4 de jun de 2010

Menino – XXX [Enfim, o fim]

A casa estava calada. Era sábado, fim de dia, umas 5 da tarde, o sol começava a tomar seu rumo por detrás da serra. Onde não havia mais sol, o frio entranhava. Eu ‘tava na cozinha cuidando da janta. A patroa me pediu para preparar uma sopa. Pus a carne pro caldo na lenha e estava cortando legumes. Lembro de tudo direitinho. Tudo seguia como vinha vindo faz tempo: melancolia e melancolia. –Patrão! Patrão! Patrão! De repente, a voz apavorada de seu Zé cortou o silêncio, despertou todo mundo e provocou uma correria desenfreada. Uns e outros foram se acotovelando no guarda-corpo da varanda, olhando na direção do rio. Seu Zé, no gramado logo abaixo, estava nervoso e os nervos pareciam descer pro cavalo que arfava e rodopiava, dando de traseiro, ladeando. – Olha lá, patrão. Deus me perdoe!, falava ele sem parar, apontado o rumo. Todo mundo espremia os olhos como se quisesse ver distante, de binóculos. Eu cheguei por último e, no beiral da porta, por detrás, me esforçava pra entender e ver. Nada! Sem quê nem pra quê, vi que o patrão se avermelhou e moveu a cara de um jeito curioso para um jeito assustado. Depois foi a patroa: ficou lívida, meio branca e olhou pro marido. E do mesmo jeito a arrumadeira e os vaqueiros que vieram atender ao chamado do seu Zé, que insistia: – Olha lá, patrão! Não pode ser... A custo, também enxerguei um ponto meio branco, miúdo, na beira da cerca, no caminho que vai dar no rio, praticamente imóvel. Mas ele não estava imóvel. Ele vinha vindo. Era de uma lentidão danada. Se você não pusesse atenção não via mover. Parecia um homem com o corpo dependurado em dois braços e os dois braços em duas mãos agarradas num galho cumprido e reto de árvore. As pernas soltas arrastavam. Ele gastava horas para adiantar um dedo de chão o cajado e mais outras tantas para levar junto o corpo e as pernas. Me dei pela coisa e danei a falar pra dentro: - Maria, é sonho, Maria? Dê certeza, Maria. É sonho? E o ponto branco que parecia um homem ficava meio sumido no meio da bruma que subia do rio e se misturava na poeira que vinha da estrada. - Maria, é sonho, Maria? Dê certeza..., eu tentava esclarecer. E o ponto reaparecia e vinha vindo. E o homem vinha vindo. Ninguém falava um a. Ninguém foi acorrer. Só punham atenção. Só atenção. Todo mundo falava pra dentro e quase que dava pra ouvir o converseiro. Pra dentro, todo mundo se debatia; pra fora, dava jeito de esconder o pânico no silêncio. De repente, a voz de dentro da mulher de seu Zé escapuliu e disse o que ninguém queria ouvir: - Será o velho, Minha Santa?! Mas ninguém se moveu. Aquilo que podia ser notícia boa não era mais. Ou era notícia pra pesadelo ou pra vergonha. E o homem continuou vindo... Eu não sabia o que pensar. Me perguntava se era sonho, mas ai meu pensamento fugia de mim e me lembrava dos risquinhos sem fim no chão de poeira, salpicado de bolinhas, uma depois de outra, na ponta da bengala, que disseram que o capeta tinha feito. Então, quem era o capeta? O menino ou o velho? A notícia era mesmo pra vergonha, eu refleti comigo. O capeta estava era na gente mesmo... Achei melhor rezar. E aí falava pra dentro: - Ai meu Deus, é sonho? Aí, alguém, pra maior desespero, então, sentenciou: - É o velho! E então todo mundo parou de falar pra dentro. Mas eu continuei falando pra dentro, na barriga: - Ai meu Deus! Ai meu Deus! E, dessa vez, foi minha voz que se distraiu, pulou da boca e falou o que não devia: - Ele vai perguntar pelo menino... Foi então que todo mundo parou de respirar. O ar sumiu.

9 comentários:

Flávia disse...

Então...

Blog de Flávio de Castro disse...

Então o quê?!

Flávia disse...

Menino,

Obrigada pelo "O menino".

