8 de jun de 2010

De quê? - Parte 2/6

[Cliquem aqui e leiam, primeiro, a parte 1/6]

Eu ia pensando no meu nome... A situação de conforto e orgulho que ele me dava durou até os meus 8 anos, mais ou menos, eu acho, quando tive meus primeiros sobressaltos por causa do meu nome de Antônio Aprígio Neto. É o que me vem à memória... Na escola já grafava até com alguma prática, em letra cursiva, todo o nome com os dois tês cortados, os dois acentos e os dois pingos nos is. Ver Antônio Aprígio Neto escrito com minha caligrafia que nem eu até então conhecia reforçou meu sentimento de ser portador de uma nomeação literária e mesmo poética. Até ver os nomes de meus colegas... Foi quando me vieram as primeiras comparações e certo receio de menor importância de minha pessoa. Me encheu as vistas, logo de cara, o nome do meu amigo Zoca, de verdade, Afonso Cláudio Pereira e Assunção. Deus do céu: isso é que era nome! Tinha uma beleza muito mais arrumada do que a do meu. Bastava analisar: o Afonso era forte e moderno. O meu Antônio talvez tivesse a mesma força, mas não o mesmo jeito moderno. Pra piorar, aí vinha o Cláudio e aumentava essa modernidade e por cima dava uma personalidade danada ao primeiro nome. O nome composto era incomum. Quase perfeito. O sobrenome trazia toda sua linhagem familiar: a matriz materna posta ali junto com a paterna na ordem certinha. É fato: Zoca tinha nome, sobrenome e tradição. E tenho certeza que era isso que dava folga ao seu portador de ser o sujeito tranqüilo que era. Zoca tinha sua questão de nome resolvida, o que o despreocupava e o deixava em paz para assumir uma personalidade, assim, de bem com a vida. Já o meu desafortunado predicado – pensei -, perdia-se numa articulação frouxa. Foi aí que me ocorreram dúvidas terríveis se Aprígio era de fato sobrenome, se representava um clã familiar. Será? Antônio Aprígio poderia ser só um nome composto - né não? - mas aí me sobraria como sobrenome a palavra Neto. Tudo bem que significava um grau de parentesco e uma homenagem e tanto ao meu avô, mas jamais seria um sobrenome. E Antônio de maneira solta era um trem assim impessoal que deus me livre. Havia mil Antônios, mil Antônios Netos, todos anônimos. Miséria!...

Foi aí que eu me compadeci - Santa Maria! - com a pior sorte de meu avô Antônio Aprígio, que nem do Neto dispunha. Já pensou? Era um homem de prenome solitário, um errante, proibido de seguir a sua própria história. Melhor assim: melhor com Neto do que sem Neto...

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