28 de mai de 2010

Menino - XVIII

Eu sai de uma fazenda, pela manhã, e voltei para outra, no meio da tarde. Pela manhã, era uma calma; à tarde, outra em polvorosa. Minha esposa veio aos prantos narrando o que vinha se passando. Atrás dela, uma fila de mulheres de olhos arregalados registrava o ar de tragédia pelo sumiço do menino. Era como se dissessem: Deus do céu, o menino foi no rastro do velho! Fui até os vaqueiros. Seu Zé se antecipou e aprontou-se a me informar: - Em todos os quadrantes, patrão, de norte a sul, de leste a oeste, um dos nossos homens passou. O menino não está em canto nenhum. Retornei e da beira da varanda corri o olho na propriedade, no curral, nos pastos, até a mata do rio. Pensei em sentir culpa, mas desviei o pensamento. Cai num silêncio de quem ainda não sabe o que fazer e pus a cabeça pra pensar. – Cadê o miserável?, fiquei matutando... Na hora que achei devida, desci a escada de madeira da varanda, venci o gramado, passei em frente ao curral, de cabeça baixa, passei pela roda de homens sobre as montarias, cochichando, e tomei o caminho do rio. Claro! Como não?! Sobre a poeira alta desses dias que não chove, estavam lá os rastros do menino. Segui, passei pelo atoleiro das vacas, perto do açude, e fui pela marca indicada, na linha da cerca, até o rio. Na beira d’água terminaram os riscos, exatamente no trecho raso, encascalhado. Fui até a outra margem e reencontrei a pista. Em um e outro trecho do pasto, ela ameaçava sumir, mas não deixava de indicar a direção da mata. Segui. Dentro da mata, eram menos nítidos os limites do pisado sobre as folhas secas. Mas havia galhos quebrados, folhas remexidas e, aqui e ali, mais uma sola impressa do calçado. Bem no fundo da mata, debaixo de uma velha aroeira, encontrei o meu filho sentado, com os braços amarrando as pernas e o queixo nos joelhos. Não disse nada, a princípio, apenas sentei ao seu lado... Ele não se moveu, não deu por mim. – Filho?!, falei, depois de um tempo, escondendo qualquer sentimento de alívio ou de raiva. – Pai, ele respondeu sem muita atenção. Passou-se, então, um século de silêncio. – Como você me achou, pai?, ele perguntou com a voz um tanto embargada. – Os rastros, meu filho. Bastou segui-los, respondi. Novo silêncio... – Pai, ele começou a falar e parou... – como você sabe se os rastros são de verdade como os meus ou de mentira como os de vô foram pra você?, completou. – Eu conheço você, meu filho. Sei quando os rastros são seus... Mais um silêncio... – Pai, você consegue enxergar rastros na água do rio, no capim do pasto e nas folhas da mata?, voltou, sem se mover, nem sequer piscar. – Não, filho, claro que não, mas posso deduzir. Não foi difícil concluir que você transpôs o rio e adentrou a mata. Ele fechou-se de uma maneira assim incômoda de quem mais nunca ia voltar a falar. Depois de passar outra eternidade, com uma voz muita baixa que não fazia nenhuma questão de ser ouvida, quase como uma afirmação fingindo ser uma pergunta, ele me disse: - Pai, então o senhor também fantasia?... Achei melhor calar-me. Mais uma vez, instalou-se um tempo sem fim... Ao final, ele levantou-se, escondeu que chorava, tomou o caminho de casa e, cabisbaixo, foi em frente...

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