17 de ago de 2010

A história envergonhada

O debate sobre a preservação do patrimônio histórico e cultural sete-lagoano tem se dado em um nível muito ruim. De um lado, um grupo de pessoas reunidas em torno do COMPAC que compreende em profundidade a importância desse tema e briga por ele com propósitos genuinamente públicos, ainda que possa ser criticado, acessoriamente, por razões de método ou o que o valha; de outro, uma cidade temerosa que apega-se, defensivamente, ao direito de propriedade, destituído de considerações sobre a sua função social e que reclama, no que tem algumas vezes mérito, da frágil base jurídica com que essa questão está estabelecida entre nós. Sem se chegar a um acordo que ponha o tema do patrimônio histórico e cultural no lugar superior que ele merece, vão-se contando perdas dos dois lados. E o patrimônio, propriamente, fica sob eterno risco...

Para além dos casos mais emblemáticos e acalourados que tem emergido nesse debate - que envolvem imóveis mais representativos e, em torno deles, às vezes questões familiares dramáticas; outras, meros interesses especulativos, indistintamente postos no mesmo saco - o que me parece mais significativo é o desprezo coletivo e cotidiano pelo patrimônio, pela arquitetura de época, pelo nosso passado, pela nossa identidade sete-lagoana.

Aqui e ali, entretanto, a história resiste por detrás de outdoors, de gigantescas placas de lojas, de reformas desastrosas teimando em nos fazer lembrar quem somos nós, a que mundo pertencemos...

A partir de hoje, ocasionalmente, eu vou postar nesse blog pequenas ilustrações, de detalhes insignificantes que sejam, singelos talvez, através dos quais nossa história, envergonhada, nos olha, nos coloca cruamente frente ao nosso insensato progresso e, de certa forma, nos indaga: 'em contra-ponto a mim, é a isso que vocês chamam de modernidade?'...

14 comentários:

Paulo do Boi disse...

Flávio.

Enquanto cultura não for política de governo, não haverá, no seio social, uma comoção coletiva voltada à preservação de nossa memória e muito menos à manutenção de nossa indentidade. Senão, vejamos uma lona preta que está tampando os buracos da parede do nosso museu histórico. Esses dias pedi a Shirley (presidenta do COMPAC) que se inicie o processo de invetariado da lona preta, pois, já faz um ano que ela está lá. Talvez cobrindo a "história envergonhada" de nossa cidade, que começa justamente lá e passa pelo descaso com as locomotivas, que estão no tempo, nos jardins do museu ferroviário e aí vai... Salve o engano, recebemos uma verba até satisfatória de retorno de ICMS/Cultural. E aí? Não estou aqui colocando ninguém contra a parede mas, em se tratando de preservação da memória patrimonial de nosso povo, o poder público precisa começar sendo exemplo e preservando o que temos ou que ainda nos resta. Acompanhei o departamento de história e pude constatar que não há sequer um computador ligado a internet. O trabalho deles para pontuar a cidade no relatório do IEPHA foi de tirar o chapéu mas... Acho que talvez a falta de sensibilidade dos proprietários vem da falta de exemplo e de uma política cultural bem aplicada e dinâmica que fortaleça nossos conselhos e nos dê amparo técnico e moral para tanto. Converse com Shirley, parece que estão querendo derrubar uma casa em torno da Lagoa Paulino...
Gostei do post e espero que à partir daqui possamos mudar a realidade por nós amargada ao longo dos tempos. Seja bem vindo a causa...
Obrigado pelo espaço e pelo assunto que muito me interessa...

Abraço `
Paulinho do Boi

Blog do Flávio de Castro disse...

Paulinho,

De acordo com tudo, menos com um detalhe: a forma como você vê o papel do poder público. Sobre outros temas eu tenho dito aqui uma coisa que vale também para a cultura: o governo e suas políticas resultam de quem constroe a agenda pública, de quem tem mais força para impor os temas e as condutas públicas. Isso é assim em todo lugar. A política é um jogo de pressão. E na minha opinião, os preservacionistas estão perdendo não apenas na política, mas no imaginário coletivo. Não podemos colocar toda a responsabilidade em poucas pessoas como a Shirley que tem sido heróica, mas fortemente criticada por quem discorda dela. Acho que esse tema precisa ganhar uma repercussão social.

Abs, Flávio

Zeca Dias Amaral disse...

