26 de mai de 2010

Menino - XIV

Quando a noite caiu de uma vez por todas, o silêncio tomou conta da casa e as últimas lâmpadas se apagaram, eu cozinhei um mexidinho com angu bem molinho, do jeito que o menino gostava, e fui até o seu quarto. Ele estava imóvel na escuridão, encolhido no alto da cama. Calado estava, calado ficou. Vi que estava acordado pela raspação de um pé sobre o outro. Cheguei bem perto. Pela pálida claridadade vinda da janela, percebi as marcas do corrião. O menino 'tava todo vermelho. Não tinha uma nesga branca de pele. Disse bem baixinho, quase ao pé do ouvido: - Querido, trouxe seu mexidinho... Ele virou lentamente o rosto, alçou as vistas inchadas de choro na minha direção, deixou escapar uma lágrima perdida - eu acho - desvirou-se para junto do travesseiro e não disse nem que sim nem que não. Depois de um silêncio sem fim, tentei de novo: - Querido... Com uma voz que não tinha nenhuma vontade de ser voz, com uma voz que parecia sair dos olhos, com uma voz que parecia não ter sido dita, ele me cortou mansamente: - Maria, quero comida não; me diz só, Maria, porque o mundo fugiu daqui? Aqui era um lugar tão bom...

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