31 de jan de 2012

Por mera força da gravidade...

O CREA apresentará hoje, laudo sobre o desabamento de um prédio, a demolição de um segundo e o comprometimento estrutural de um terceiro, no Bairro Buritis. Ao que entendi, ele resulta da análise, pelo IBAPE-MG, de dois outros laudos entregues ao Conselho pelas construtoras. Por razões óbvias, as construtoras apostam em erros de drenagem da rua, não em erros estruturais. O tal laudo do CREA, não conclusivo, parece que não apontará culpados e mencionará seis possíveis razões: [1] deficiências no sistema de microdrenagem da rua; [2] movimentações de terra anteriores; [3] abatimento de parte da rua; [4] compactação inadequada de reaterro de vala; [5] corte de terreno no fundo dos edifícios; e [6] existência de nascentes de água até 200 metros no entorno. Ou seja, ao que se depreende, não acusará a ocorrência de qualquer problema na estrutura dos prédios, mas sim no terreno, que, inadvertidamente, saiu de baixo. “O que ocasionou o desabamento foi o deslocamento do maciço de terra que foi potencializado pela presença da água no solo e pela declividade acentuada”, diz o presidente do IBAPE, Frederico Correia Lima Coelho [AQUI]. Frise-se ‘presença de água no solo’ e ‘declividade acentuada’, duas características do solo, normais e anteriores à sua ocupação.

No Rio, a causa da queda do edifício de 20 andares que carregou dois outros juntos, ora é apontada pela ocorrência de obras irregulares, que não teriam removido alvenarias estruturais, portanto, não seria a causa; ora é posta na conta do excesso de peso de materiais no 9º andar e de entulho estocado no 20º; ora, ainda, na suspeição de que o edifício foi projetado para ter não 20, mas 15 andares. Mas já se lembrou que grande parte do centro do Rio [até o Aterro do Flamengo] foi um antigo ‘pântano’ aterrado. Mais hora, menos hora, se falará, também, que a estrutura entrou em colapso porque o terreno jogou a toalha.

Aonde quero chegar? Em um ponto: no questionamento – especialmente entre os defensores das mudanças no Código Florestal para maior permissividade na ocupação urbana – da afirmação de que a tecnologia, hoje, permite construir, com segurança, em qualquer terreno. Vide Tókio, Dubai e Abu Dhabi. Pelo visto, não permite: as construções que despencaram estavam em áreas nobres, não eram ocupações precárias e foram edificadas por construtoras com integral acesso a tecnologia; ainda assim, uma construção avisou que ia cair, a outra nem isso, e ambas foram ao chão. Se a culpa será posta nos terrenos, vamos lembrar que, em BH, ele estava em uma encosta íngreme; no Rio, em um aterro instável. Se na hora H, os construtores se eximem de responsabilidade e jogam a culpa nos terrenos que se deslocam, de duas uma: ou se proíbe, terminantemente, construir em terrenos ‘deslocáveis’ ou se admite a sua ocupação condicionada à utilização de tecnologia e recursos japoneses e árabes [já que a gloriosa engenharia nacional parece não ser mais a mesma].

Voltando ao princípio: Ramon e amigos, ‘presença de água no solo’ e ‘declividade acentuada’, que eu frisei acima, como causa de instabilidade de edificações, fazem-nos lembrar alguma coisa?

Um comentário:

Ramon Lamar disse...

...existência de nascentes de água até 200 metros no entorno...
Interessante...