7 de mai de 2010

Menino

Há tempos eu não caminhava sozinho. É que uso duas sombras brancas. De segunda a sexta, uma que atende por Rafael, um menino afrescalhado e muito habilidoso; no final de semana, outra, Ana Maria, uma menina franzina e muito habilidosa. Hoje, cansei-me do silêncio da cadeira de rodas e dos sons domésticos que passaram a ser todo o meu mundo, tomei minha bengala, esforcei-me para levantar e segui lentamente pela varanda, lentamente pelo gramado, lentamente pelo pasto em direção ao rio. Sozinho, sozinho. Eu podia seguir de olhos fechados. Não tinha pressa nenhuma. Se desse, queria, ao longo do caminho, apenas substituir as partituras sonoras monótonas das panelas na cozinha, da vassoura correndo o chão pelos sons do vento sobre o capim, pelos sons dos pássaros, pelos sons longínquos do tempo. Muito lentamente, guiei-me com ajuda da cerca, até que divisei o rio. Desci a ribanceira e alcancei a praia de pedra. Despi-me dos chinelos e pus os pés na água. Que maravilha! Talvez fosse o meu limite. Mas eu já havia transposto o meu limite: eu não teria mesmo como fazer o caminho de volta... Avancei, molhando as pernas do pijama, a blusa do pijama até ser dragado pela correnteza. Boiei, dispensei a bengala e me deixei levar. Sozinho, sozinho. Onde eu iria parar?, pensei temeroso. Na minha idade, qualquer resposta era irrelevante, qualquer temor era inútil. Que mal me faria uma pequena e última aventura?...

6 comentários:

Zeca Dias Amaral disse...

No Bretas tem bons vinhos na casa dos 15 reais. Livros bons em pechincha só com a passagem do tempo. Décadas, pelo menos.

Blog de Flávio de Castro disse...

Zeca,
Aqui é melhor: literatura de quinta a preço de banana...
Bom fim de semana...

Paulo do Boi disse...

Muito legal o texto...

Gostei

Vanessa Coutinho disse...

Flavio,
Que texto bonito, que nos leva a reflexão da necessidade de nos arriscar, aventurarmos pela incerteza, rompendo barreiras e limites, coisa que muitas vezes tememos de forma cômoda e previsível.
Vanessa Coutinho

Anônimo disse...

Lindos texto. Tem mais uma parte?

Raquel disse...

Velho livre! Bom demaisdaconta. Liberdade não tem preço. Nem explicação.