"O menino" me fez lembrar o filme "Bicho de sete cabeças", acredito que você já tenha assistido caso contrário não perca a oportunidade, não sei se consciente ou não, mas assim como o filme sua história tratou do relacionamento entre pais e filho.
Eu creio em Deus e por isso acredito que quando Ele nos permite ter um filho Ele está nos demonstrando a confiança que tem em nós.
Criar e educar são sem dúvida nenhuma um ato de entrega e muito, muito amor.
Fora as exceções que são os pais que maltratam seus filhos de forma proposital, nós os pais "normais" sempre queremos o melhor do mundo para nossos rebentos e nem sempre acertamos.
Por isso defendo a tese de que pais e mães também erram, mas que devem ser perdoados por seus erros porque a intenção é sempre acertar.
Nós sabíamos, desde o primeiro capítulo, que o menino estava falando a verdade, mas os pais dele não sabiam. Por isso tivemos raiva deles, dissemos que eles tinham exagerado, no entanto no final a raiva deu lugar a compaixão porque tenho a certeza de que eles acharam que estavam fazendo o melhor para o filho.
Espero que Deus nos permita, pais e mães, infinitas vezes mais acertar do que errar.

Menino, obrigada pelo "O menino".

Bjo

Flávia

Flávia disse...

Então é isso!

Blog de Flávio de Castro disse...

Flavinha,
Depois do seu 'então...' achei que você fosse me perguntar pelo menino. Eu ia lhe responder, como Maria, a cozinheira: 'não tenho notícia'...
Mas sobre o que você escreveu, eu acho que essa historinha besta não diz das nossas boas intenções com nossos filhos. Ao contrário, diz de nossa arrogância em achar a nossa verdade adulta a única verdade possível. Assim como, depois, na vida, achamos as nossas verdades políticas, as nossas verdades pessoais, todas as nossas verdades as únicas interpretações corretas do mundo. A historinha não confirma se o menino tinha razão. Ela apenas contempla a possibilidade do menino ter uma visão de mundo própria, de falar ou achar que fala com um avô surdo e mudo, de admitir a hipótese do avô entrevado andar, de enxergar uma vida nova onde as pessoas só são capazes de ver tragédia. A história não fala de uma visão ingênua, mas de uma visão diferente da visão da maioria. Só isso.
Você esperava um desfecho mais feliz?
Abs, Flávio

Flávia disse...

Flávio,

Pois é, as interpretações são sempre subjetivas. Como eu já disse o final me fez lembrar demais do filme. (Bicho de sete cabeças)
Mas como tenho muito interesse na literacia estou me sentido uma privilegiada por poder obter todas as informações, sobre a história, direto da fonte.
A resposta sobre onde está o menino e os acontecimentos que se deram depois do retorno do avô podem vir em um próximo volume, não é mesmo?
Claro que a gente sempre espera por um final feliz, fiquei imaginando os pais do menino sofrendo de remorso, culpa, arrependimento, isto porque eu inferi que o menino foi levado para um tratamento mental... Talvez não foi assim que as coisas se deram... É, eu preciso saber onde está este menino!
Então Flávitcho, mãos à obra! Nos conte aí onde o menino foi parar.

Bj

Flávia

Blog de Flávio de Castro disse...

Flavinha,

Se você reler a história você verá que ela deixa pra trás um monte de fios soltos. Cada fio que você puxar leva a outras visões sobre a mesma coisa. Esse final que está aí é a visão da Maria. Existem outros. Ou seja, é uma história sem fim. O menino está num manicômio? O velho voltou? É isso que a Maria sugere. Mas será?...

[Pelo visto, só você gastou tempo lendo essa lorota de cabo a rabo].

Abs,

Flávio

ENIO EDUARDO disse...

Flávio, eu também li de cabo a rabo a história do menino.

Aliás, que texto bem estruturado, que história intrigante.

O final é muito rico em possibilidades. Particularmente, acho que o menino esteja em tratamento psiquiátrico. Muita coisa pode acontecer.

Gostei do final, pois na realidade não há final. O final pode ser vários começos.

Abraço

Anônimo disse...

Para além dos olhares sobre o menino, com seu encanto pelo mistério e a vida que leva no dorso da própria existência, ainda se silencia com o desejo de ir além do que vê naquilo que se diz daquilo que se viu...

abços Flávio

André Valença Guimarães