8 de jun de 2010

De quê? - Parte 3/6

[Leiam, na ordem, as partes anteriores 1/6 e 2/6]

Vou falar a verdade: eu me angustiei de uma vez por todas foi quando vi as letras verticais, firmes e certinhas de Álvaro Marmo Lana de Sousa Abrantes. Era um nome, pra mal dos meus pegados, rigorosamente completo. Um romance mesmo. Apresentava todas as formações e associações que eu podia imaginar. Tinha um rigor danado! Pra minha desgraça, se eu já me preocupava com o e articulando os sobrenomes duplos de Zoca, me acabei de inveja com a distinção da partícula de na formação da genealogia de Álvaro. Para começar, esse nome tinha tal completude que sequer exigia um apelido e, é fato, Álvaro sempre foi chamado pelo seu nome de registro. Álvaro e ponto. Eu ficava pensando cá comigo que isso certamente deve ter contribuído para sua personalidade mais afirmativa. Afirmativa até demais... Devia ser pela ausência de inseguranças e dúvidas garantida pela perfeição do nome. Ele, pelo menos, nunca teve que se remoer com a disfunção de uma dupla identidade ameaçando-lhe com uma dupla personalidade, como eu: Toinho ou Antônio? Agora, um prenome simples, mas com sobrenomes de primeira categoria, de um poder de dar gosto. Bastava analisar: o nome de Álvaro não era uma tola homenagem a um avô, mas um desenho de toda uma longa ancestralidade, com todos os ramos familiares, tim-tim por tim-tim, tudo 100% identificado. Álvaro não era Abrantes como qualquer Abrantes, mas um Sousa Abrantes, outra gente, que soube procurar outros de mesmo naipe, os Marmo Lana. Álvaro tinha passado e, pior!, tinha futuro... [Modestamente, se eu fosse chamado a fazer algum retoque, talvez eu propusesse apenas um nome de menor grandeza na sua frase. Alguma coisa com um sotaque de humildade. Vou ser franco: eu receio que o excesso de nomes tônicos demais havia sido responsável por ter feito dele, desde que eu o conheci, um menino meio arrogante. Meio não, arrogante e meio. Pode ser que um Luís, por exemplo, não lhe roubasse a nobreza e lhe abençoasse com um pouco de modéstia, o que não faz mal a ninguém, mesmo a pessoas de seu nível, né mesmo?. Um Álvaro Luís lhe cairia melhor...]

Vou confessar: tive golpes de pânico até no estudo de nomes mais austeros, em grafias menos trabalhadas no papel pautado, como o de Cícero José Tenreira. Cá entre nós: Ciço era alegre, brincalhão porque tinha um nome sem tormento nenhum, nenhum. E miúdo. Não tinha nem o peso do nome a sustentar. É, sei não..., não tinha o peso, mas tinha diferenciação. Destaque... Nem Cícero nem Tenreira eram comuns na nossa turma. Apenas o José. Mas aí também havia um sei lá o quê de chiqueza. O José, que podia até ser parente do meu incógnito Antônio, era em Ciço não o nome, apenas um adereço a mais que estava ali só pra dar ao seu nome principal uma respeitabilidade a mais, uma titularidade, um dom qualquer, um dom José. Eu fui obrigado a reconhecer que nós dois tínhamos nomes miúdos e simples, mas que só isso era igual: a simplicidade em mim era só vulgaridade; nele, que vulgaridade o quê?, era uma harmonia danada em pequenos detalhes.

Eram presságios ameaçadores, não dá pra fazer idéia... Eu fui vendo que os nomes de meus colegas foram nomes longamente pensados, durante a vigília da gravidez das suas mães. Pesados, ordenados matematicamente. Verdadeiras equações! Daí meu temor pelo desapego de meu Antônio Aprígio Neto: uma coisa inesperada assim, involuntária, boa coisa não era. Pensei: talvez eu não tivesse sido planejado, simplesmente me foi dado o primeiro nome que veio à cabeça de meus pais. Vai ver deram mais importância em fazer uma homenagem a um avô do que exatamente nomear um pobre de um filho. Fiquei sem saída. Foi aí que morri de medo das circunstâncias mal contadas do meu nascimento e do amor paterno para comigo. Melhor não: melhor nem pensar...

Um comentário:

Flávia disse...

Flávio,

Sem querer ser afoita e já sendo, informo que estou no aguardo do capítulo do dia de hoje(parte 4/6).

Bj

Flávia