24 de mai de 2010

Menino - XI

Eu estou me sentindo só. O meu avô foi embora e levou com ele as palhaçadas de meu pai comigo, a alegria da minha mãe, a cantoria da Maria cozinheira, as imitações de passarinhos de Seu Zé pelo terreiro afora... Só ficaram por aqui a cadeira de rodas com a manta, largada num canto, as lágrimas de minha mãe, os gritos dela comigo por qualquer coisa que eu faça, os olhares pesados de meu pai sobre mim, os olhares de banda e a benzeção de Seu Zé quando eu passo, os olhares cabisbaixos da mulher de seu Zé quando me vêem... Eu conto, eu explico, eu mostro tudo o que encontrei naquele dia que vô sumiu, mas ninguém acredita em mim. Eu juro por tudo que é santo que não estou mentindo, mas nem me ouvem. São capazes de acreditar em tudo, em capeta, em alma penada, em disco voador, mas não são capazes de acreditar em mim, no chinelo sujo e na terra riscada. Dão de ombros. Me ignoram. Só porque eu sou criança? Meu pai, outro dia, veio com uma conversa muito esquisita, me dizendo que entendia minha tristeza e entendia o fato de eu ter inventado... - Inventado o quê, eu gritei! Fiquei me sentindo um doido, mas gritei sem querer. E gritei mais. E chorei. E quanto mais eu gritava e chorava mais eu me sentia um doido. Quanto mais eu dizia que tudo era verdade, mais doido eu me sentia. Eu juro: eu não estou doido. Eu estou com medo. Medo do meu pai, medo da minha mãe, medo do Seu Zé. Medo. E nem tenho o meu avô pra conversar...

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