28 de jul de 2011

Mãos

Na minha memória, meu avô Jaime passou a vida no fundo da fábrica de farinha, inventando máquinas. Vivia lá. Ele, a bancada de madeira, o torno, o esmeril e a caixa de ferramentas. Orquestrava tudo aquilo com mãos habilidosíssimas. Essas mãos, Breno, meu irmão, as herdou. As mãos, a fábrica e o fundo da fábrica. Breno é daqueles que conserta qualquer coisa. Certamente, fez parte da turma que Deus escalou para os sete primeiros dias. Ao modo do meu pai, sempre tive mais propensão para a leitura e os estudos. Da minha mãe, alguma para a arte. Coisas importantes, eu sei, mas não tão nobres. Com insistência, procurei imitar o meu avô e tirar das minhas mãos mais do que haviam sido autorizadas a fazer. Por isso mesmo, quando criança, meu sonho era ser sapateiro. Graças a Deus, na mocidade, eram comuns uns sapatos hippies ridículos, fáceis de fazer. Por esse atalho alcancei a graça de ser sapateiro, ainda que um sapateiro medíocre e por pouco tempo.  Esse papo de sapateiro é outra história. Ir a Teixeiras, na zona da Mata, terra da minha mãe, era uma viagem no tempo. Teixeiras vivia encoberta por uma névoa fria e tinha cheiro de lenha queimando no ar. A casa da minha avó Maria era peculiaríssima. Simples, com cheiro de café, com quintal morro acima, com cercas de bambu. O lugar mais confortável do mundo. Provavelmente, Deus e Breno descansaram ali depois de sete dias ininterruptos de trabalho, em lençóis brancos, lavados com sabão preto, alvejados e com cheiro de patchouli ou sei lá o que era aquilo. Em frente, tinha a sapataria de seu irmão Acir. Imagino que Acir passou a vida naquele lugar, sentado na banqueta, fazendo sapatos pretos em fôrmas de peroba do campo. As horas mais úteis da minha vida gastei ali, memorizando cada movimento das mãos de Acir. A sapataria de Acir foi o lugar mais elegante em que já estive. As inabilidades são mais importantes na vida do que as habilidades. Ao virar arquiteto ou urbanista ou ao me meter na política, ou sei lá o que, no fundo, eu apenas buscava uma forma mais fácil, ao meu alcance, de ser sapateiro. Custei a entender isso. Talvez tenha sido esse o motivo, na profissão, do meu apego insano pelo desenho. O desenho usa as mãos! Os resultados sempre foram limitados. Tive ótima clientela e, com toda modéstia, fiz casas belíssimas. Mas nenhum delas, enormes, conseguiu apreender a solenidade do pequeníssimo cômodo da sapataria do Acir. Uma igreja!

14 comentários:

Flávia disse...

Flávio

Estava com saudades das suas reminiscências.
Elas renovam o meu humor com blog. rs
Bj

Flávia

Stefano Venuto Barbosa disse...

Que bonito isso Flávio. Lembro do meu avô sempre silencioso, falando macio, sempre doce, só hoje, depois de tanto chutar pedra, descobri o valor desse silêncio.

Stefano Venuto Barbosa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
bernardo de castro disse...

bom de se ler.

A. Claret disse...

Flavio,

belo texto! Imagino que a muitas pessoas ele nos fez lembrar nossos sonhos de infancia. O meu era ser carpinteiro (devido talvez a meu padrinho). Logo ser astronauta (devido a chegada do homem a Lua, provavelmente). Meu irmao mais velho (e mais pe' no chao): deixa de bobagem, voce nao tem saude e astronauta tem que ter saude ferro. Um sonho no chao e meus olhos buscaram o ceu.

Um abraço e continue nos deleitando com suas reminicenscias.

Narinha disse...

Flávio, esse jeitinho de escrever é um deleite, eu desconfio meu amigo, que isso já é poesia. Abs

Zeca Dias Amaral disse...

Outro dia me peguei olhando pra mim mesmo. Não vaidosamente diante do espelho. Nem me olhando nos olhos, sem vaidade mas com alguma culpa, como às vezes nos acontece. Recebi um tapa na cara da visão de minhas mãos. Eram as mãos de meus tios, tão mais velhos que eu, até porque mais velhos que meu pai, que é o mais novo de todos assim como eu lá em casa.

Quando criança, as mãos sempre foram uma presença visual obsessiva. Estavam sempre no horizonte; eram uma referência visual imposta pelo limite da estatura nesta fase da vida.

Neste dia mais uma ficha caiu, com o auxílio luxuoso de uma trilha de Pink Floyd ao fundo, me soprando na consciência: "e então, um dia você descobre que dez anos ficaram para trás. Ninguém te contou quando correr; você perdeu o tiro de largada".

Muito bom este tema, Flávio.

Abs.

Anônimo disse...

Muito bom Flávio! Quando leio, penso...viajo...tento te imaginar lá, naqueles lugares...distantes!
Gosto de ler seus textos!
Ah! Faço questão de fazer parte da sua clientela, heim?

Anônimo disse...

Que bonito Flavinho... me fez voltar aos meus 12 anos, sentada no do lado da minha vó Maria Martins,ela aprendendo violão e me ensinando minha primeira musica: o "tu nao te lembras da casinha pequenina, onde o nosso amor nasceu, tinha um coqueiro do lado...". Minha casa aí na Quintino tem um coqueiro do lado...
Obrigada, amigo.
Beijos da Rosa.

Anônimo disse...

Parabéns pelo maravilhoso texto, Flávio, e por sua iluminada facilidade para escrever e expressar sentimentos. O texto me fez lembrar com muito carinho e saudades do meu avô italiano, que veio para o Brasil para exercer a profissão de sapateiro, atividade que ele aprendeu na Itália. Veio cheio de sonhos,esperanças e expectativas, mas acabou desistindo por problemas de saude e foi trabalhar como viajante da Matarazzo depois de algum tempo. Lembrei-me muito de suas mãos calejadas, dedinhos grossos, de seus olhos azuis, seu sorriso aberto, de seu amor incondicional pela Itália, e de seu jeitinho carinhoso de me chamar de "adorenta” (a palavra não existe, mas ele queria dizer adorada). Obrigada por esse momento de gostosa nostalgia.... Abração, Junia Villani

Marquinho Moreira disse...

Flávio.

Sua "poesia" me trás à mente muita coisa boa.

Saudade das férias na casa de meus avós na Rua Sete de Setembro em Divinópolis.

Meu avô me ensinou muito das habilidades manuais que tenho.

Muito bom lembrar do tempo que faziamos gaiolas de arame (muitas vezes, sem porta) para sua inocente coleção de passarinho.

Aproveitando, parabéns pela "cara" do blog.

Alê Casarim disse...

Bello parole il mio amico...
Ricordato mio nonno...

Abbracci

Blog do Flávio de Castro disse...

Olhem só: Marcos Moreira de Oliveira rides again!

Marquinho Moreira disse...

Em bom inglês...

"Who it is live always appears".

Rs..