18 de dez de 2010

João

1970. Será esse o ano? Nós chegamos a Ouro Preto ao cair da tarde. A neblina, o cheiro de madeira e o entardecer me enchiam o coração de reservas. Eu tinha uns dez anos. Ou menos. Ele estava feliz. Ao longo da viagem, desde Sete Lagoas, ele me contou histórias da juventude. Eu só escutei. Estava um pouco encabulado. Pai inventou a viagem na última hora e me tomou de companhia. Eu precisava ir com uma roupa melhor e meu sapato era velho e me apertava. Eu fui me esforçando para tornar meus sapatos invisíveis. A casa de tio Zé de Castro tinha um mirante, tipo um sótão ou uma água furtada. Ficamos hospedados lá. Acho que foi a primeira vez que viajamos só nós dois. Da janela eu via o paço, o chafariz ao lado e o cinema à frente. Entramos, nos arrumamos e saímos. Fomos a pé até a Casa dos Contos, logo adiante, depois da ponte. Ele me tratava como gente grande e eu me sentia como gente grande. Entramos num salão com cadeiras iguais a de uma sala de jantar fingindo que compunham um auditório. Não me lembro de nenhuma outra criança. O ar era solene e me emudeceu. Bateram palmas quando apresentaram um tal padre Mendes, depois uma tal Condensa Nascimento e Brito, do Jornal do Brasil, depois mais outros tais, e mais palmas quando falaram de Tristão de Athaíde, que dava nome ao grêmio literário, e de cuja existência eu tinha acabado de tomar conhecimento, durante a viagem. Era um homem muito claro, gordo e simpático. Eu misturo as lembranças dessa viagem com outra, quando tinha uns 18 anos, quando, de novo, fomos a Ouro Preto para os 40 anos do GLTA. Mas sei que foi nessa primeira aventura que saímos da Casa dos Contos e fomos, um grupo, a um bar, a uma dessas cantinas ouro-pretanas. Fazia frio. Sentado bem ao lado de pai, eu ouvi, ouvi e ouvi e não disse um ‘a’. Às vezes riam, às vezes falavam baixo. Ouvi falar de uma revolução, de uma ditadura e de pessoas sumidas. Embora eu me atemorizasse um pouco com o tom obscuro da fala, do lugar e da noite, sei lá porque, eu me sentia feliz. Acho que era porque, naquela noite, eu me senti uma pessoa importante. Como nunca tinha sido antes e nunca mais conseguiria ser depois. Lembro da volta pra casa. Trôpegos, vagarosos, boêmios, cheio de conversas um com o outro. Ele me conduzia com a mão no ombro. Acho foi aí que selamos uma amizade que durou uma vida inteira...

Saudades, meu velho!

7 comentários:

Feérica "Psychedella" Fuzilêra disse...

Os sonhos não envelhecem, meu caro!

Feérica "Psychedella" Fuzilêra disse...

(À la Clube da Esquina.)

Marcio disse...

Eh Flavio,

8 anos de saudades....

Celso disse...

Saudoso João Luiz. Graças a Deus tive a oportunidade de conhecê-lo.

Anônimo disse...

Porque não escrever um livro?
História bonita...

Geraldo Donizete disse...

Flávio:

Lembro-me com carinho dos debates travados com Ele, num programa de televisão conduzido pelo Márcio Vicente, ainda no despertar da ETV.

Eu era ainda jovem, idealista; arrogante talvez. Achava que tinha os atributos necessários para pleitear uma candidatura a Prefeito que não vingou.

Ele, duro na crítica, sagaz nos questionamentos, mas sem nunca perder a elegância e gentileza no trato com eventuais antagonistas.

Hoje percebo que foram bons tempos. Tempos em que a luta política se dava somente no campo das idéias e, nos ideais de servir.

Ah que saudades!!!

Junia disse...

Deus te deu o dom das palavras, Flávio, e através delas o poder de traduzir tão bem as emoções e os sentimentos que fazem de você essa pessoa especial. Me emocionei ao ler esse texto sobre seu pai. Perdi o meu há muitos anos, de forma repentina e trágica. Ele era o meu chão, a maior referência de ética, caráter e honestidade que tive na vida. Assim como seu saudoso pai foi para você. Somos privilegiados por termos tantas coisa boas para lembrar, e com tantas saudades...