Falta um desenho da farmacia sao joao do jeito que está; sem nada moderno atrapalhando e a gente se perguntando: o quê está se preservando? Qual o valor conservado? Como diria Lobão: quem é que vai pagar por isso?

ENIO EDUARDO disse...

Só para apimentar esse debate que o Flávio tão bem iniciou aqui no Blog, tenho uma pergunta a fazer e gostaria que alguém desta praça me respondesse, caso saiba de algo.

O Paulinho mencionou a questão de uma casa às margens da Lagoa Paulino que querem derrubar. Por isto colocarei e o fato e pergunto:

Fiquei sabendo por comentários de pessoas sérias, ligadas à questão do patrimônio ( me reservo ao direito de preservar o nome destas pessoas) que o Prefeito Maroca tem "feito um verdadeiro processo de constrangimento Moral à pessoa da Presidenta do COMPAC Shirley (telefonando para ela constantemente), no sentido do Conselho aprovar tal demolição".

Será que isto é Verdade? Alguém saberia da ocorrência de tal fato?

Quando me disseram fiquei estupefato, pois se isto estiver ocorrendo é simplesmente inadimissível em se tratando de comportamento democrático. Ainda mais quando o constrangimento moral parte daquele que deveria saber que a sua posição como o Prefeito da cidade o torna em tese o nosso Cidadão Número 1 (isto significa ser a representação encarnada da média do pensamento dos Cidadãos SeteLagoanos e isto é de um valor simbólico imensurável). Sendo assim, o Prefeito estaria totalmente na contramão da história dos valores democráticos e no respeito a um Conselho Deliberativo com ampla participação da nossa sociedade.

Zeca Dias Amaral disse...

Enio, pare de fazer demagogia e responda: vc quer derrubar ou não (o imóvel, não o prefeito)? Por quê?

ENIO EDUARDO disse...

Zeca se tem uma coisa que nunca fui é demagogo. Este tipo de afirmativa pode servir para muita gente, garanto que para mim não. Sempre trato todas as questões políticas de forma clara e aberta. Acho que aqui no Blog, minhas opiniões tem esta marca. Não pretendo ser unanimidade, discordâncias fazem parte do processo e são muito bem vindas também.

Portanto, caro Zeca essa pecha de demagogia não cola para cima de mim.

Eu defendi, defendo e sempre defenderei a estabilidade institucional. O Prefeito Maroca deve ficar até o último dia do seu governo, pois ele foi eleito pelo sufrágio popular. Como ele está em seu primeiro mandato, pode até decidir a disputar a reeleição, isto tudo de forma legítima, nenhum problema quanto a isto.

Aliás, ainda vou te revelar uma coisa, quando da idéia de CPI da Via Solo, atuei junto aos vereadores do PT no sentido de abortarem a idéia, porque não via nenhum sentido na mesma. E garanto a você que sei dos detalhes do contrato da Via solo. Minha atuação de bastidores mostram o lado que defendo, o lado da estabilidade institucional. O Prefeito é uma Instituição, aliás a principal instituição de uma municipalidade e deve ser preservado, para que a cidade também seja preservada.

Minha pergunta foi clara e objetiva: Tem pessoas honradas na cidade que se preocupam com o Patrimônio, a Memória e a História de Sete Lagoas que me afirmaram categoricamente que o Prefeito Maroca tem feito uma espécie de "Assédio Moral"à Presidenta do COMPAC Shirley", no sentido de liberar a derrubada da tal casa da Lagoa Paulino. E digo mais Zeca, estas pessoas que me afirmaram isto, disseram que o Património ao entorno da Lagoa tem regras claras para que possam ser mexidos e uma delas é a aprovação do COMPAC. Dizeram ainda que o Prefeito tem atuado para beneficiar o comprador da Casa que é seu amigo pessoal.

Acho que isto não é desejo de derrubar o imóvel e muito menos o Prefeito.

Estou apenas colocando pimenta no debate.

O Prefeito pode até ter o impulso de querer determinada decisão de um Conselho, mas ele deve ser o primeiro a respeitar as decisões do mesmo. O Prefeito pode até se articular para que o Conselho tome a decisão que melhor aprouver seu governo, mas que faça isto dentro das regras democráticas.

Zeca, fui Presidente do CODEMA-SL, todas as questões que foram colocadas em votação no CODEMA e que interessavam ao Governo Municipal, articulei dentro dos critérios democráticos para que elas fossem aprovadas. Consegui um bom nível de sucesso agindo assim, dentro das regras. As questões em que saí derrotado foram cumpridas rigorosamente da mesma forma, ou seja, dentro das regras do jogo.

