4 de ago de 2010

Helena Bartolomeu Rodrigues Branco


D. Helena, do SERPAF, é minha avó. Hoje, pela manhã, fomos eu, Adriane, minha prima, e Nina, que é nossa mãe e nossa avó, ao lançamento da pedra fundamental da Escola Municipal Helena Rodrigues Branco, que será construída atrás da Escola Técnica. Permitam-me a pieguice de fazer, aqui, uma homenagem a ela, recuperando as palavras que disse lá no evento, em nome da família...


Não foi fácil para nós, familiares, ao longo da convivência com ela, aquilatarmos a importância de vó Helena. Nem sempre é fácil entender as razões que levam uma pessoa a se dedicar de forma integral e tão radical a uma causa, transformar essa causa na sua própria vida e envolver todos os seus familiares, marido, filhos e netos no seu projeto.

Vó foi como uma daquelas nonas italianas, obedecendo ao seu sangue italiano: a nona que determinava, que cobrava presença, que não aceitava um não, ainda que nem sempre fosse compreendida.

Compreendida ou não reuniu a família ao seu redor... Durante anos tia Dadace esteve com ela no SERPAF, minha mãe Selma tornou-se a Selma do SERPAF, Nina foi professora de arte culinária no SERPAF, eu mesmo, durante anos, coordenei o clube dos Jovens Engraxates do SERPAF, e Adriane, mais do que ninguém, é a sua mais legítima herdeira, uma nova D. Helena. Gostássemos ou não, ela não poupou a nenhum de nós...

Confesso que precisei assistir ao filme 'A Era do Rádio', de Wood Allen, para entender esse estilo italiano ilimitado de vó, que jamais soube separar sua casa e sua intimidade, da rua, do mundo público. A casa da Rua Teófilo Otoni, ao lado da fábrica de farinha, sempre esteve cheia de parentes e amigos que vinham e ficavam. Eu receio que no coração de vó essa distinção, de fato, não existia.

Eu precisei trabalhar no Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome para entender que suas teses tinham todo sentido. Agora que as políticas sociais colocaram como seu fundamento a 'centralidade na família', que o principal benefício social brasileiro passou a denominar-se Bolsa Família, que o principal serviço sócioassistencial ganhou o nome de Programa de Atenção Integral à Família, fica mais fácil decifrar porque o seu SERPAF se chamava, na origem, Serviço Promocional de Assistência à Família. Apenas 40 anos de pioneirismo separam uma coisa da outra... Há 40 anos ela já tinha clara compreensão de que não era possível acolher a criança, sem promover, também, a sua família.

Eu precisei ir ao seu velório para saber que ela, na verdade, não nos pertencia. Que aquela multidão que foi se despedir dela tinha, por ela, um respeito e uma paixão que prescindiam de qualquer compreensão. Eles sabiam bastante bem o valor que ela tinha e teve para eles.

Eu precisei ouvir o sermão de Monsenhor Antônio, na sua missa de sétimo dia, para entendê-la de uma vez por todas. Tonico disse que há pessoas que tem uma fé que contempla; outras, uma fé que acolhe; mas poucas têm uma fé que só se afirma ao fazer. Uma fé que move montanhas,  que transforma o mundo, a fé de D. Helena.

Vó era uma italiana nascida no Brasil, em Teixerias, na zona da Mata. Mudou-se com vô Jaime para Sete Lagoas em meados dos anos trinta. Vó escolheu Sete Lagoas. Aqui viveu, aqui entregou sua vida à causa dos pobres, dos pobres de Sete Lagoas. Aqui morreu. Aqui permanece. Portanto, é com o coração alegre e grato que a nossa família vê hoje que a comunidade sete-lagoana, ao homenageá-la, antes de tudo, reconhece o que Helena Branco fez por nossa cidade.

E ela, seguramente, onde estiver, está feliz em abençoar, com seu nome, uma escola municipal para crianças como aquelas que, ao longo de sua vida, ela acolheu e cuidou.

6 comentários:

Paulo do Boi disse...

Helenas
Texto Paulo Henrique
Inspiração vida e obra de Dona Helena Branco e
Colegas de trabalho do SERPAF

Diga sim às diferenças
Viva o amor com intesidade
Tempere a vida com ternura
Seja Helena...

Helena de sonhos e realizações
Helena de fantasia e realidade
Helena de amor e perdições
Helenas...

Conserve sua ternura
Mantenha sua fé
Prospere em suas emoções
Seja Helena...

Helena de doçura e amargor
Helena de sentimento e razão
Helena de alma e coração
Helenas...

Pois, a riqueza da alma é a base
da atitude e vida lhe devolve
a maioria de suas ações.
Seja Helena...

Helena de vaidade e simplicidade
Helena de tempestade e calmaria
Helena de tristeza e felicidade
Helenas...

Mesmo quando os sonhos
são devastados pela angústia
insista na crença de um mundo novo
Seja Helena...

Helena de obras e construções
Helena de diferenças e igualdades
Helena de favelas e mansões
Helenas...

Abrace a vida com determinação
Retribua os sorrisos e sorria sem pretensão
Entre na tecelagem do amor
Seja Helena...

Helena de fracos e fortes
Helena de cordeiros e valentões
Helena de costuras e cortes
Helenas...

Ultrapasse o limite da crença
Reflita na magnitude da alma
Exceda suas virtudes
Seja Helena...

Helena de pedra e algodão
Helena de começo e fim
Helena de ousadia e tradição
Helenas...

Esbraveje com suas fraquezas
Acaricie suas fortalezas
Caia, mas caia de pé
Seja Helena...

Helena de natureza e transformação
Helena de fogo e água
Helena de madeira e artesão
Helenas...

Entalhe sua alma na expectativa
da vitória eterna de seus feitos
Alce vôos em favor da igualdade
Seja Helena

Helena de trabalho e arrego
Helena de justiça e compaixão
Helena Branco e de negro

Invista em seus sonhos colha a liberdade de sua expressão, vista sua alma de esperança e cubra seus anseios de Helenas...

ENIO EDUARDO disse...

Parabéns Paulinho do Boi. Versos de riqueza, reflexão e profundidade.

Paulo do Boi disse...

Obrigadão Enio

Voarás disse...

Flávio,
D.Helena frequentava ainda a casa de suas funcionárias. Ela ia na casa da minha mãe (Isabel) Me lembro de minha mãe arrumar a mesa de café com muito capricho e pedir que a gente respeitasse aquela elegante mulher. Cabelos impecáveis e um perfume inconfundível. A gente adora quando D. Helena ia lá em casa num carrinho branco dirigido pelo Laerte. Sua vó foi uma grande mulher!

Blog do Flávio de Castro disse...

Voarás, tão bacana ler isso. Suas palavras são tão importantes pra mim... De coração, obrigado!

A. Claret disse...

Meus pais (e eu) admiravamos a luta da sua avo'! Uma grande e necessaria mulher!