto porque esta história me fez lembrar de Meu Guri, do Chico. Talvez pela ótica da coisa. Algo assim.

Um post fofo, não fosse trágico.

Abs.