Agora, continuo afirmando que se o Prefeito tem dado os tais telefonemas para a Presidenta Shirley, isto deve ser abominado dentro da ordem democrática.

Acho que fui bem claro não é caro Zeca. A arena de disputa política com o Prefeito são as eleições, que ocorrerão apenas em 2012. Até lá, muita àgua passa por debaixo da ponte. Este ponto não diminui em nada as qualidades que o Prefeito, com certeza tem, apenas pontua uma conduta indevida do nosso mandatário.

Blog do Flávio de Castro disse...

Zeca,

'Pare de fazer demagogia e responda': você está defendendo a derrubada da 'farmácia são joão' e da casa à beira da lagoa paulino? Vá ao pomo de discórdia: qual critério deve presidir a atuação do patrimônio entre o que cai e o que fica?

Abs, Flávio

Flávia disse...

Caríssimos,

Venho aqui humildemente dizer que não consigo firmar uma posição quanto a este assunto, quando eu penso no social, no quanto é importante que um povo conheça sua própria história e no quanto a preservação dos imóveis contribuem para isso, eu tomo partido da conservação.
Mas confesso que quando eu penso no(s) propietário(s), que detem a posse legítima da propriedade eu volto atrás.
Desculpem a minha ignorância, mas faço a mesma pergunta do Lobão e do Zeca: Quem é que vai pagar por isso?
Gostaria de saber:
Como fica a situação dos proprietários dos imoveis?
É de conhecimento geral que quanto mais antiga a construção maior a necessidade de manutenção, quando o proprietário fica proibido de derrubar o imóvel ele recebe alguma ajuda (financeira e/ou mão de obra)do poder público para garantir a conservação deste imóvel?
Não estou defedendo a derrubada, só que realmente eu não tenho conhecimento do processo.
Quem sabe esta falta de informação não seja somente minha? Quem sabe isso não contribui para ações im
Para se firmar uma posição certas informações são fundamentais, honestamente eu não tenho certeza se tomaria partido da preservação do patrimônio caso o ônus seja todo do proprietário...
Preciso da ajuda dos universitários!

rogerio disse...

Lendo o comentario da Flavia,tbem fico a pensar,se vai preservar o patrimônio "historico", então que seja com restauração e que dê suporte ao proprietário,ou será tombado(v.t. Derrubar, deitar ao chão, fazer cair. / &151; V.i. Cair rolando, cair no chão. / Declinar, descair: já o sol tombou no horizonte. / &151; V.pr. Voltar-se, virar-se, cair para o lado.) pois como falou o Paulinho do Boi , a lona preta continua lá no Museu.

Mas até que as atidudes sejam tomadas..................tbem fico na ignorância.

ENIO EDUARDO disse...

Que isto companheiros? Flávia e Rogerio não há que ter duvidas. Preservar torna-se necessário sempre. O fazer humano deixa suas marcas no tempo. Lembrem-se: O direito de propriedade não e absoluto. Existem alternativas preservacionistas que oferecem garantias aos proprietários dos imóveis. Não fiquem na duvida por quem quer derrubar acaba valendo-se de duvidas como as suas. Dêem uma passada de régua na duvida. Um assunto como este não precisa ser um grande conhecedor para assumir a defesa da Preservação, da Conservação, da Memória e da História.

O essencial amigos vocês dois possuem de sobra: Sensibilidade. Basta lançar o olhar humano e sensivel que possuem para ajudar na luta da defesa do resta do nosso patrimônio histórico. Mais que uma propriedade privada, estes patrimônios estão enraizados na vida do setelagoano, mesmo que possa parecer o contrário.

Abraços, Enio

Paulo do Boi disse...

