16 de out de 2011

Mãos [2]

Passando a semana sempre fora, eu tenho andado muito relapso com as tarefas da casa. Tiza tem reclamado. Eu já fui muito atento a isso. Lá pelos vinte e poucos anos, quando me casei e os amigos se casaram, eu era o operário padrão da turma, aquele que ajudava a finalizar as instalações das casas novas: pregar quadros e acabamentos, instalar tomadas e luminárias, essas coisas, a troco de cervejas geladas. Eu tinha e tenho todas as ferramentas necessárias. O interessante disso é que você vai desenvolvendo técnicas. Para furar parede, por exemplo, sem espalhar aquele pó finíssimo, primeiro, eu aprendi e usei, por um tempo, a técnica da flanela molhada; depois, agreguei mais tecnologia e passei a usar a do aspirador de pó, simultaneamente; ou seja, enquanto você faz o furo, o aspirador recolhe o pó. Perfeito! Domingo passado, passei a manhã trocando a cordoalha do varal daqui do apartamento. Nosso varal é do tipo de varas independentes; não daquele outro que desce um quadro com todas as varas juntas. Isso significa que cada vara tem um sistema de cordas próprio. Uma série de cálculos, considerando variáveis diferenciadas como as distâncias das varas até as carretilhas e das carretilhas até o prendedor, precisa ser feita para que, ao final, as varas fiquem rigorosamente paralelas e niveladas. Refiro-me a cálculos não matemáticos, mas empíricos, visuais, intuitivos. Como há muito não fazia isso, iniciei o trabalho de forma desorganizada, sem preparar o ferramental antes, irritado e sem ritmo. Mas, progressivamente, estabeleci uma rotina, envolvi-me no desenvolvimento da técnica necessária e acabei abduzido pelo negócio. O resultado foi bem razoável. Eu tenho pra mim que essas atividades manuais são fundamentais para que você não perca a lógica da vida. Aprendi isso lendo um livro que Antônio Calado comprou num sebo em New York e recomendou: ‘O Zen e a Arte da Manutenção de Motocicletas’, de um tal Robert Pirsig [Editora Martins Fontes, 456 págs. R$69,70]. Tem um lado filosófico nisso. Eu tenho aprendido muito, por exemplo, com os meus filhos, sobre como lidar com o lixo doméstico e a sua correta separação para a coleta seletiva. Lidar com lixo era uma tarefa subalterna que se terceirizava; hoje, tornou-se obrigatória e própria da nossa vida diária. Tudo isso demanda organização e disciplina. Eu tenho muito respeito por quem, naturalmente, demonstra aptidão para trabalhos manuais assim. Isso sempre me marcou. E o período de república foi fundamental no meu processo pessoal. Eu desenvolvi habilidades que, até hoje, depois de 30 anos, ainda preservo. Cá entre nós, hoje, elas andam até na moda; entram aí nessa conta de homens que ajudam em casa; mas, no passado, não gozavam de prestígio nenhum. Por exemplo, cozinhar tornou-se uma coisa legal; não era. Mas não me anima muito o cozinhar pelo cozinhar. Eu só gosto de quem, ao pilotar o fogão, mantém a pia limpa. Tem aí um senso de autonomia. A turma que cozinha e empilha panelas para outros lavarem, a meu ver, não desenvolveu o procedimento corretamente. Já tive vergonha de dizer que gosto de lavar louças. Mas depois que Caetano Veloso disse a mesma coisa, senti-me alforriado. Sou bom nisso. Juro! Faço de forma estruturada e progressiva. Tem um lado estético. Já que comecei a ladainha, devo dizer que sou também um exímio varredor de casa. Está aí uma coisa que parece fácil, mas não é. O meu apuro científico nesse ramo me deu fama de ser portador de transtorno obsessivo compulsivo. Acho provável, mas prefiro manter a precisão da mania a tentar superá-la. E tem mais: passo uma camisa como ninguém. Aí o desafio é outro: a arte está em passar uma camisa e dobrá-la para viagem. O teste de sua perícia é no dia seguinte, no destino: ao vesti-la, a camisa não pode estar amarrotada, mas com vincos definidos. Tranquilo? Nada disso; consumi quatro anos de vai-e-vem a Brasília para chegar à perfeição; cheguei perto! É curioso: ao se usar as mãos, mais do que ajeitar quadros, louças, varas de varal, pisos e camisas, eu tenho a sensação que vai se ajeitando, na verdade, a própria alma...

4 comentários:

A. Claret disse...

Flavio,

aprendi em casa um montao de coisas com minha mae e minhas irmas. A republica em BH ajudou a por um pouco em pratica o aprendido. Porem, tomei bomba numa materia: passar roupa. Sempre tive dificuldades. Quando estava em BH, aprendi a colocar os jeans debaixo do colchao. Quanto as camisas, em inverno, e' so' passava a parte da frente ja' que o casaco tapava o estropicio na parte traseira. Ainda arresto comigo essa deficiencia.

Anônimo disse...

MONÓLOGO DAS MÃOS - Ghiaroni

Para que servem as mãos? As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever......

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau,
salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário;
Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;
foi com as mãos que Jesus amparou Madalena;
com as mãos David agitou a funda que matou Golias;
as mãos dos Césares romanos decidia a sorte dos gladiadores vencidos na arena;
Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência;
os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte!
Foi com as mãos que Judas pos ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.
A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda;
o operário construir e o burguês destruir;
o bom amparar e o justo punir;
o amante acariciar e o ladrão roubar;
o honesto trabalhar e o viciado jogar.
Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba!
Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia!
As mãos fazem os salva-vidas e os canhões;
os remédios e os venenos;
os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.
Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor.
Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes;
no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.
O autor do «Homo Rebus» lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida;
a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.
Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas.
A mão aberta,acariciando, mostra a bondade;
fechada e levantada mostra a força e o poder;
empunha a espada a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes;
da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.
Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza;
doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.
O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade.
O noivo para casar-se pede a mão de sua amada;
Jesus abençoava com as mãos;
as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.
Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar.
Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.
E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem.
Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino.
E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida."

abraços
ZJ

Flávia Augusta disse...

Se a roupa já foi passada, mas amassou um pouco dentro do armário ou da mala é só colocá-la dentro do banheiro, enquanto vc toma banho, o vapor do chuveiro faz com que a peça volte ao normal.
Fica a dica.

A. Claret disse...

Obrigado, Flavia, pela dica. Eu uso um spray com agua.