29 de mai de 2010

Menino - XX

Eu achei mesmo que as coisas iam voltar ao seu normal. O menino estava alegre... Ontem, o pai, ao encontrá-lo, parecia ter entendido seu coração de menino, suas tristezas e não ralhou com ele, nem o pôs de castigo pelo sumiço. A patroa também não fez estardalhaço e parecia também ter compreendido o filho. Ele tomou um banho quente, alimentou-se depois de horas de jejum, dormiu como um anjo e acordou num outro dia, numa alegria só, só dele. Achei que aquilo era sinal de que a paz ia voltar àquela casa. Os cachorros, as galinhas, os marrecos, as vacas, os passarinhos, a fazenda inteira também parecia pensar do meu modo. Ao ver o menino daquele jeito bom, os barulhos de sempre voltaram como sempre. Maritacas briguentas cruzaram o céu logo cedo, bem-te-vis penduraram na cerca, canarinhos se arriscaram até a varanda, os cachorros voltaram com suas arruaças. Mesmo sem o velho, tudo me dizia que a vida ia continuar lá do ponto onde tinha parado. Até que a patroa entrou na cozinha... Ela não tinha cara de quem havia acabado de acordar. Nem cara de choro, nem cara de alegria, muito menos cara de vida comum, de dia-a-dia, de sábado. Por certo, ela e o marido custaram a sair do quarto, não porque dormiam e davam tempo para as coisas entrarem nos seus eixos por conta própria, mas porque tramavam alguma coisa. Alguma coisa nada boa. Eu aticei o fogo do fogão, mexi a panela das galinhas, rezei, rezei e rezei, mas não consegui me livrar dos maus presságios que seu rosto grave me trouxe. Ela entrou e saiu. Mas o ar pesado ficou...

Um comentário:

Flávia disse...

Pronto! Agora tô eu aqui com o coração na mão...