Flávio e amigos

Então

Tenho convicção plena de suas colocações Flávio. Tenho procurado ver a intenção do poder público por aqui, pelos post's da praça, faço isso para tentar ver além da minha ignorância. Sério, estou tentando pensar antes de falar o que vejo e não consigo entender. A falta de zelo, por exemplo, com o mínimo que precisa ser feito para melhorar toda esta situação administrativa pública atual. É muito pouco que se gasta para dar manutenção e fazer o mínimo. Não estou pedindo que se aplique o que é de direito na cultura, lei de incentivo, orçamento na sua totalidade etc, estou apenas solicitando zelo pelo pouquíssimo patrimônio histórico que nos resta, antes que ele acabe e junto com essa falta de cuidado acabe nossas esperanças. Flávio e pracianos, minha visão é a mesma que paira no imaginário da grande massa.Curta e grossa. Não sei ser diferente ou indiferente com as coisas que sinto e vejo, sempre coloco minha visão amparada pelo emotivo do repente. Leiamos nas entrelinhas. "Prioridades de uma agenda". Quando o CMC e o COMPAC junto com a Rede AAN promoveram um debate entre os candidatos a prefeitura de Sete Lagoas, o atual prefeito foi o único que não compareceu. Na verdade queríamos um compromisso dos candidatos com a questão cultural da cidade. Voltei no tempo para afirmar minha pouca visão em relação a atual administração, pois, nunca me mostraram um planejamento estratégico para o estabelecimento e aplicação de uma política pública em torno do fazer cultural. Daí minha visão sem amplitude talvez. O pouco que vi de organização e planejamento eu vi aqui no blog e pude opinar. Vejo, Flávio, um apagar de incêndios em cima do que precisa ser feito. A construção de uma política cultural depende de um amplo fazer e de um debate onde possam surgir metas e objetivos definidos... O que já foi feito merece respeito, mas é muito pouco.
Flávio, este final de semana enterrei minha sogra e por falta de grana, enterrei na parte dos pobres no cemitério Parque Boa Vista. Paguei uma taxa de 26,30 e nunca tinha ido lá, foi a primeira vez. Lá pude constatar duas coisas. A promessa de campanha deste prefeito, que não foi cumprida e a revolta de todos os amigos e familiares que ali estavam. Chegamos em um jardim obtuário super mal cuidado. Puxa! Fiquei constrangido em não ter grana para dar a minha esposa um pouco de dignidade em uma hora tão delicada. Todos falaram do horror da cerca que separa os pobres dos ricos e das péssimas condições lá encontradas. Não ligo para cerca, mas ligo para o cuidado e zelo com o ambiente ali estabelecido. "Histórias envergonhadas que ali perdem suas dignidades". Também é patrimônio nosso de cada dia. Desculpem-me o desabafo mas é o único lugar em que tenho colocado minha visão, "pouca".
Flávia em se tratando de quem vai pagar a conta, penso que: Na esfera federal ha um mecanismo para manutenção do patrimônio histórico. Será que ha um projeto para tanto em Sete Lagoas?

Muito obrigado Flávio, por me ouvir e ter paciência com minhas colocações. Se não vejo o meu voto em Maroca desperdiçado é porque você tem capacidade de me mostrar um outro lado.

Obrigado pelo espaço e desculpem-me a falta de jeito.

Abraço
Paulinho do Boi

rogerio disse...

Enio, eu acho que falta atitude dos órgãos habilitados nessa questão, será que já foi feito um levantamento sério sobre isso?
E se foi feito, o que pode e o que não pode ser feito a respeito?
O Casarão foi um movimento que contou com a participação de varias pessoas preocupadas com essa questão, mas só surtiu um efeito quando foi feita uma manifestação artista (musica, dança, poesia. Etc.), o povo por incrível que pareça apareceu lá, o governo da época ficou com a pulga atrás da orelha e reverteu um plano para dar uma forcinha na especulação imobiliária, hoje o Casarão esta lá, será que teremos que fazer isso a cada imóvel histórico que ficar ameaçado?

Forte abraço

ENIO EDUARDO disse...

Concordo plenamente com você Rogério. Por essas e outras que não cabe dúvidas sobre este tema. O princípio tem que ser reafirmado sempre. O fazer de um povo não é determinado pelo mundo da política. A Política que deve ser determinada pelo fazer de um povo.

Flávia disse...

Ênio,

Agradeço a intenção da ajuda.
Eu vejo que neste caso existe uma triangulação de interesses formado pelo poder público, sociedade e proprietário.
Como já disse no comentário anterior eu não estou negando a importância da manutenção do patrimônio histórico. Isso para mim, como sei que para você também, é um direito legítimo da socidade.
Acontece que mesmo diante deste fato eu gostaria de saber como fica a situação dos proprietários dos imóveis.
Eles pagam ou não o pato?
O que me parece é que fica a sociedade e o poder público debatendo uma questão que não é só deles.

Abs

Flávia